O que eles não querem entender

Por Caetano Silva, Eder Felipe da Silva, Tatielly Martins Cunha e Vera Maria Martins Cunha
Com o apoio de assessoria técnica AEDAS e Tainara Torres

Para os(as) moradores(as) das comunidades atingidas, o rompimento foi só o início do que viria pela frente. Hoje, além de lutar por uma reparação justa, eles(as) lidam de forma constante com o desmerecimento da Fundação Renova em relação às moradias que eles(as) mesmos haviam construído, já que as empresas afirmam que as casas foram, na verdade, malfeitas. Com essa alegação, a Renova tenta se esquivar, a todo momento, da responsabilidade pelos desdobramentos do crime quando se trata das casas trincadas por causa do intenso tráfego de caminhões nas cidades após o desastre e, sobretudo, não é capaz de entender que, mesmo diante de uma reconstrução ou de uma nova construção nos reassentamentos, os modos de vida desses moradores já foram alterados.

“Quando eu resolvi construir minha casa em Paracatu, foi aquela história, lá na roça, de ter que pedir mamãe e mamãe ter que pedir papai pra eu fazer a casa. Escolhi o lugar onde era a casa da minha avó, e eu nem sabia. Fiz a casa. Ali era o lugar que a gente escolheu pra viver o resto da vida.”

Caetano Silva, morador de Paracatu de Baixo

“Eu trabalhei muito na construção dessa casa, porque os trabalhadores vinham e ficavam fazendo hora. Nós, na pressa de construir, já deixávamos a areia coada, montávamos aquelas ferragens. A gente trabalhava demais, eu e meu marido. E as empresas falaram que a casa foi mal construída.”

Vera Maria Martins Cunha, moradora de Barra Longa

“No próprio laudo da minha casa tem isso [de que foi mal construída]. A empresa disse que a minha casa tem esses problemas e, no finalzinho, o engenheiro colocou que o problema é má construção. A minha casa não foi feita para suportar uma lama dessa proporção, que chegou na nossa cidade. Eu costumo falar: se engenharia fosse tão bom, a represa não tinha descido, certo? Quantos engenheiros a empresa tem? A lama não desceu a mesma coisa?! Não estourou?! Quer dizer, engenheiro não é tudo na vida. Faz parte, mas não resolve tudo.”

Eder Felipe da Silva, morador de Barra Longa

“Não temos condição de pagar um engenheiro, mas nós temos ótimos profissionais aqui, na nossa cidade. A maioria das casas, prédios, tudo foi construído com gente daqui mesmo. São casas muito bonitas e muito bem-feitas. Então, o problema não é quem construiu a casa e sim o que eles trouxeram para nossa cidade, que é a lama. E, hoje, eles querem colocar a culpa nas nossas casas.”

Eder Felipe da Silva, morador de Barra Longa

“A laje daqui foi uma festa! Não foi em caminhão não, foi no braço mesmo. Oitenta homens pra ajudar a bater. Matamos os patos, as galinhas. Foi festa o resto do dia. Essa casa foi uma festa desde o primeiro dia. Só eu sei o peso dos blocos e da peneira de areia que eu coei e, ainda, com alegria.”

Vera Maria Martins Cunha, moradora de Barra Longa

“Indiscutivelmente, a partir do rompimento da barragem, os modos de vida das comunidades como um todo mudaram, principalmente quando as pessoas passam por um deslocamento compulsório, porque elas perdem as referências de vizinhança. Então, o rompimento da barragem causa vários danos e a Fundação Renova não consegue entender que as pessoas tiveram os modos de vida alterados em função de vários fatores: quando passam a não morar mais no espaço em que residiam anteriormente, quando os vizinhos se mudaram, ou não ter acesso mais ao rio, não ter acesso mais às comunidades que foram dizimadas, a questão da lama, a poeira, as vias que sofrem danos diariamente. Na verdade, o rompimento foi o início de vários outros danos que acontecem até hoje, em consequência dele.”

Danielle Jorge, assessora técnica da AEDAS

“As pessoas argumentaram com a Fundação que, durante a passagem dos caminhões nas ruas, sentiam as casas tremendo. A Fundação rebateu dizendo que ‘o ser humano tem uma percepção de vibração inferior às residências’. Resumindo, ela quis dizer que essa questão de tremer a casa é uma coisa psicológica, a gente não sente a casa. É um absurdo esse argumento. No laudo, ela não considera, em nenhum momento, que a história da cidade é de um lugar com 300 anos e que o método que os moradores usam é a autoconstrução, um saber popular passado de geração a geração. Em nenhum momento, ela contextualizou a casa com o rompimento da barragem. É uma cidade que foi construída sem previsão de rompimento, como qualquer outra cidade do Brasil, com um método usado no país inteiro.”

Danielle Jorge, assessora técnica da AEDAS

“A história que essa casa tem — de ter sido feita no mesmo local onde era a da minha avó — não vai ter mais no lugar para onde vamos. Mudou tudo. De lá, eu saía, largava ela toda aberta e ia pra casa da minha outra vó, voltava e a casa estava do mesmo jeito. Fora, ainda, que a gente está abandonando uma história que a gente criou, de você ver a construção. Quando a gente bateu a laje lá, fizemos uma feijoada doida, tomamos cerveja, jogamos truco ainda na porta de papai. Isso a gente não vai ter.”

Caetano Silva, morador de Paracatu de Baixo

“Se eu mesmo pudesse fazer a minha casa no reassentamento, seria bom, porque tenho mais confiança. Eu sei do jeito que eu faço, a empresa não. Se eles não autorizam você a participar da construção da casa, como é que você vai saber? Eles não vão entrar nela, quem vai morar é a população.”

Caetano Silva, morador de Paracatu de Baixo

“Essa casa tem a vibe do meu pai, a vibe do amor, da criação, da felicidade. A vibe que você não acha em lugar nenhum. Todo mundo que entra aqui se sente bem. A nossa criação, o nosso convívio foi muito bom, aqui com papai. Ele, mamãe e eu tínhamos uma convivência incrível. Então, de certa forma, a gente revive isso aqui dentro de casa, essa alegria que ele deixou. Em cada cantinho, a gente lembra. Olho pra janela da cozinha e vejo ele olhando o rio igual era. Isso não vai ter em lugar nenhum. E a empresa não entende isso: que podem oferecer um castelo, mas não vai ser o que tem aqui. Você trabalhar, construir sua própria casa, juntar seu dinheirinho. Na época, era muito sofrido, pai ganhava o básico do básico.”

Tatielly Martins Cunha, moradora de Barra Longa

“A minha casa não é, assim, uma maravilha de casa, mas é uma casa que eu sempre sonhei em ter daquele jeito. É a que me suporta. Tudo que tem lá eu agrado, de cada tijolinho que foi colocado lá. Hoje, eu não tenho a minha casa mais. Tinha os vizinhos, a tranquilidade. Eu considero meus vizinhos como família, e nós perdemos tudo isso hoje. Ninguém tá morando perto do outro mais, cada um está morando em um lado da cidade. Isso é o que deixa a gente mais chateado, hoje em dia.”

Eder Felipe da Silva, morador de Barra Longa

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