Dia 25 não vai passar

O crime se repetiu e parece se repetir todos os dias na vida dos(as) atingidos(as) pelas barragens das mineradoras Samarco, Vale e BHP Billiton do Brasil. No dia 25 de janeiro de 2019, mais uma barragem da mineradora Vale se rompeu. Dessa vez, o rejeito tirou a vida de 272 pessoas. Funcionários(as), pais, mães, avôs(ós), filhos(as), netos(as), duas crianças que não chegaram sequer a sair do ventre de suas mães. Cada pessoa individualiza esse sofrimento coletivo de uma forma, como é o caso do Sebastião. Um ano depois, ele ainda sai de sua casa e caminha até a cena criminosa que estampou os jornais em janeiro passado. Preocupado com um novo rompimento, quando ouve algum barulho alto, vai até o local onde está o restante da barragem B1. Observa, apreensivo, o amontoado de rejeito que pode, a qualquer momento, promover mais um rastro de morte e destruição. Sebastião representa o que há de mais perturbador na vida dos(as) atingidos(as): o medo e a desesperança de quem vive próximo às barragens em Minas Gerais.

Por Cristiano Sales, Eliana Marques, Geraldo Eugenio de Assis, Gleidson Alves, Lucia Maria de Jesus, Maria Conceição de Jesus, Maria Moura, Maurício Fernandes Reis, Odeite Lana Costa, Reginaldo de Almeida, Reinaldo Fernandes, Rose Fontes, Rubens Amaral, Sebastião Felício Camelo, Thauam Teófilo, Virlane Ferreira e Wilson Francelino Caetano

Com o apoio de Joice Valverde, Júlia Militão, Juliana Carvalho, Sergio Papagaio e Wigde Arcangelo

O dia.

No dia 25 de janeiro de 2019, às 12h40, começamos a receber muitas perguntas sobre o rompimento da barragem. Não acreditamos, mas começou a passar nos noticiários confirmando. Vídeos foram mostrados do mar de rejeito correndo sobre o asfalto, pessoas sendo arrastadas, uma confusão. E eu, sem acreditar nas imagens, procurava por notícias. Tinha uma amiga que trabalhava na cozinha do refeitório, amigos motoristas, vizinha que tinha começado a trabalhar no escritório há pouco tempo. O resto da sexta-feira foi de imagens de resgates, exibidas várias vezes em todas as emissoras. A noite chegava, a madrugada passava e não conseguíamos comer nem dormir, parecia que estávamos em um pesadelo. Refeitório em horário de almoço, escritório debaixo da barragem, só poderia ser uma tragédia anunciada…

Rose Fontes, moradora de Brumadinho

Aqui no restaurante estava cheio de gente. A cidade normal, todo mundo trabalhando. Estava sol, um dia quente. Uma mãe em prantos passou por aqui. Ela só gritava: “a barragem da Vale rompeu!”. Eu estava dentro do balcão e saí para acolher essa mãe. Logo em seguida, atravessei a ponte e fui até o supermercado e, na hora que eu cheguei lá, o gerente do supermercado, que já é antigo da cidade, não falou uma palavra, ele só abaixou a cabeça como quem diz: “é verdade”. Nesse instante, já começou uma movimentação de carro, de sirene e a polícia pedindo pra evacuar o centro. Eu pedi a todos que estavam no restaurante para saírem do estabelecimento. Simplesmente fechei. Deixei tudo do jeito que tava. 

Maria Moura, moradora de Brumadinho

Atuo como voluntário do grupo de resgate Anjos do Asfalto Minas Gerais. Quando aconteceu o rompimento, nós chegamos aqui à noite. Ficamos das 20h até às 2h, mais ou menos, tentando fazer alguma coisa. Mas, naquele primeiro momento, era impossível. Nos demais dias, viemos todos buscar as pessoas, principalmente à noite, varando a madrugada. Consegui ajudar a resgatar alguns animais vivos.

