Chega de sofrer calada

Por Beatriz, Paula, Rafaela, Sílvia e Viviane*
Com o apoio de assessoria técnica AEDAS, Larissa Pinto e Tainara Torres

*Para proteger as mulheres, optamos por manter suas identidades em sigilo,
assim como as cidades e as comunidades das quais fazem parte.
Todos os nomes usados nesta reportagem são fictícios.
** Alertamos que o conteúdo dos depoimentos pode acionar desconfortos emocionais
em leitores sensíveis a temas relacionados a assédio e violência contra mulher.
Recomendamos também que esta reportagem não seja lida por crianças
sem a supervisão de um adulto.”

Além do desafio de não serem reconhecidas como trabalhadoras pelas empresas causadoras dos danos (Samarco, Vale e BHP Billiton) ao serem consideradas como dependentes dos maridos no processo de cadastramento, as mulheres também sofrem com o assédio dos trabalhadores das terceirizadas contratadas para atuar nas comunidades. A chegada de tantos homens nas cidades de Barra Longa e Rio Doce alterou o cotidiano dessas mulheres e trouxe novos problemas para regiões que já sofreram tanto com o crime das mineradoras. As páginas desta reportagem especial são preenchidas apenas pelos relatos de assédio, para fazer ecoar as vozes da vítima e dar a elas um espaço de acolhimento diante de mais essa dor em consequência do desastre.

“Eles acham que as mulheres têm o dever de ficar com eles, principalmente quando bebem, né?! São insuportáveis! Isso tá acontecendo demais. Se você parar pra conversar, a maioria das mulheres aqui vai falar a mesma coisa. Tem abuso de poder: é chefe, é gerente. Até os mais simples se acham. E o pior é que você fica com medo porque nunca sabe quem é quem, se pode confiar ou não. Antigamente, não tinha isso, agora tem muita firma aqui e isso foi devido à barragem. Veio muito homem de fora. Não é que nunca existiu, mas agora tá demais, é homem que você nunca viu na face da Terra.”
Sílvia

“Existe um sistema que é histórico não só no Brasil, mas universal: o patriarcado, que está muito presente na nossa sociedade. Patriarcado é um sistema no qual os homens vêem as mulheres como propriedade. Isso fica mais forte na cidade, porque é a combinação do capitalismo e do patriarcado. Juntos, eles formam um modelo de controle ainda mais forte sobre a vida das mulheres. Então, além de conviver com a exploração, ainda tem a opressão. Ainda mais aqui: uma cidade que recebeu muitos trabalhadores. Isso influencia diretamente a vida das mulheres, porque as relações mudam. As pessoas daqui se conheciam e, com essas pessoas que passam a circular na cidade, as mulheres não se sentem mais seguras.”

Laís Oliveira, assessora técnica da Aedas

Patriarcado é uma sistema social que dá poder aos homens. É interpretado como sinônimo de “dominação masculina” e opressão das mulheres, já que os homens, nesse espaço, exercem autoridade sobre as mulheres.

