Ninguém nos ouve, ninguém faz uma reportagem mostrando o que está acontecendo nesse nosso chão, nos nossos rios, nas nossas águasJerônimo Coutinho, agricultor de Campo Grande, São Mateus

Conhecemos Jerônimo no 17º Festival do Caranguejo da Ilha de Campo Grande. Na ocasião, o agricultor nos perguntou se éramos de algum jornal. Ficou muito feliz quando descobriu que sim  —  como declarou, minutos depois, em sua fala no seminário que marcou a abertura do evento: “Estava conversando com o pessoal do jornal de Mariana. Graças a Deus, São Januário do Vasco botou vocês aqui. Nós temos que dizer!”.

Campo Grande foi uma das primeiras comunidades que visitamos durante nossa viagem ao litoral do Espírito Santo, iniciada em abril. Ao nos apresentarmos, dizíamos que viemos da “cabeceira do desastre” para conhecer as consequências do crime na vida dos capixabas. Na estrada, o nó na garganta se repetia ao vermos a extensão do impacto ambiental provocado pelo rompimento de Fundão e a gravidade da crise social causada pela lama de rejeitos pertencente às mineradoras Samarco, Vale e BHP Billiton.

Para compreensão do caminho que tornaria esta narrativa possível e coerente à linha editorial de seu veículo de comunicação – o Jornal A Sirene –, fomos guiados pela noção de que o jornalismo investigativo não é apenas aquele que traz a tona algo até então oculto, mas também aquele que possibilita uma nova interpretação sobre determinado tema. Em nosso caso, pretendemos situar nosso público leitor em relação ao processo de reparação conduzido no contexto do desastre, quebrando falsas noções que alimentam o senso comum - visões polarizadas que variam entre o “nada está sendo feito, porque o Brasil é o país das injustiças” e a sensação de que “tudo está resolvido, porque é o que a propaganda financiada pela Fundação Renova diz”.

Entregamos a reportagem “Em nome do mar, do rio e do Espírito Santo” com a expectativa de que os conflitos por ela anunciados revelem novas leituras às consequências do maior desastre de mineração do mundo. Pois bem: o que procuramos fazer aqui é dizer que há, sim, trabalhos desenvolvidos em torno da reparação, mas que, não necessariamente, estes vêm sendo suficientes para garantir a reparação integral dos direitos das vítimas. Ao contrário, o que nossa experiência de campo revela é que o processo de reparação, da forma que está sendo conduzido - sem transparência, sem participação dos atingidos, desligado de um plano de regeneração socioambiental - acaba por impor novas violações às populações atingidas pelo rompimento em 2015, gerando a elas um estado de dano contínuo, diariamente agravado.

Neste trabalho, trazemos, em primeiro plano, a experiência de capixabas que tiveram a vida radicalmente alterada pela contaminação ambiental do leito do Rio Doce e de parte da costa brasileira. São pessoas que perderam as condições de trabalho, que vivem em estado de insegurança alimentar, crise de abastecimento de água e que foram abruptamente desconectadas de suas relações cotidianas com a natureza.

Integra o contexto narrativo desta reportagem, além deste especial multimídia, uma cartilha informativa para as populações atingidas e uma exposição fotográfica com registros dos atingidos e atingidas entrevistados. Após expostas, estas imagens serão entregues aos sujeitos fotografados a fim de homenageá-los por sua resistência.

Como um pescador que tece sua rede, escrevemos, em palavras e imagens, um texto-oração feito de sofrimento e esperança, vulnerabilidade e força, passado e futuro.  

À cura do Rio Doce; boa leitura!

ENTREVISTAS

Aline de Jesus Reis, pescadora de Barra Nova Norte - São Mateus / Andréa Azevedo - Diretora Institucional da Fundação Renova / Andressa Lemes, Presidente da Associação de Pescadores de Colatina / Creuza Campelo, pescadora de Campo Grande - São Mateus / Dalila Santos, pescadora de Campo Grande - São Mateus / Douglas Santos - Fórum Capixaba de Defesa do Rio Doce / Eliane Balke, pescadora de Campo Grande - São Mateus / Fátima Neves, moradora de Povoação - São Mateus / Flávia Ramos - Aliança Rio Doce / Gilmara Conceição, Vice-presidente da Associação de Maricultores de Conceição da Barra / Gleuza Barcelos, moradora da aldeia Areal - Linhares / Hauley Valim - Aliança Rio Doce / Heider Boza - Coordenação do Movimento por Atingidos de Barragens (MAB) do Espírito Santo / Jerônimo Coutinho, agricultor de Nativo - São Mateus / Joca Thomé - Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade / João Marcos Mattos - Defensor Público da União do Estado do Espírito Santo / Joice Lopes, pescadora de Barra do Riacho - Aracruz / José Barcelos, morador da aldeia Areal - Linhares / José Costa, morador da comunidade quilombola Degredo - Linhares / José de Fátima Lemes, pescador de Maria Ortiz - Colatina / José Luís Ramos, morador da aldeia Caieiras Velhas - Aracruz / Jucelia de Sena  do Rosário, pescadora de Barra Nova Norte - São Mateus / Karai Tataendy (Nelson Santos), morador da aldeia Boa Esperança - Aracruz / Lucilene de Jesus, moradora da comunidade quilombola Degredo - Linhares / Maria Auxiliadora e Família Rufino, pescadores de Conceição da Barra / Mariana Sobral - Defensora Pública do Estado do Espírito Santo / Mimbira (Helena Coutinho), moradora da aldeia Caieiras Velhas - Aracruz / Rogério Pessanha, pescador de Barra Nova Norte - São Mateus / Rosetânia Ferreira, Presidente da Associação de Maricultores de Conceição da Barra / Rosiane Montebelo, pescadora de Barra do Sahy - Aracruz / Roseane dos Santos Santana, pescadora de Barra Nova Norte - São Mateus / Simone Batista - Coordenadora do projeto de extensão OCCA - UFES / Simião Barbosa, pescador de Povoação - Linhares / Suely Araújo - Presidente do Ibama e do CIF

AGRADECIMENTOS

Agradecemos a todas as pessoas que tornaram este projeto possível; em especial, a todos os atingidos e atingidas pelo rompimento da Barragem de Fundão, moradores do Espírito Santo. À regeneração do rio, do mar, do mangue; ao restabelecimento dos modos de vida de todos vocês, dedicamos a realização deste trabalho.

Jornalistas responsáveis: Daniela Felix e Rafael Drumond Texto: Rafael Drumond Imagens: Daniela Felix Edição de vídeo: Larissa Pinto / Web Design: Flávio Ribeiro Arte e Diagramação (versão impressa): Talita Aquino Orientação: Leonardo Sakamoto

Jornal A Sirene - Jornalista responsável: Silmara Filgueiras

Projeto realizado com recursos aprovados em edital de Jornalismo Investigativo. Fundo Brasil de Direitos Humanos

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