O crime se repete

Mais uma vez, as sirenes não tocaram. E as mineradoras nunca sofrem as consequências, mas, sim, as comunidades atingidas. Hoje, parte de Córrego do Feijão, zona rural de Brumadinho, está enterrada debaixo da lama de rejeitos da Vale, e outra parte precisa lidar com a perda de familiares e amigos, e com um cotidiano que, antes, não era cercado por lama. No dia 25 de janeiro, 233 pessoas foram mortas e outras 37 ainda permanecem desaparecidas, segundo dados da Defesa Civil de Minas Gerais até o fechamento desta edição. Essas vidas se somam a outras perdas: o sustento foi abalado e o rio não é mais o mesmo.

Por Artila Conceição de Souza, Fabio Vasconcelos (Fabinho), Jefferson Custódio, Mara Rafaela Clemente, Marisalva Isoni Oliveira
Com o apoio de Larissa Pinto, Wigde Arcangelo, Tainara Torres e Sérgio Papagaio

Eu não gosto nem de lembrar, me dá um trem por dentro e eu fico querendo tremer. Ficar recordando é triste. Foi muita gente minha que morreu. Eu perdi minha filha mais velha, Diomar, a neta que tava comigo, Jussara, e muitos conhecidos meus, sobrinha, afilhada…
Eu morava na roça, em Brumadinho, numa comunidade chamada Escontendas. Lá casei, criei minha família. Depois veio uma barragem de água para Brumadinho, deu muito prejuízo para o povo e eu tava lá. Meu filho, neto, eles que me trouxeram para cá. Fui desapropriada lá e agora vem mais uma barragem.
Tá aprontando pra vir outra barragem. Deve ser para terminar de limpar o povo daqui. Eu peço: “Jesus, me dá força e coragem pra eu acabar de criar meus netos, porque eles não têm pai nem mãe, é tudo aqui, fica tudo comigo”. Eu já sou bisavó. Meu primeiro bisneto, o Jefferson, tá com 20 anos.

Artila Conceição de Souza, moradora de Córrego do Feijão

Fotos: Larissa Pinto

“Nós ficávamos aqui na porta esperando minha avó chegar do serviço, ela chegava nesse horário”,
Jefferson Custódio, bisneto de Artila Conceição, que aparece na foto.

A Barragem do Sistema do Rio Manso, da Copasa, alagou as terras dos meus bisavós. Eles sempre trabalharam no campo. Isso foi entre 1980 e 1983 porque a represa foi construída gradativamente, foi alagando a comunidade. Minha bisavó, Artila, perdeu as terras que eram da família há mais de cem anos. Recebeu uma indenização, mas, para a época, era um valor insignificante. A comunidade deixou de existir porque as pessoas se separaram. Eles queriam comprar os terrenos, mas as pessoas não queriam sair, eles pressionaram até a pessoas venderem. Naquela época, não existia o MAB, até porque movimentos sociais eram proibidos. Foi no finalzinho da Ditadura.

Minha bisavó sente falta de lá até hoje. Ela nasceu em Escontendas, casou e tem parentes enterrados lá. É toda uma história que você tem que largar para trás. Quase o que aconteceu com a gente aqui, porque, aqui em cima, a lama não chegou, mas, quando a gente olha lá pra baixo, eram lugares que a gente passava. É uma parte da história que não volta mais. Ano passado, minha avó, Diomar, queria ir, pela última vez, a Escontendas, lugar em que ela cresceu. Ela foi lá para ver, mas não conseguiu chegar perto porque, igual a Vale, a Copasa não deixa as pessoas chegarem onde ficava a comunidade. Ela foi vítima de barragem duas vezes: primeiro, perdeu as terras e, agora, perdeu a vida.

Jefferson Custódio, morador de Córrego do Feijão

“O comércio da nossa cidade foi muito abalado, caiu muito”, Fabinho, morador de Brumadinho

Agora, a gente vê nosso rio completamente morto por causa dessa lama. Acabou com a nossa cidade, com o nosso rio. É muito triste. Levou embora muita gente conhecida. Eu não perdi parente, mas perdi amigos.

Fabio Vasconcelos (Fabinho), morador de Brumadinho

Eu acho que o pessoal de Córrego do Feijão nunca imaginou a proporção do que podia acontecer. Se alguém imaginasse que ia ser assim, podia ter reunido antes e feito alguma coisa.
O pessoal ouve de Palhano e acha que estamos debaixo de lama também, porque o povo fala de Brumadinho e as pessoas pensam que a lama passou aqui também, mas a distância daqui até a cidade é de uns 30 km. A lama não chegou aqui, mas nós fomos atingidos de outra maneira. Só quem passa por todo esse tempo de luta e não vê retorno é que sabe a dificuldade que vem agora.

Mara Rafaela Clemente, moradora de Palhano

Marisalva, à esquerda, toma conta do comércio da família com seu marido, filhos e a nora, Mara, à direita.

Esse comércio era do pai do Bininho, meu esposo. Ele toma conta até hoje. Os filhos estão aqui ajudando e eu também. A ideia é passar pros meninos, eles sempre trabalharam aqui e não querem sair. Eu tô aqui desde quando casamos, vai fazer 35 anos. O movimento caiu muito por causa da barragem. Ficamos sem ponte até dia 10 de abril. O povo fica receoso de vir aqui porque fala: “Brumadinho? Não, não vamos”. Eu perdi uns 80% de venda de peixe aqui na Semana Santa. Eu mesma não sabia da barragem. Depois que aconteceu que ficamos preocupados, perdemos muitos amigos nossos que vinham aqui pescar.

Marisalva Isoni Oliveira, moradora de Palhano

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