Quem são os atingidos e atingidas de Barra Longa?

(Foto: Sergio Papagaio/Jornal A Sirene)

Por moradores de Barra Longa

Com o apoio do Movimento dos Atingidos por Barragens e de Rafael Drumond

Desde novembro de 2015, nós, atingidos e atingidas de Barra Longa, sentimos na pele, no corpo e na alma, as dores trazidas pela lama de Fundão. Por aqui, seguimos nossa luta diária contra as adversidades impostas pelo crime e pela condução morosa dos processos de reparação. Para darmos conta dos enfrentamentos necessários, estamos organizados em Grupos de Base, na Comissão de Atingidos e no Movimento dos Atingidos por Barragens. No cotidiano da luta, vamos compreendendo a força da organização coletiva como único caminho possível para a conquista de nossos direitos.

Com a contribuição da Assessoria Técnica da Aedas, realizamos – entre setembro e dezembro de 2017 – uma série de reuniões para debater os diversos danos provocados pela empresa Samarco (Vale e BHP Billiton). A partir desses encontros, levantamos as principais demandas individuais e coletivas dos moradores do município.

Diante disso, trazemos aqui a reivindicação de diversas pessoas que buscam o reconhecimento de seus direitos como atingidos e atingidas. Essa é uma demanda importante, sobretudo quando se considera que as empresas/Fundação Renova negam tal reconhecimento a muitos moradores de Barra Longa. Para eles, “impactados” são apenas aqueles que tiveram algum dano material decorrente do desastre. Sabemos que esse critério é restritivo e insuficiente. Os causadores do crime não podem dizer quem são suas vítimas. São elas, uma vez lesionadas em seus direitos, que irão manifestar como a lama de Fundão invadiu suas vidas, e porque devem ser consideradas nos processos de reparação e indenização. Neste texto, documentamos quem são os atingidos e atingidas pelo crime das mineradoras.

Em Barra Longa, atingidos(as) são todos(as) aqueles(as) que:

  • Viviam no trajeto da lama e tiveram mudanças nas condições de trabalho, no modo de vida, nas relações sociais, familiares e comunitárias.
  • Sofreram e ainda sofrem perturbação do seu modo de vida a partir do aumento da circulação de maquinário, caminhões, trabalhadores, poluição sonora, mau cheiro e assédio constante dos funcionários das empresas.
  • Foram forçados(as) a saírem de suas casas, sendo elas completamente ou parcialmente destruídas.
  • Tiveram suas condições de moradia violadas (casas trincadas e rachadas, casas com estrutura abalada em consequência do intenso tráfego de maquinários, casas reformadas de forma inadequada e/ou em desrespeito ao formato original…).
  • Tiveram que reformar novamente suas casas com recurso próprio após reforma realizada pela empresa.
  • Tiveram a terra e os imóveis desvalorizados.
  • Perderam bens materiais (carro, moto, casa, móveis, máquinas e ferramentas agrícolas, plantas, fotografias, objetos de valor sentimental, objetos pessoais, artesanatos, produção agrícola).
  • Perderam patrimônios imateriais, tais como os espaços coletivos, as festas religiosas, a quadrilha, o encontro dos rios, entre outros.
  • Tiveram que conviver com o rejeito, seja na época do rompimento, na utilização para calçamento de vias, no depósito no Parque de Exposição, seja na contaminação do ar, da água e do solo.
  • Tiveram restrição aos espaços de lazer, cultura, esporte, religiosidade e convivência comunitária.
  • Perderam o acesso ao rio, espaço de lazer, e à atividade da pesca artesanal e produtiva.
  • Perderam terra para uso de animal produtivo.
  • Perderam acesso às vias e tiveram obstruído o direito de ir e vir, ficando sem água, comida, acesso aos serviços básicos de saúde, com perda da produção, perda da comunicação com familiares, com a comunidade, sem acesso às escolas e aos locais de trabalho.
  • Não têm informação a respeito da qualidade da água para consumo humano, animal e para a agricultura.
  • Sofrem com a possibilidade do rompimento das barragens de Germano e Santarém e dos diques construídos abaixo da Barragem de Fundão e sofrem com a falta de informação precisa e de credibilidade por parte da empresa.
  • Tiveram perda do espaço de produção e/ou diminuição da produtividade, perda dos terrenos, dos quintais, dos arrendatários e meeiros.
  • Perderam e continuam perdendo com a queda nas vendas do comércio local, sendo formal ou informal, e convivem com o risco de não recuperação.
  • Diminuíram a produção e convivem com a incerteza de recuperação da produtividade.
  • Eram trabalhadores autônomos e perderam sua fonte de trabalho com o rompimento e com a chegada das empreiteiras (pedreiros, empregadas domésticas, vendedoras, garimpeiros, taxistas, meeiros de quintais, manicures, artesãs, bordadeiras, pescadores, cortadores de cana, trabalhadoras e trabalhadores rurais, entre outros).
  • Estão com restrição ao acesso à alimentação saudável, devido aos quintais destruídos pelo rejeito.
  • Perderam animais produtivos e/ou de estimação.
  • Sofrem com problemas de saúde relacionados ao rompimento da barragem, inclusive os que não residem mais no município, mas foram atingidos com o rompimento (problemas respiratórios, alérgicos, traumas, insônias, estresse, depressão).
  • Sofrem com o autoritarismo das mineradoras, assim como da Fundação Renova, que impedem que eles(as) decidam sobre seu futuro.
  • Estão em fase de formação, tanto na infância, quanto na adolescência, e vivenciam as consequências do crime.
  • Perderam seus modos e projetos de vida.

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