O medo de mais uma perda

Após quase cinco anos do rompimento da barragem de Fundão, em que 48,3 milhões de metros cúbicos de rejeito foram despejadas por toda a bacia do rio Doce, impacto socioambiental jamais visto na história do país, a Renova/Samarco/Vale e BHP Billiton anunciou, no dia 1º de julho deste ano, a suspensão do Auxílio Financeiro Emergencial (AFE) para mais de sete mil pessoas. A decisão tiraria a única fonte de renda de famílias que sobreviviam daquilo que o crime levou. Pescadores(as), marisqueiros(as), ilheiros(as), artesãos(ãs), comerciantes, surfistas. Diversas formas de vida foram atingidas. A responsável pela reparação dos danos afirma que essas pessoas já recuperaram suas atividades. No entanto, os territórios atingidos, o rio, os animais e a natureza seguem com os rastros do rejeito depositado pelas mineradoras. No dia 15 de julho, a Justiça Federal proibiu a suspensão do auxílio. Mas as comunidades atingidas ao longo de toda a bacia seguem amedrontadas pela ameaça de mais uma perda.

Por Gilda Maria Cardoso, Joelma Fernandes, Luciana Souza de Oliveira e Maria Célia Albino de Andrade

Com o apoio de Júlia Militão e Simone Silva

Memórias do rio que esteve presente de diversas maneiras na vida dos(as) atingidos(as). Na fotografia, a prática da pesca é um exemplo. – Créditos: Larissa Pinto

Os principais impactos do rompimento, você não pode mensurar, porque foram no curso da minha vida, contra a minha essência. Logo no início, transformou as nossas relações interpessoais. Só sabe do que eu tô falando quem vivencia isso em seus territórios, então essa foi a grande perda e que eu não sei se, algum dia, vai voltar a ser costurada, porque essas relações são lindas, mas são tênues, delicadas. 

E o outro impacto foi na minha roça, eu tenho uma agricultura de subsistência e, tudo o que nós tínhamos guardado, a gente investiu na roça e a Renova não reconhece isso. Ela reconhece que eu sou atingida, que eu tenho uma roça, mas ela classifica a minha roça como muda. E eu não aceito isso, porque, se eu não tô produzindo, foi por causa da lama da Samarco. Em 2015, eu tinha 50 pés de cacau plantados, com pouco mais de um ano, e 15 pés de banana. E eu tinha duas mil mudas de cacau para plantar. Com o rompimento da barragem, meu cacau morreu e eu perdi as duas mil mudas. Eles não levaram isso em consideração, não quiseram nem colocar a produção que eu perdi.

Esses impactos são impactos de uma vida. Como vai ser daqui a cinco, seis, 10 anos, né? Fica sempre aquele ponto de interrogação. A única certeza que a gente tem é que nada vai ser como antes. 

Luciana Souza de Oliveira, moradora de Regência-ES

Eu fui nascida e criada nas margens do rio Doce. Meu pai é pescador e hoje eu sou ilheira. Eu não tenho o rio pra tomar meu banho mais, pra pescar… Eu comia carnes compradas só no dia de domingo, hoje eu tenho que comer a semana toda. Acaba que isso influencia até na minha saúde. O impacto do rompimento na minha vida foi grande, porque a vida no rio passa de geração em geração, tirando areia, mexendo com ilha, pescando… A gente chega na ilha e vê o tanto de coisa que morreu por causa do crime, não foi pouca, não… Meus pés de planta estão mortos por causa da lama e a Renova fala que a gente não tem direito. É o nosso meio de vida, passado de geração em geração, é o jeito da gente viver e a gente não queria mudar isso. É um direito nosso. 

Joelma Fernandes, moradora de Ilha Brava, Governador Valadares

Não tive só o impacto financeiro, mas emocional, sentimental, impacto na saúde física e mental, porque a passagem da lama desestruturou a nossa vida toda. Eu tinha plantação de goiaba, coco, milho verde, pastagem… Eu perdi tudo. O gado começou a abortar, não emprenhava e, quando emprenhava, abortava. O solo não produzia mais alimento pros animais, eu não tinha onde pôr, não tinha água pra dar… A minha renda praticamente foi por água abaixo. 