“Muita gente não consegue ficar na porta de casa mais. Na hora do almoço, você passa e os homens já começam a mexer, já começam as gracinhas. Essas horas são as piores. Você fica constrangida porque tem aquele monte de homem. E, quando reclama, ninguém toma atitude nenhuma. Se chamar uma autoridade, eles vão falar que é mentira. Gente de firma, aqui, tem mais valor que os próprios moradores.”
Sílvia
“Na época que aconteceu o rompimento, nós tínhamos contato direto com o pessoal da Samarco e tinha muito assédio. A cidade estava um caos e, depois de tudo que aconteceu, a gente não imaginava que alguém ia querer tirar proveito. Eu conheci um funcionário da Samarco que disse que ia me ajudar. Ele tinha um cargo de destaque na empresa. Depois de um tempo, comecei a notar que ele passava aqui em casa com muita frequência. Sempre vinha aqui pra tomar café, parava o carro e me chamava pra ir a Mariana, dormir com ele e voltar no outro dia. Vinha com a mesma desculpa de tomar café e, todos os dias, depois do café, vinha o convite: “Vamos pra Mariana. A gente sai pra jantar, fica mais à vontade, conversa melhor. Lá tem spa”. Ele sempre falava: “Você é muito bonita, tem que sair daqui”. Eu me senti assediada e fiquei muito mal, porque vi que ele tinha segundas intenções. Estava se tornando uma coisa recorrente, quase jogando na minha cara: “Eu te ajudei quando você precisou. Agora, estou cobrando isso de você, então você tem que fazer isso comigo”. Depois que ele foi embora, o assédio continuou pelo WhatsApp. Ele me convidou para viajar e ficar com ele em outro Estado por uns dias, disse que ninguém nos reconheceria. As mulheres aqui passam por isso, mas elas não entendem como assédio. Tem meninas grávidas aí. Por ser cidade pequena, isso fica normal.”
Paula

“A gente vê muito, na fala das pessoas, a forma naturalizada do assédio. Do assobio até casos mais graves, mas que estão naturalizados e geram essa invisibilidade. Achamos normal uma mulher ser assediada na rua, ser constrangida. Não fomos ensinadas a questionar, estamos começando a fazer isso agora, com o feminismo. Ainda assim, o assédio continua sendo visto como algo comum.
Existem vários casos de meninas que estão namorando homens das terceirizadas que não são daqui e são muito mais velhos. São meninas de 14 anos namorando homens de 29. As pessoas vêem isso como natural e dizem que não tem assédio. Só que um homem mais velho tem mais facilidade em convencer e até em iludir e, por isso, pode manipular a menina nessa relação. Não é saudável. É preciso discutir e questionar isso para que as próprias pessoas consigam entender essa situação de violência. Estamos trabalhando com uma questão que faz parte da estrutura da nossa sociedade. A gente passa, nossa mãe passou, nossa avó, e quebrar esse ciclo não é simples.”

Laís Oliveira, assessora técnica da Aedas

Feminismo é um movimento social e político que busca conquistar o acesso a direitos iguais entre homens e mulheres e que existe desde o século XIX.

De acordo com a Lei Maria da Penha, violência contra a mulher não se resume apenas a agressão física, mas envolve, também, violência psicológica. A lei, presente desde 2006, busca proteger mulheres contra violência doméstica e familiar e casos de violência psicológica como afastamento de amigos e familiares, ofensa, agressão verbal, tensão, manipulação, desrespeito.

“Eu sempre venho na rua no horário de almoço porque é a hora que meus filhos vão pra escola. Já cansei de não passar por algum lugar porque tinha muito homem. O centro fica cheio, você tem que ficar desviando deles ou até nem vir na rua. Eu evito até de sentar na praça. Quando eles passam de ônibus, mexem, assobiam, uns chegam até a cabeça na janela. Isso deixa a gente constrangida. Se a gente olhar, eles acham que a gente tá dando confiança e já vêm meter a cara, já vão caçar passar a mão, essas coisas. Pode chegar uma hora que eles vão cercar, violentar, a gente nunca sabe. Aí eu passo de cabeça baixa pra evitar, pra depois não falarem: “Ah, Fulana deu confiança, Fulana quis”. Se acontece alguma coisa, depois eles falam: “Ah, mas eu sou de outra cidade, eu não fiz isso”. Quem sai perdendo sempre é a mulher. Nessa hora, somos sempre culpadas.”
Beatriz

Segundo pesquisa realizada pelo coletivo Think Olga, na campanha Chega de Fiufiu, 81% das mulheres já deixaram de fazer alguma coisa (ir a algum lugar, passar na frente de uma obra, sair a pé) por medo de sofrer assédio. Das mais de 7000 entrevistadas, 90% já trocaram de roupa pensando no lugar em que iriam.

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