Geraldo Eugenio de Assis, morador de Betim

Quem era profissional da Saúde conseguia ultrapassar a barreira, que era atravessar o baixo do pontilhão pra ficar de prontidão na UPA, em caso de chegar alguns feridos, coisa que não chegou. No dia, eu vi só lama, era um fedor insuportável. Esse cheiro continua até hoje. É um cheiro de terra podre misturada com óleo, misturada com mato… E a lama é dura, ela não é líquida. A consistência dela é de cimento. Eu estava pesando, na época, 70 quilos e andei quase uns dois metros, eu não afundava. Nem a marca do meu tênis ficava.  

Maria Moura, moradora de Brumadinho

 

Na madrugada de sábado para domingo, às 5h30, as sirenes soaram e um carro da Defesa Civil anunciava a retirada dos moradores do bairro Canto do Rio e da parte mais baixa do meu bairro, o São Conrado, para que evacuassem as suas casas, pois a barragem B6 também havia se rompido e as partes baixas desses bairros seriam inundadas. O carro anunciava: “atenção, isto não é treinamento, aviso de rompimento de barragem”. Pessoas histéricas nas ruas, aos gritos, muitos abalados psicologicamente por estarem com entes queridos desaparecidos e, ainda por cima, começaram o domingo com um susto desse, para, um tempo depois, dizerem que foi uma mensagem de erro, que a B6 não havia estourado.

Rose Fontes, moradora de Brumadinho

 

No dia que arrebentou a barragem, eu estava trabalhando, meu marido tava em casa. Ele foi atrás de mim e passou por uma estrada e eu por outra. Então, quando eu cheguei, achei o portão trancado e não tinha onde entrar, fiquei “zanzando” por aí, falando que não sabia onde ele estava e o que fazia. Olhava pra lá e parecia que tinha fogo, os helicópteros tudo passando por cima aqui. No domingo, às 5 horas da manhã, a sirene tocou, era pra sair todo mundo da residência, porque a barragem estava estourando. Cinco horas da manhã, nós sem energia e sem nada. Eu estava deitada, escutei a sirene tocando. Levantei, vim na varanda, no escuro, e escutei a vizinha falar que era pra sair da residência que a barragem estava estourando. E nós subimos correndo, no escuro, de madrugada. Aí, nós fomos lá na casa do apoio e ficamos o dia todo, não arrebentou nada e nós voltamos pra casa à noite. Ficamos sem energia e sem água por oito dias.

Odeite Lana Costa, moradora de Córrego do Feijão

Nós estávamos no sítio e lá é uma distância longa do rio. Quando meu irmão chegou e falou, eu ainda falei com ele assim: “ô, Geraldo, não fala isso não. Deus que defenda”, porque ele é muito brincalhão. Aí ele parou e falou comigo assim: “não, é verdade, aconteceu isso lá na Vale”. E, com pouco, meu genro sobe correndo na beira do rio e gritou à esposa dele: “tira os meninos da piscina e sobe lá pra cima, que a barragem da Vale estourou”. Aí, aquele corre-corre, os meninos assim: “mas por quê? Nós não viemos pra ficar?”. Mas nós não podíamos falar o que tinha acontecido, porque criança, né? Foi aquela correria, a gente não morreu de sufoco, porque Deus é pai, porque, senão, nós tínhamos morrido de sufoco e de angústia.

Maria Conceição de Jesus, moradora de Brumadinho

A reação que eu tive quando aconteceu em Brumadinho foi ficar indignado. Porque aconteceu em Mariana, a gente sempre falava que ia acontecer de novo e realmente aconteceu. Mesmo assim, eles não estão tomando as devidas providências, então, quer dizer que lucro e o dinheiro valem mais do que a própria justiça, hoje, que é o que nós estamos passando lá em Mariana também.

Cristiano Sales, morador de Bento Rodrigues

As perdas.

