Não reconhecidas

Por Dalva Xavier Castro, Julita Celestina da Cruz Gomes, Marlene Agostinha, Rosária Conceição da Silva, Solange da Silva e Vera Lúcia AleixoCom o apoio de Amanda Gonçalves, Larissa Pinto e Miriã Bonifácio

Fotos: Larissa Pinto

As mulheres atingidas enfrentam o desafio de não serem reconhecidas, pelas empresas causadoras dos danos (Samarco, Vale e BHP Billiton), como trabalhadoras. Por isso, elas contam como a perda de renda e de outras formas de sustento, desde o rompimento da Barragem de Fundão, faz falta no fim do mês.

Por que nós, mulheres, não temos direitos para a fundação/empresas?

Vera Lúcia Aleixo (Foto: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)

“A empresa me considera dependente do meu marido e, para ela, tenho direito a receber 20% do que ele recebe. Eu não vivia de porcentagem, eu tinha meu salário e é um absurdo eu não ser reconhecida até hoje. Eu tinha um salão domiciliar, já tinha toda a estrutura, e era o único em Gesteira. Fazia escova, hidratação, relaxamento, corte, tudo. Isso está no meu cadastro, mas eles disseram que não conheciam a minha história. Não se interessaram, né? Porque estava tudo lá.

Com a lama foi embora mais de 30 litros de shampoo, condicionador, produto de hidratação, tudo novo. A empresa me deu só um vidro de shampoo e um creme de 1 litro, três escovas, uma cadeira e uma chapinha. Mas e o ponto? Onde vou trabalhar? Vou investir em uma casa que não é minha e colocar gente que não conheço aqui?

A Renova criou essa ideia de que a mulher não trabalha, mas, na própria equipe deles, tem muito mais mulheres do que homens. Eles fizeram isso porque sabem que nós somos maioria.”

Vera Lúcia Aleixo, atingida de Gesteira

Vera Lúcia Aleixo (Foto: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)
Julita Gomes (Foto: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)

“Eu plantava só pra despesa. Com essa lama meu marido ficou quase dois anos desempregado porque ele trabalhava na área da Samarco e eles falaram que ia segurar, mas mandaram todo mundo embora. A gente ficou bem apertado, sem ter o que comer, o que trazer pra cá e sem lugar de plantar, porque a lama atingiu as partes mais baixas do terreno, que é melhor pra plantar. Tinha banana, jambo, angá, amora. Eu não perdi nada de dentro de casa, mas eu perdi as coisas que eu trazia e o melhor lugar de plantar, né? Agora, eu fiz outra plantação, mas a área é mais alta, no morro. Planto só um pouco para ajudar nas despesas mesmo, como mandioca, milho e feijão. Quando consigo trazer um pouco mais e sobra, dou pros vizinhos e pras pessoas que precisam. Tudo que você tem na sua casa, que você planta, você não precisa comprar. Depois do rompimento, se eu quero mandioca, banana, tudo eu tenho que comprar na venda e fica mais caro. Porque se você fica sem, você tem que comprar. Vai ficar sem comer? Vai ficar doente? A gente ficou um tempão sem comer coisa boa, porque, aqui, a gente compra, mas não é a mesma coisa.”

Julita Celestina, atingida de Pedras

“Eu trabalhava na minha casa. Fazia corte de cabelo, escova, penteado, manicure, pedicure. Eles falaram que eu não tinha direito porque não tinha sido deslocada, mas quem são eles pra falar o que eu tenho direito ou não? A minha renda era pra minha família. Toda vida, eu fui mãe e pai pro meu filho. Era com o meu dinheiro que eu pagava estudo, comprava roupa e calçado pra ele. Tudo era eu que pagava.

Antes do rompimento, minha mãe tinha a vida dela lá na roça e eu tinha a minha aqui. Hoje não, eu tenho que ficar por conta dela e do meu irmão.