Essa perda impacta diretamente na vida dos meus filhos, né, porque eu tenho uma filha fazendo faculdade. A minha meta de vida é formar os dois filhos. Então eu tô vivendo de vendas, eu vendi muitas coisas, vendi lotes, animais, para completar a renda, porque eu não tenho mais a renda que eu tinha. 

Maria Célia Albino de Andrade, moradora da zona rural de Conselheiro Pena

Na edição 32, vimos Geraldo Ferreira da Cruz (Manguaça), nas margens do rio Doce. – Créditos: Tuila Dias

A verdade é que o auxílio não supre o que eu perdi, o valor que eu ganhava, mas ele me ajuda, foi a luz que me apareceu pra eu contar com aquela renda todo mês, para custear a minha vida, da minha família, e completar a renda que eu perdi, né? Eu sei que ele não passa nem perto da renda que eu tinha, mas é o que está me ajudando. Quando falaram nesse corte, eu já até comecei a passar mal, porque fiquei desesperada. Eu dependo muito do auxílio. Não só eu, mas as comunidades ribeirinhas que a gente vê que perdeu a renda, todo mundo conta com esse dinheiro até que tenha a recuperação, que as coisas voltem a funcionar como antes. Até porque foram muitas coisas que perdemos na renda e não alcançamos de volta.

Maria Célia Albino de Andrade, moradora da zona rural de Conselheiro Pena

O auxílio é uma questão de sobrevivência e a manutenção dessas pessoas em suas comunidades tradicionais. É toda uma cadeia produtiva que usa o rio e o mar como provimento da sua forma de existência, de pagar suas contas, de ter acesso à água. Então com o rompimento da barragem e com a depredação, a poluição de 20 anos ou mais, ou até mesmo da destruição de espécies nativas, essas pessoas não têm como sobreviver, não têm como tirar seu sustento do rio e do mar, uma vez que milhões de metros cúbicos de rejeito estão sedimentados no fundo do rio. 

Não temos como ganhar a vida como antigamente. Esse auxílio é, minimamente, a possibilidade de nós, como atingidos, podermos pagar nossas despesas mais básicas para termos o “direito” de continuar  em nossos territórios, mantermos nossa essência. Muitos são idosos, só sabem pescar, fizeram isso a vida toda. Como irão viver sem esse auxílio? A Samarco já nos tirou praticamente tudo e agora quer nos tirar o direto às nossas necessidades básicas.

Luciana Souza de Oliveira, moradora de Regência

Na edição 32, contamos a história de Hebert Figueiredo Cota (Tininho) que, assim como Maria Célia, vê as consequências do crime na vida de seus animais. – Créditos: Tainara Torres

Por que agora eles querem cortar o auxílio, se vieram aqui, fizeram o diagnóstico e viram o estrago que foi feito? Nós provamos que fomos atingidos, o documento tá com eles, e agora eles vêm com essa ideia de falar que a gente não tem direito. 

Eles falam que, em alguns lugares, já houve reparação. Que reparação? Nosso rio está empesteado de piranha, não tá tendo peixe. Sem contar que a gente já não come peixe do rio mais, eu não compro do mercado municipal de Valadares, porque fico com medo de ser peixe contaminado. Como eles têm a audácia de falar que a vida do atingido já voltou ao normal? Não voltou, não. Eu não posso tomar banho no meu rio, entendeu? Tem uma água aqui, uma coisa maravilhosa, e eu não posso entrar. Como eles falam que já sanou, que a água já está apta para o uso? Isso não é verdade, é uma injustiça cometida contra nós atingidos. 

