O Direito à Comunicação para os atingidos e o jornal A Sirene que ousamos sonhar

Foto: Tainara Torres/Jornal A Sirene

Da Redação

Com o apoio de Flávio Ribeiro

No último final de semana, mais especificamente no sábado (03), os(as) atingidos(as) pela Barragem de Fundão, tiveram o dia reservado para debater o direito à Comunicação. O objetivo do seminário “Os atingidos e o direito à comunicação”, realizado pelo Jornal A Sirene, na Escola Padre José Epifânio Gonçalves, em Barra Longa, foi o de fortalecer este instrumento de luta contra a tragédia/crime da BHP Billiton, Vale, Samarco e Fundação Renova e traçar novos rumos para a comunicação dos(as) atingidos(as).

Atingidos(as) da cidade de Barra Longa, das comunidades de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo, zona rural de Mariana (Pedras e Ponte do Gama), assessores técnicos dos(as) atingidos(as) – da Cáritas e Aedas, membros do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e demais colaboradores e pesquisadores se reuniram e relembraram o início da publicação e seus objetivos.

O jornalista Gustavo Nolasco – um dos fundadores do Jornal A Sirene – falou sobre a comunicação como direito, apontando o cenário pós-tragédia/crime de Fundão em que o jornal precisou ser criado e fortalecido como um instrumento de comunicação para os(as) atingidos(as) que, até então, tinham perdido suas relações mais próximas.

Gustavo Nolasco é um dos fundadores do Jornal A Sirene. (Foto: Wandeir Campos/Jornal A Sirene)

“Dos três atores que tínhamos atuando no contexto do crime em 2016: o poder público, as empresas e os atingidos, o poder público tinha uma grande estrutura de assessoria de comunicação (equipamentos, profissionais, dinheiro e salários), uma estrutura de  inteligência (pessoas que pensam a comunicação, as estratégias do discurso), verba publicitária (toda prefeitura têm) e o mais sórdido pra mim, que é uma estrutura partidária por trás (de qualquer governo) e que vai ser a força de seu discurso. As empresas mineradoras tinham, também, uma assessoria de comunicação, uma estrutura de inteligência, uma grande verba publicitária, e, ainda, aquilo que funciona muito bem pra elas, infelizmente, que é uma estrutura de lobistas e entidades de classe que sustentam o discurso deles. Quando se pensa nos atingidos, o que eles tinham? Absolutamente nada. Então, quando você começa uma guerra midiática em que um tem o elenco do time do Real Madrid, o outro tem o elenco do Paris Saint Germain e o último tem o elenco do time do Guarany de Mariana, quem você acha que vai ter chances de que a sua voz seja ouvida ou de que a sua voz dite a discussão na mídia? Qual era a chance do protagonismo da guerra midiática ser dos atingidos?”

Gustavo Nolasco, primeiro editor-chefe do Jornal A SIRENE

Diante disso, Nolasco contou que foi preciso pensar em preparar os(as) atingidos(as) para que eles ocupassem esse espaço na disputa pelos discursos, e, ainda, ser educativo nesse processo, também blindando as vítimas contra forças externas para que nenhum grupo, movimento ou partido pudesse se apropriar deste lugar de fala deles na medida em que ele fosse ganhando esse caráter de “voz”. Assim, começou a se pensar em alguns objetivos para o jornal exercer esse direito à comunicação – “entendido como a  capacidade de ingressar na guerra midiática com as mesmas armas que os oponentes”. Dentre os principais, estão, dar protagonismo aos(as) atingidos(as), “ouçam a todos, mas a voz tem que ser sua”, tornar o jornal algo poderoso, que precisava ser temido pelas empresas e também ser uma fonte de informação a ser consultado por outros veículos, “não passar a imagem de que era apenas uma experimentação”,  e conseguir financiamento para que o projeto pudesse caminhar com as próprias pernas.

Para o Padre Geraldo Martins, que integra o Conselho Editorial do jornal e atua pela Arquidiocese de Mariana, o projeto A SIRENE nasceu para “manter a comunhão da comunidade atingida”, seja em relação ao discurso por meio dos “repórteres populares”, a vizinhança ou na luta pela causa que, para ele, “era o que restava aos atingidos na disputa pelo protagonismo: vontade e união”. Além disso, ele acredita que o  jornal surge para registrar a memória das pessoas que ali estão ou estiveram, e, que, também, está preocupado com “as falsas notícias e as meias verdades”.

“A nossa primeira preocupação, enquanto igreja, foi a dispersão das comunidades (atingidas), a fragmentação, todo mundo longe em um ambiente diferente, e o que podíamos fazer para manter a comunhão. Para além disso, a comunhão da luta, do discurso, dos objetivos. Essa era nossa grande preocupação, fazer com que eles estivessem unidos na luta, porque desde o início sabíamos que era uma luta de Golias contra Davis. E se o Davi se desarticulasse, facilitava ainda mais para o Golias. Depois, esse objetivo (pensado para o contexto de Mariana) se ampliou para as comunidades de Barra Longa, Sem Peixe, Santa Cruz do Escalvado e Rio Doce.”

Padre Geraldo Martins, conselheiro do Jornal A Sirene

Padre Geraldo, à esq. fala durante roda de debate. (Foto: Tainara Torres/Jornal A Sirene)

Assim, o jornal A Sirene busca se consolidar não somente como um espaço de fala dos(das) atingidos(as), mas também garantir que as conquistas observadas pelos moradores de cada comunidade surjam como um resultado do trabalho que a comunicação pode ter na vida deles. Tal como aponta o padre, “no centro da notícia estão as pessoas” e diante disso, o projeto A Sirene  “é maior do que podemos imaginar”.

Nas palavras dos(as) atingidos(as), o jornal A Sirene deu oportunidade de acesso e construção das informações

“A gente participa com o atingido, tem intimidade com ele. O jornal é a única comunicação segura que nós temos, porque é feita por nós”.

Sergio Papagaio, morador  de Barra Longa e repórter do Jornal A Sirene

“Que o jornal continue dando voz para os atingidos, sendo mais uma força para lutar.”

Simone Silva, moradora  de Barra Longa e repórter do Jornal A SIRENE

“Há uma perda de memória na própria comunidade. O Jornal faz um registro que funciona como documento. Um documento que pode ser usado em sala de aula. Há um desconhecimento internacional da causa dos atingidos e dos modos de vida que foram destruídos pelo rompimento. Colocar o que falamos e do jeito que falamos é muito bom. Mais do que explorar a dor, é importante mostrar a realidade de todas as comunidades.”

Luzia Queiroz, moradora  de Paracatu de Baixo e Sirenista (conceito de quem é admirador e incentivador do projeto A SIRENE)

O projeto A Sirene e o futuro

Na segunda parte do encontro,  os participantes se dividiram em grupos e discutiram temas importantes para nortear a continuidade do projeto A Sirene. A partir de quatro pilares de discussão foram debatidas questões como, pensar alternativas para sustentação do jornal, consolidar e ampliar o protagonismo dos(as) atingidos(as), expandir a área de cobertura e aprimorar a assessoria de comunicação.   

A partir dessas discussões, os(as) atingidos(as) nutriram o desejo de expandir o projeto para além do reassentamento das comunidades, reconhecendo que o jornal é um instrumento de luta importante e tem condições de se tornar  ainda mais forte, ampliando assim, o direito à comunicação que, para eles, precisa, ainda, ultrapassar as fronteiras do papel jornal.

COMENTE

Ainda não há comentários

Os comentários estão fechados

CADASTRE-SE NA NEWSLETTER

Send this to a friend