As estratégias de desmobilização da Renova

A Fundação Renova tem investido na desarticulação dos(as) atingidos(as) e na redução da força das comunidades. O que se percebe, após o crime, é que a empresa atua para enfraquecer a luta coletiva. A aplicação dos critérios para reparar os(as) atingidos(as) tem sido feita, em alguns casos, de forma arbitrária. Isso pode significar, por exemplo, que, para duas situações parecidas, ou iguais, são utilizados critérios de reparação diferentes. Essa falta de clareza nos parâmetros que visam, a princípio, reparar os(as) atingidos(as) e a demora no processo são alguns exemplos do que se entende por estratégias de desmobilização usadas pela Fundação Renova.

Por Mauro Silva e Mirella Lino
Com o apoio de Caromi Oseas e Luis Pedro Moreira (Assessoria Técnica dos Atingidos de Mariana – Cáritas), Larissa Pinto, Patrícia Castanheira (Centro Alternativo de Formação Popular Rosa Fortini – Assessoria Técnica dos Atingidos de Rio Doce), Rafael Francisco e Tainara Torres

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O propósito da Fundação está totalmente distorcido, porque ela fala em metodologia, mas usa estratégia. O propósito deveria ser de indenização e reparação justas, a justiça pelos mortos, a preservação da história. A Renova foi construída para garantir direitos, mas, nesse caso, os direitos das empresas e não dos atingidos. Tanto é que a existência dela é pelos recursos das empresas e o propósito da mineradora é o lucro. Em uma situação dessa que aconteceu com a Samarco, e agora com a Vale, o foco passa a ser minimizar prejuízos.

Mauro Silva, morador de Bento Rodrigues

Não se fala em Ponte do Gama, Pedras, Campinas, Camargos, Borba, Paracatu de Cima como atingidos. Justamente pela pouca visibilidade, nós, da zona rural, optamos por unir as comunidades e lutar coletivamente pelos direitos de todos. Agora, conseguimos voltar com os GTs (Grupos de Trabalho) para a zona rural, e isso incomodou a Fundação Renova. A Fundação diz que vai voltar com reuniões para discutir isoladamente os problemas de cada comunidade. Nós entendemos essa postura como uma manobra para desarticular o GT e desmobilizar nossa luta. A Fundação tenta separar, dividir atingidos e causar atrito: dar cartão para um e não dar para o outro quando as duas pessoas estão em situações iguais. Essas atitudes têm o objetivo de desmobilizar nossas ações coletivas. Nós estamos, há três anos, no processo de negociação, de conquistas de direitos, mas sempre há um esforço da Renova para que o processo seja feito da forma mais cansativa possível.

Mirella Lino, moradora de Ponte do Gama

A Fundação trabalha para individualizar os atendimentos às famílias e apresentar propostas de reparação também individualizadas, inclusive com tratamentos muito diferentes para casos semelhantes. Desmotivam a organização das comunidades e desgastam os espaços coletivos para que as pessoas associem reunião à enrolação. Ou seja, ao invés de encaminhar e resolver as solicitações de reparação levadas pelas pessoas atingidas, a Renova adia soluções alegando, muitas vezes, “inviabilidade técnica”.

Caromi Oseas, Assessoria Técnica da Cáritas

A Renova tem a mania de distorcer as coisas até para os moradores da comunidade. Quando uma situação te confronta, quem é o culpado? A última a ser culpada é a Fundação Renova. Para alguns moradores, a culpa é do Ministério Público, da Cáritas, ou da Comissão. E quando você fala: “E a Renova?” “A Renova está tentando fazer e vocês não deixam”. À medida que se desvia o foco, através da desmobilização feita pela Fundação Renova, os atingidos são enfraquecidos, e as pessoas se dispersam e acabam se virando contra a comunidade.

Mauro Silva, morador de Bento Rodrigues

A Fundação Renova muda os horários de atendimento dos atingidos e dificulta o acompanhamento da Assessoria durante os encontros, o que pode prejudicar as negociações, além de desmotivar a participação das pessoas das comunidades.

Patrícia Castanheira, Centro Alternativo de Formação Popular Rosa Fortini (Assessoria Técnica dos Atingidos de Rio Doce)

A Fundação tenta transferir a culpa – que é das empresas e da própria Renova – para os(as) atingidos(as), para o Ministério Público e as Assessorias Técnicas e, até mesmo, para as empresas terceirizadas contratadas por ela. Além disso, para responder e construir soluções para as questões trazidas pelas comunidades, Assessorias e Ministério Público, a Fundação estabelece prazos longos, mas não os cumpre. São propostas ditas participativas, mas que não representam a vontade das comunidades atingidas. Essas estratégias provocam desconfiança e conflito entre os(as) moradores(as) e suas assessorias por meio de falas em espaços públicos ou em momentos isolados.

Caromi Oseas, Assessoria Técnica da Cáritas

A Assessoria busca promover espaços coletivos, como grupos de base e reuniões da comissão, para que os problemas possam ser percebidos e tratados. É importante que os(as) atingidos(as) se resguardem quanto às informações e ações da Fundação Renova, buscando sempre a Assessoria, o Ministério Público e/ou a Defensoria Pública para assessorá-los na compreensão e reação adequadas.

Luis Pedro Moreira, Assessoria Técnica da Cáritas

Eu quero, sim, lutar pelo futuro, mas jamais vou abrir mão do passado porque o passado a gente já viveu, é garantido. A gente tem as histórias e lembranças. O futuro é incerto. A gente está lutando, buscando os direitos da coletividade, mas a gente sabe que, até agora, não tem nada de concreto. Já são 3 anos e 5 meses depois do crime e ainda estamos na situação emergencial, com cartão de auxílio, aluguel, um adiantamento de indenização.

Mauro Silva, morador de Bento Rodrigues

É importante seguirmos com a nossa união, por mais que seja difícil, não só a zona rural, mas todas as comunidades, porque temos pautas coletivas. Todos somos atingidos. O nosso esforço é não deixar a Renova desmobilizar a nossa luta. Só assim vamos conseguir o nosso direito, que foi roubado. A melhor e única saída que nós, atingidos, temos é a luta coletiva para conquista de direitos.

Mirella Lino, moradora de Ponte do Gama

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