Chega de sofrer calada – Segunda parte

“As mulheres estão na linha de frente da luta. Elas sempre foram as responsáveis pelo cuidado da casa, da família. Às vezes, ela trabalha fora e ainda está presente nas reuniões, trazendo uma pauta que não é só dela, que não é só sobre o cartão dela, mas é a pauta da família que está com a moradia trincada e precisa sair porque está em situação de risco. Ela traz a pauta da saúde porque os filhos estão com alergia, porque a família está com problema respiratório. As mulheres estão na linha de frente, mas também é preciso entender que isso é um processo de responsabilização que existe há muito tempo e que recai sobre os nossos ombros.”

Laís Oliveira, assessora técnica da Aedas

“Foi depois que as empresas vieram pra cá que isso começou. Só que aqui, por ser uma cidade tranquila, até um pouco pacata, se acontecer alguma coisa, eles preferem nem falar nada, porque isso pode prejudicar a imagem do lugar. Se alguém falar: “Aqui não tem nada disso”, então, minha filha, vamos chamar todas as mulheres pra acampar aqui dentro que elas vão ser muito felizes.”
Viviane
Eu trabalhei em uma das terceirizadas limpando os alojamentos. Uma vez, um funcionário dessa empresa chegou onde eu limpava e colocou um filme pornográfico na TV a cabo. Não era hora do almoço dele nem nada, não era pra ele estar na casa. Depois, ele foi pro banheiro e ficou me chamando, querendo que eu fosse levar papel higiênico pra ele. Eu não fui e falei que não ia ficar dentro da casa com ele ali. Depois, ele saiu e foi embora. Quando eu fui limpar, tinha camisinha, o banheiro tava todo sujo com aquela “porcariada”. Eu reclamei e me trocaram para outro alojamento. Só que começou tudo de novo. Um outro lá conseguiu meu WhatsApp com alguém e ficou mandando mensagem e perguntando se eu queria ficar com ele, me chamando de gostosa, falando que meu marido não ia saber. Perguntava se eu não traía meu marido. Falava que eu tinha uma boca boa. Tem hora que eu até falo que não queria ter esse tipo de boca.
Tem uma coisa que eu não esqueço nunca mais, uma cena que foi horrível. Tinha um homem que trabalhava em outra empresa, era conhecido nosso. O cara bateu lá em casa perguntando do meu marido. Eu falei: “Ele foi ali embaixo comprar uma coisa e já tá voltando, se quiser esperar”. Sabe assim, sem maldade? A pessoa já foi na sua casa. Você não vai imaginar. Ele tentou me agarrar à força, chegou a colocar o ‘negócio pra fora’. Eu até machuquei o braço brigando pra tentar me defender. Eu fiquei naquele choque porque você jamais vai imaginar que uma pessoa que você conhece vai entrar na sua casa pra tentar abusar de você.
Eu nunca tive paz desde que as empresas chegaram, desde que comecei a trabalhar lá. Foi horrível. Eu fiquei um mês sem aparecer na empresa. Pedi pra me mandarem embora, mas eles não queriam. Eles transferiram esses meninos, só que ainda tinham outros caras. Eu já não estava aguentando mais. Depois que eu saí da empresa, eu comecei a entrar em depressão. Só queria ficar no escuro. Sabe quando cê tem trauma de homem? Eu comecei a fazer tratamento, a tomar três tipos de calmantes. Só que não estava fazendo efeito porque eu não estava conseguindo dormir.
Eu quase não vou muito na rua. Porque, se eu for, corro o risco de ver algum dos caras. Eu já vi dois. Na hora que eu vejo algum deles, meu coração dispara, eu fico gelada. Fico doida pra achar alguém pra ficar perto. É só eu pisar na rua que eu fico nervosa, não consigo nem conversar, fico doida pra ir embora, brigo até com o meu marido.
A minha menina mesmo tá traumatizada. Vira e mexe, ela fala comigo: “Calma, mãe. Cê não vai morrer não”. Mexeu com o psicológico dela, porque ela me vê brigando, chorando. Uns tempos pra trás, eu surtei comigo mesma, deu vontade de me matar. Meu marido teve que me segurar, esconder as facas. Eu me ‘unhei’, me machuquei. Antes, eu era mais tranquila, alegre, brincalhona. Saía, andava a cavalo. Hoje, se meu marido não for comigo, eu nem saio.
Eu não tenho mais vontade de trabalhar fichada. O pessoal fala comigo: “Deixa o currículo em tal lugar”. Não tenho coragem. É a primeira vez que fico sem trabalhar, mas não consigo. A gente começou a passar necessidade aqui dentro de casa, mas a Samarco falou que não ia ajudar porque não éramos atingidos diretamente, porque, como nós não tínhamos terreno, não tínhamos direito de receber nada.
Rafaela

A violência contra a mulher é um problema sério que atinge a todas(os). Em caso de assédio e/ou violência, denuncie pela central Ligue 180. O serviço é gratuito, funciona 24 horas e o anonimato é garantido. A denúncia pode ser feita por qualquer pessoa, mesmo que ela não seja a vítima.

As mulheres da região de Barra Longa, Rio Doce e Mariana podem procurar também a Delegacia da Mulher de Ponte Nova. A denúncia pode ser feita presencialmente, no endereço Rua Felisberto Leopoldo, 252, Bairro Santa Teresa, e pelos números: 180 (Central de Atendimento à Mulher) e 100 (Direitos Humanos).

Em Ouro Preto, existe o Serviço de Atendimento à Mulher (Siame), que funciona no endereço Praça Reinaldo Alves de Brito, 13, Centro. Também é possível entrar em contato pelo número (31) 3551 6245. A instituição oferece atendimento social, psicológico e jurídico, além de ofertar cursos como crochê, tricô e pintura de tecidos. Para assessoria jurídica, em especial, o Siame pede que a mulher tenha um boletim de ocorrência com o registro do caso.

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