Eu perdi meu filho e meu sobrinho. O que eu tenho pra falar é que os que mataram a família da gente, que paguem pelo que fizeram, que eu acho que é o certo, porque eles não vão devolver eles pra nós. Eu acho que o que eles fizeram, sabendo que ia acontecer, aquilo é uma covardia muito grande com a família da gente. Eles acharam que iam tirar a vida só de 270 seres humanos? Não, eles tiraram a vida de muitos pais de família, muitas mães de família e muitos filhos. Meu filho e meu sobrinho [Francis e Luís Paulo] eram mecânicos, prestavam serviço para a empresa. Os dois tinham 31 anos.

Wilson Francelino Caetano, morador de Pará de Minas

 

Eu sou cunhado do Samuel, que era técnico de Segurança de Trabalho, trabalhava na Vale. Ele era uma pessoa muito bacana, muito trabalhadora, começou a trabalhar na Vale há uns 12 anos. Ele deixou duas crianças, uma moça de 13 anos e um menino de seis. Na medida do possível, nossos familiares têm apoiado a esposa dele. E tem a saudade, a falta que nos faz todo dia. Principalmente, o filho do Samuel, que sente muita falta dele. A gente fica, até hoje, se perguntando o que o Ministério Público tem feito, o que a justiça do nosso país tem feito. Até agora, a gente não viu nada, ninguém foi penalizado e nem responsabilizado. Tanto aqui em Brumadinho, como no Fundão também, a gente vê que não teve nada. Esperamos de Deus a justiça, porque, no Brasil, infelizmente, ela é muito tardia. 

Reginaldo de Almeida,  morador de Ibirité

Meu primo [Ramon Júnior] tinha 34 anos. No 25 de janeiro, ele estava comemorando o aniversário da filha dele. Era pra comemorar. Deixou uma criança de cinco anos. A gente já relembra isso todo dia, aí chega essas datas assim e a dor parece que vem maior. Foi um inferno aqui na cidade, no horário que rompeu lá em cima. E a única coisa que a gente quer é justiça. Já faz um ano e ninguém foi preso. Não te dão uma resposta de nada. Ninguém é culpado. Então é um ano de impunidade. Brumadinho é uma cidade pequena, em que todo mundo conhece todo mundo. Então, se você vai ao supermercado, você sempre vê aquele rosto, sempre lembra daquela pessoa e, hoje, você vê um parente e fala assim: “poxa, aquele ali perdeu alguém”. E a nossa vida, hoje, é isso.

Gleidson Alves, morador de Brumadinho

Perdi o meu irmão, Laércio Ferreira, que trabalhava na Vale, no crime de Brumadinho. É angustiante a impunidade, não ter uma resposta da justiça e ver que as 16 pessoas que foram denunciadas ainda estão impunes. Causa uma angústia, uma revolta. A gente já tá com a dor de quem perdeu e, vendo essa impunidade, é muito triste mesmo. A gente busca por justiça. Não vamos desistir. É angustiante saber que a Vale, por toda a ganância de dinheiro, de desespero de produção, se tiver que matar mais pessoas, ela vai matar. Meu irmão era supervisor de infraestrutura da Vale há 15 anos, mas tinha por volta de uns oito meses que ele tinha aceitado essa proposta de ir para Brumadinho. Amava o que fazia, ele deu a vida pelo que gostava. O nome do meu irmão demorou uns três dias para ir pra lista de desaparecidos. A gente ligava insistindo pra colocar, porque ele estava trabalhando. A Vale sempre achou que tudo é dinheiro, tudo é regido em dinheiro, que a indenização que ela deu para as famílias tava de bom tamanho. Ela continua achando que as pessoas não têm sentimento, que elas não têm amor. A gente trocaria tudo pra ter o irmão da gente de volta.