Joelma Fernandes, moradora de Ilha Brava, Governador Valadares

Para nós, produtores rurais, falaram da contratação de uma Assistência Técnica Rural que viria recuperar nosso solo pra gente voltar a produzir. A Renova fala que a empresa já está contratada, mas, por causa da pandemia, não pôde vir. Se ela nem veio, como fala que já recuperou? Como que eu recuperei a minha renda se eu não tenho mais o solo bom, com produção de milho, goiaba, coco, leite e vaca parindo?

Agora nós, produtores rurais, conseguimos uma silagem de seis meses, mas três já passaram. O pior disso tudo é que, até hoje, eu não fui indenizada, ninguém me chamou. O que eu estou tendo agora é essa silagem, por ordem judicial. Hoje eu vejo o cartão emergencial como fonte que não pode parar na vida do atingido e a silagem como a luz no fim do túnel.

O cartão tem que ser mantido, não é nem pela pandemia, mas pela questão da recuperação mesmo, porque ela tinha que entregar a minha terra, ela prometeu isso perante a sociedade, entregar a minha terra igual ou melhor do que estava antes e ela não recuperou. 

Maria Célia Albino de Andrade, moradora da zona rural de Conselheiro Pena

Pode ter existido uma mudança de atividades na cadeia produtiva? Pode. Entretanto, não tão significativa a ponto da Renova retirar o auxílio de todos os atingidos, sejam pescadores de subsistência, marisqueiras, comércio e outros.

Outra coisa: em quais estudos a Renova se embasou para emitir tal decisão? E por que ela não levou essa decisão para ser debatida no CIF? No entendimento da Comissão de Atingidos de Regência e Entre Rios, a Renova, com essa postura, desrespeita o sistema de Governança que foi criado, o Termo de Transação e Ajustamento de Conduta (TTAC) e o TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) Governança. A Fundação não tem o direito de invadir tudo, destruir esperanças, abalar emocionalmente milhões de pessoas, retirar a dignidade que nos resta. Ela não tem esse direito, não dessa forma, não pela segunda vez!

Luciana Souza de Oliveira, moradora de Regência

Diversas atividades tradicionais de subsistência foram impedidas quando o rejeito de minério atingiu o curso do rio Doce. – Créditos: Larissa Pinto

Além das famílias que vivem sob a ameaça de sofrerem o corte do Auxílio Emergencial, existem, ainda, muitos(as) atingidos(as), como a Gilda Cardoso, que perderam a renda do cartão já no ano de 2019. Gilda, cortadora de cana de açúcar, teve o seu trabalho interrompido quando a lama de rejeito da Samarco/Vale/BHP Billiton chegou em Barra Longa. Hoje, sem a sua única fonte de renda e sem o auxílio, não só Gilda, como todos(as) os(as) atingidos(as) que perderam o cartão ou ainda não foram reconhecidos pela Renova, lutam por sobrevivência e justiça.

Antes do crime da Samarco, eu tinha meu serviço. Eu era cortadora de cana e perdi a única fonte de renda que tinha, devido ao crime. Com muita luta e sacrifícios, consegui um auxílio. No ano passado, eles cortaram esse auxílio e o serviço não voltou mais. Os impactos na minha vida foram vários, como problemas de saúde, exames para realizar, não tenho como comprar remédios e, ainda pior, ficar na dependência dos outros. Podia ajudar dentro da minha casa, agora não  posso mais. A situação  está  muito complicada. E não sou só eu, existem mais cortadores de cana que tiveram o auxílio cortado e, com isso, vários impactos em suas vidas. Fomos atrás da Renova várias vezes sem sucesso e com respostas sem sucesso. Falaram que sofremos impactos indiretos, então não tínhamos direito. Todos somos atingidos sim, direta e indiretamente, como a Renova mencionou. Nós tivemos  impacto  direto  em nosso trabalho e em todas áreas de nossas vidas. Para mim, todos temos direito ao auxílio. Não tem como excluir ninguém.

Gilda Maria Cardoso, moradora de Barra Longa

Créditos: Tuila Dias
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