Justiça, pelos olhos atingidos

Por Andreia Sales, Cintia Silva, Jadir José Arantes (Nonô), Maria Quintão e Milton Sena

Com o apoio de Dulce Maria Pereira e Miriã Bonifácio

Fotos: Lucas de Godoy e Silmara Filgueiras

Sentir-se injustiçado(a) é um sentimento que a gente vem carregando há dois anos e nove meses. A palavra justiça, então, tem vários desdobramentos para a nossa vida. Mesmo que a reparação dos danos do rompimento da Barragem de Fundão seja devidamente feita, não há valor que pague o saber das nossas vidas como eram antes, e ter a dor de ver como elas estão agora. Ninguém devolve a nossa mirada para o Rio Gualaxo, o olhar para o céu de Paracatu, o alimentar os passarinhos lá no Bento. Assim como ninguém tira a situação de vergonha que já passamos por sermos atingidos(as), nem esse sofrimento que aperta na alma, na mente e no coração da gente. Uma mudança nas leis, o reconhecimento do crime por aqueles que foram responsabilizados pela tragédia e uma indenização justa para cada pessoa poderiam minimizar essa sensação, mas jamais irão cobrir aquilo que não tem preço.

“Pessoas que se percebem injustiçadas têm o direto de expressar seus sentimentos e de demandar reparação pelo sofrimento que a injustiça lhes causa. Assim, a judicialização da dor causada por sentir-se injustiçado(a) é parte do cotidiano do judiciário também. Há uma relação direta entre sentir-se injustiçada(o) e ser injustiçado(a). Não há valor justo em um processo que teve como resultado mortes e que causa tantos adoecimentos a partir da dor.  Há o valor mais justo, e é o que temos discutido na construção da Matriz de Danos. O pedido de desculpa pode ser parte de um processo de reparação e/ou de indenização por dano moral. Pessoas que foram desqualificadas, além do pagamento pelos danos morais, devem receber o pedido de desculpas.”

Dulce Maria Pereira, da UFOP, professora e consultora da Cáritas na assessoria às Atingidas e aos Atingidos.

“Teríamos justiça se tudo o que aconteceu não passasse de um sonho ruim, e, de repente, ao acordarmos, estaria tudo como em 4 de novembro de 2015. Mas como isso não é possível, hoje, seria feita justiça se reparassem o que for possível a todos(as) os(as) atingidos(as). E também se tivesse uma punição para os criminosos que ainda estão à solta por aí.

Milton Sena, atingido de Ponte do Gama

“A questão da justiça, para nós, seria o comprometimento da empresa a partir do crime que ela causou. Que ela realmente assumisse e procurasse resolver as coisas de maneira que pudéssemos tentar recomeçar as nossas vidas. Esse crime deveria ser pago através de mudanças no modo de trabalho das empresas. Que aqueles que estão ali para fiscalizar realmente fizessem o trabalho deles, que se preocupassem de verdade com o que uma tragédia como essa pode causar. ”

Andreia Sales, atingida de Bento Rodrigues

“O primeiro ponto para a justiça de todos seria a fiscalização e a criação de novas regras de funcionamento dessas barragens, porque, depois dessa tragédia de Mariana, a gente viu que ela não foi a primeira e, se continuar desse jeito, não vai ser a última. O segundo ponto, e um dos mais importantes para gente, seria que houvesse um tempo determinado, sem prorrogação, para que eles construíssem as nossas casas, para que a gente pudesse voltar, ter um lugar para chamar de nosso.”

Cíntia Silva, atingida de Paracatu de Baixo

“Não só no nosso caso, mas o que mais se vê não é justiça e sim o oposto. A sensação que temos é que, a cada dia que passa, vamos nos sentindo mais acuados. A pressão é muito grande, pois a nossa briga é com os grandes, empresas, governo, ou seja, ela é muito difícil e requer muita persistência. E sabemos que, para eles, qualquer dinheiro vale mais do que a justiça. Por isso, sempre prefiro acreditar e esperar a justiça divina, nessa sim podemos confiar.”

Maria Quintão, atingida de Bento Rodrigues

Um pedido por justiça

“Nós, proprietários do Sítio Água Boa, Jadir José Arantes, Maria de Fátima Arantes, Maria das Graças Arantes, José das Graças Arantes e Valdemira Inácia Vieira Arantes, cobramos da Fundação Renova, representante das mineradoras, a efetuação da compra da casa apresentada por nós. Essa casa é reposição à outra de 13 cômodos e também da casa de caseiro, de quatro cômodos, que foram destruídas. Nós estamos sofrendo com essa situação. Nossa mãe tem 94 anos, e ela reza um terço todos os dias. As empresas causaram muitos problemas para nós. A parte da nossa terra que nos ajudava todos os dias está coberta de rejeitos. Perdemos a forma de produzir nossos alimentos naturais que ajudavam muito na nossa saúde. Exemplos dos alimentos: galinha caipira, frangos, ovos, queijo, requeijão, broa de fubá, cuscuz com queijo e mandioca ralada, frutas, legumes, verduras, peixes da represa e do rio, e outros tipos de carne. A nossa terra ia ser irrigada pela queda da cachoeira sem gastar bomba e força elétrica. Tem regiões em que é necessário o uso de energia elétrica para irrigação, e gasta-se três mil reais ou mais por mês. Hoje, nós temos esse problema, deixamos de ter esse benefício na minha geração e nas outras futuras. A nossa terra tem material que contém ouro. Já conseguimos tirar 30 gramas de ouro em porcentagem por semana dos garimpeiros que trabalhavam na área. Esse ouro está em uma média de sete metros de profundidade. Era uma opção para nós, proprietários, quando a necessidade de dinheiro era de força maior. Nós também perdemos os amigos que acampavam e compravam nossos produtos. Perdemos o jeito de fazer a casa de campo para alugar. Os donos das mineradoras, empreiteiros e aliados continuam na vida boa. Nós tínhamos a terra que oferecia muitas coisas. A Samarco, Vale e BHP mandaram, além de lama, muito rejeito que acabou com as opções dessa terra. A indenização deve ser competente para cobrir todos os danos. Contratamos um topógrafo para fazer a medição da área e deu que estamos com nove hectares de terra com rejeito.”

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