Virlene Ferreira, moradora de Itabirito

O meu sobrinho [Walaci Junhior] é uma pessoa que a gente ajudou a criar. Ele era terceirizado da Vale. Agora, ele tá com Deus, melhor do que nós, mas o que a gente queria mesmo era ele continuar trabalhando igual trabalhava e não acontecesse isso. E foi muita gente. Na minha rua, morreu um tantão de gente. Mas o que a gente pede é justiça, tanto faz aqui pra Brumadinho como pra Mariana. 

Maria Conceição de Jesus, moradora de Brumadinho

 

Sou irmão da Gislene Amaral, que eles levaram. Acho que foi uma coisa premeditada. Uma coisa que estava anunciada e, por contenção de despesas, pela ganância, acabou levando um monte de gente inocente, infelizmente. Em um caso desse aqui, a justiça, se for feita, vai trazer a minha irmã de volta? Vai trazer quem morreu de volta? Minha irmã foi embora. Nenhuma justiça, nenhum dinheiro vão trazer ela de volta. E não é só minha irmã, não, um monte de amigos meus que se foram. A minha dor não é só pela minha irmã, é por todo mundo. 

Rubens Amaral, morador de Mário Campos

Mudanças.

Perdi muita coisa, perdi as coisas de geladeira, perdi meus “trem” tudo, comida, planta, galinha, porque não podia mexer com nada, que tava contaminado. Na época que arrebentou, tinha milho, mas a gente não podia comer nem os milhos. Depois de uns quatro meses, a Defesa Civil esteve aqui e falou que a gente podia comer. Mas a minha horta não presta, não sai nada.  Antes dava. Dava couve, alface, cebola…

Agora, você não vê ninguém aqui, até o armazém fechou. Nessa rua aqui, quase todo mundo saiu, tá morando de aluguel, tá morando só eu aqui, a vizinha e uma outra, em cima. Muita gente saiu. É ruim ficar sem vizinho. Eu não quis sair não, porque aqui tem criação, como é que eu saio? 

Odeite Lana Costa, moradora de Córrego do Feijão

 

Mudou muita coisa. Eu diria que uma coisa que mudou, pra quem era mais atento às questões políticas e econômicas da cidade, foi essa ideia de que nós precisamos sair da minério-dependência. Outra coisa que mudou é que ficou uma cidade triste. Ficou barulhenta, tráfego intenso, engarrafamento, poeira… Temos dificuldade de alugar uma casa, de alugar um barraco. A perspectiva de futuro também mudou, a pergunta que está na cabeça de muitas pessoas é: o que que vai ser de nós? Mudou muito também aquela ideia de que a Vale era uma deusa, apesar do esforço dela de continuar. Parece que as pessoas, hoje, percebem mais claramente que a Vale não é isso.

Reinaldo Fernandes, morador de Brumadinho

O rompimento da barragem afetou muito os nossos negócios, porque a gente trabalha com compra e venda de animais. Eu sou agropecuarista e agricultor. Perdemos plantações de mandioca, bananeiras, horta. Trabalhávamos nas margens do Rio Paraopeba, no Pires, e a gente não pôde mais consumir os produtos que a gente plantava, por estar em área de contaminação. E também perdemos na questão da venda do gado, dos porcos, galinha, a gente não pode mais vender, porque o pessoal ficou com medo de contaminação. Perdemos ali três cachorros, porque teve contato com a água, e perdemos várias galinhas também, que beberam a água do rio. 

 Maurício Fernandes Reis, morador de Pires

 

Eu tinha um lava jato no centro de Brumadinho próximo ao ponto de ônibus da Vale, onde eu convivia com vários funcionários da empresa, que paravam no meu lava jato para conversar e ou  deixar o carro para lavar, assim estabeleceu ao longo do tempo uma relação de amizade e companheirismo entre nós. 