Outra coisa que eu sinto muita falta é que, desde criança, a gente era acostumada a pescar no rio, na lagoa. Aquela lagoa era do tempo dos nossos bisavós. A gente panhava lambari, acará, traíra, bagre. Lá tinha peixe criado, de muito tempo. Agora acabou.”

Marlene Agostinha, atingida de Pedras

Marlene Agostinha (Foto: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)

Não fomos lembradas

“A gente gostava muito de panhar peixe. Agora, como deu a barragem, não tem jeito mais. Eu pescava pro sustento. Se eu for falar, eu criei meus filhos tudo com peixe. Pegava traíra, bagre, acará, lambari. Passava fubá, fritava e comia aquele peixe torradinho. Hoje, não dá pra comer por conta da lama. Essa falta do peixe aperta no fim do mês, porque a gente não tá aguentando comprar carne. Quando a gente acha uns peixes, eles estão num preço absurdo e não é gostoso igual esses que a gente panhava no rio.

A gente fica nessa casa o dia inteiro sozinha. Não é fácil não. Tem hora que eu deito nove, dez horas e, quando dá uma hora da madrugada, já tô acordada. Porque a gente acostumou a levantar de madrugada pra trabalhar na roça e esse costume meu não acabou.

Eu comecei a mexer com o Cadastro desde 19 de dezembro do ano passado e nós já estamos em quanto? Quer dizer, todo mundo foi lembrado, eles chamaram, acolheram, eu ainda não fui.”

Rosária Conceição da Silva, atingida de Rio Doce

Rosária Conceição (Foto: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)

“Perdemos muita coisa, vara, barraca, tudo lá. Desde quando rompeu, eu pus meu nome. Dessa última vez, muita gente pegou formulário, mas eu não peguei ainda. Vai fazer quatro meses já. Eu ligo pra lá e eles falam que não precisa preocupar porque vai chegar. Aí fica nessa espera e nada.

A gente ia pro rio, acampava lá. Hoje não tem nada pra gente fazer, perdeu o lazer. Tinha vez que a gente ficava o dia inteiro no rio. É triste. Hoje não tô trabalhando. Dificultou tudo. O peixe ajudava muito. Para substituir fica difícil, porque tá um preço absurdo. A gente compra mais frango. E dá uma diferença grande, né, porque a gente também vendia pros vizinhos. Deixava alguns pra gente e vendia o resto.”

Solange da Silva, atingida de Rio Doce

Solange da Silva (Foto: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)

“Eu pescava, eu e meu marido, pro sustento do lar, mas, quando sobrava a gente vendia. Era um dinheirinho extra que entrava. Os peixes que a gente pescava ajudava no orçamento da casa. Agora vai fazer o quê? Abalou a gente, foi uma coisa assim, sem esperar. Eu estou tomando remédio de depressão depois disso aí, porque era um lazer que a gente tinha, aquela paisagem para distrair. Agora não tem como, acabou. Eu fiz o Cadastro em dezembro e ainda não fui reconhecida. Eles não dão previsão de quando dar retorno, só ficam enrolando a gente.

A minha casa foi levantada com pedra que eu tirei do rio. Antes, o material de construção era mais barato, a gente pagava 20 reais no metro de areia, hoje já tá 70. Eles estão batendo o pé que não querem reconhecer a gente. Eu acho isso muito errado porque o rio praticamente divide a cidade de Santa Cruz do Escalvado com Rio Doce.

Outro dia, eu e meu marido fomos na beira do rio, a gente foi passear, como a gente costumava ir quando pescava. Ah, dá até tristeza! Só vê pedra e aquelas coisas de minério no canto do rio. A gente fica chateada com isso, uma coisa que é da natureza, que a gente perdeu. A gente sabe que nunca mais vai ter o rio de volta. Nós vamos lá fazer o quê? Pegar barro? Eu não tenho coragem de comer esses peixes, acabou. Eles tinham que indenizar todo mundo e parar com essa frescura de ficar enrolando.”

Dalva Xavier Castro, atingida de Rio Doce

Dalva Xavier (Foto: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)
Dalva Xavier (Foto: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)

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