Thauam Teófilo, morador de Brumadinho

 

Eu sou pescadora, minha família também. Meu marido, meu filho e nós pescamos num local chamado Paraíso, que é um braço da represa de Três Marias, que fica no fundo da cidade de Felixlândia. Nesse um ano, eu não consegui voltar mais a pescar. Desde que a Vale entrou no território, nós perdemos todos os clientes que nós tínhamos. A gente não consegue mais vender o peixe dentro do território. Eu não consigo mais manter a minha atividade. Foi um ano muito difícil pra gente. Dentro da nossa casa, de uma família de cinco moradores, a Vale só reconheceu eu como moradora, porque tinha uma conta de água no meu nome. Os outros, que não têm nada no nome deles, ela não reconheceu, nem meu marido, nem filho, nem neto, ninguém. 

Eliana Marques, moradora de Cachoeira do Choro

Hoje.

Hoje de manhã cedo, a gente escutou um barulho e pensou: “olha lá, a barragem tá arrebentando”. Eu fui olhar. Isso assusta. Hoje em dia, eu durmo é pouco, durmo menos. 

Sebastião Felício Camelo, morador de Córrego do Feijão

 

Quando a gente fala que é de Brumadinho, o pessoal não tem interesse mais [nas mercadorias]. Isso é muito triste porque antes do rompimento da barragem a vida da gente era tranquila. A gente não conseguia ficar com a criação uma semana no pasto.  Comprava na mesma semana e vendia, então gerava dinheiro. E hoje não está gerando mais, porque a gente custa vender um bezerro sequer. A gente vende pra conhecido e com preço muito baixo. Então, eu não sei daqui pra frente o que é que vai ser de nós, essa é a minha indignação. Tudo que a gente vem passando com a Vale… eles, infelizmente, negam o atendimento. Eles negam um auxílio para os agricultores. Eles não estão nem aí.

 Maurício Fernandes Reis, morador de Pires

 

Aqui, na cidade, todo mundo recebeu o auxílio emergencial até dezembro, aí, a partir de janeiro, já é 50% do auxílio. Na verdade, esse auxílio emergencial é um “cala boca” para a população. Muita gente se calou. Só que o salário não paga a vida de ninguém. A gente convive com essa dor todo dia, na hora que você sai de casa, na hora que você acorda, na hora que vai deitar.

Gleidson Alves, morador de Brumadinho

 

Mas nós vamos brigar e vai ter justiça, sim! Pra assassina da Vale vai ter justiça, sim! Se Deus quiser, eles vão pagar. Sou irmã da mãe do Walaci. É muita tristeza, muita falta. Eles estão tentando, com esse salário, que agora começou a diminuir, mas o salário não paga não, porque a gente vivia sem salário da Vale, a gente vivia com o nosso salário do mês. Mas eles não vão calar nossa boca. As pessoas estão adoecendo, dia a dia, a cada hora que passa, a cada dia que passa, a cidade vai adoecendo, vai morrendo. Nosso coração vai secando, é muita dor. A gente tem a dor de ter perdido o meu sobrinho, a dor de ver a minha irmã sofrendo, e eles nada. Ninguém está fazendo mais nada. 

Lucia Maria de Jesus, moradora de Brumadinho

 

Nós temos um poço artesiano da Copasa que fica há menos de 10 metros do rio. Quando o rio tá cheio, chega a invadir a casinha do poço, e a Vale se nega a dar uma água segura para a comunidade. A comunidade tem sofrido muito, poucas pessoas recebem ração para animal e a água para molhar as plantas. Na minha casa mesmo, ela dá a caixa d’água e dá a água para molhar as plantas, mas se nega a dar água segura, água pra gente, pro ser humano. A gente tem que comprar água mineral pra fazer comida e tudo. Mas continuamos usando esse poço para outros afazeres, banho, lavar vasilha, lavar roupa, trazendo também riscos para nossa saúde e para a saúde de toda a comunidade. 

Eliana Marques, moradora de Cachoeira do Choro

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