Nós, por uma saúde digna

O coletivo é aberto à participação de todos os cidadãos da comunidade rural e urbana de Barra Longa que tenham interesse em discutir sobre melhorias para a saúde dos moradores. (Foto: Isabel Gonçalves/Assessoria Técnica AEDAS)

Por Odete Cassiano e Rosana Aparecida Pinto

Com o apoio da Assessoria Técnica AEDAS e Tainara Torres

A falta de informação e o número crescente de reclamações sobre os problemas de saúde logo após o rompimento da Barragem de Fundão fizeram com que, em pouco tempo, membros do Movimento Atingidos por Barragens (MAB), em união com os moradores de Barra Longa, dessem início ao “Coletivo da Saúde” na cidade. Desde então, o objetivo da equipe que compõe o coletivo é informar sobre as questões referentes à saúde física e mental dos atingidos, e também conscientizá-los e politizá-los sobre o tema.

O número crescente de atingidos que tiveram que iniciar ou intensificar tratamentos relativos à saúde, com a chegada do rejeito de minério, mudou a rotina de toda comunidade. O coletivo surgiu como um modo de pensar a saúde dos barralonguenses e de discutir as ações do Sistema Único de Saúde (SUS) na região.

Na comunidade, a atuação do coletivo se dá a partir das reivindicações feitas dentro dos grupos de base – que são fundamentais na organização dos atingidos e responsáveis por construir, juntos, reflexões sobre a realidade de cada região e, principalmente, por pautar as demandas feitas pelos atingidos e atingidas. Os grupos de base são equipes formadas por, aproximadamente, 15 famílias e, dentro de cada uma dessas equipes, os atingidos têm um morador como seu representante para fazer parte das reuniões e levar as demandas até o coletivo. Atualmente, 10 membros integram o grupo na cidade e as reuniões são feitas a cada 15 dias.

A falta de informação e divulgação dos dados por parte dos órgãos públicos de saúde, como Secretaria Municipal, Estadual e Ministério da Saúde, impedem, a curto prazo, que o trabalho do coletivo tenha uma abrangência ainda maior na cidade. Em busca disso, a equipe se uniu na elaboração de pedidos específicos para a saúde, que constam dentro da Pauta de Reivindicações dos Atingidos e Atingidas de Barra Longa, elaborada junto à Comissão dos Atingidos da cidade e Assessoria Técnica da AEDAS.

“Fizemos um mapeamento através do coletivo, porque não temos dados oficiais, mas temos pessoas que estão adoecendo. Elaboramos um levantamento dos casos mais graves para definirmos quais estratégias vão ser tomadas. Tudo também no sentido de fortalecer o SUS, para não ficar um trabalho paralelo, como a Renova quer fazer.”

Aline Pacheco e Isabel Gonçalves – Assessoras técnicas da AEDAS e membros do Coletivo da Saúde

No documento, o coletivo requer, dentre outras solicitações, acesso aos dados relativos à saúde de antes e depois do rompimento da Barragem de Fundão, divulgação dos estudos toxicológicos sobre água, ar, plantas e peixes do Rio Gualaxo e do Rio do Carmo, e suporte financeiro da Renova/Samarco para a gestão dos serviços de saúde, de acordo com a demanda da comunidade.

“O que a gente tem percebido dentro do coletivo é isso, a gente não sabe nem a proporção dos problemas relacionados à saúde, ainda é um enigma. Na cidade em que o rejeito faz parte do nosso cotidiano – está no ar, na água, na terra em que pisamos -, a gente não sabe o que isso vai causar. Dois anos depois, ainda não conseguiram fazer um estudo [sobre as consequências], e as pessoas seguem adoecendo nesse meio tempo.”

Aline Pacheco – Assessora técnica e membro do Coletivo da Saúde

Sentir na pele

Há mais de dois anos, a vida de Odete tem sido bem diferente. Dela, e de grande parte dos mais de 5 mil moradores da cidade de Barra Longa. Hoje, com o braço engessado, com os comprimidos que precisa tomar e as dores a mais, Odete sabe que a saúde na cidade não é mais a mesma, menos ainda as formas de ter acesso a ela. Só da infecção no braço foram mais de 10 meses tratando. Além dela, os pais, de 89 anos, e o filho precisaram também fazer uso de remédios contínuos e ainda lidar com a falta de informação.

“Eu estou sob grande quantidade de medicamento antidepressivo. Medicação essa que a gente não tem acesso nem pela prefeitura, nem pelo SUS. Aqui em casa, a gente tem que cortar gastos, procurar coisas mais baratas para alimentação, a cidade toda tá deprimida e a farmácia da prefeitura não tem remédio para depressão. A prefeitura empurra, diz que a Samarco que deveria nos fornecer a medicação, a Samarco fala que passa o dinheiro pra prefeitura e ela que tem que nos dar. Nisso, a gente fica sem. E os remédios são caros.”

Odete Cassiano, moradora de Barra Longa

As dificuldades de se ter informações precisas sobre como ter acesso aos medicamentos faz com que muitos moradores fiquem confusos sobre como podem agir quando precisam dos remédios, e também em dúvida sobre quem devem procurar quando necessitam desse e de outros tipos de atendimento.

“Às vezes, a gente vai na prefeitura e, na prefeitura, mandam a gente pra Renova, aí mandam na prefeitura de novo. Ficam empurrando. Eu tomava um remédio, agora, eu tomo nove, e, se eu não tomar, não sou ninguém. Minha família que me ajuda a comprar, porque, aqui em casa, ou a gente come ou toma remédio. A empresa chegou a prometer os remédios pra mim, mas não deram. Entreguei meus documentos [para Renova/Samarco], laudo médico, e os papéis sumiram.”

Rosana Aparecida Pinto, moradora de Barra Longa

Reivindicações

Algumas das solicitações elaboradas pelo coletivo através das demandas de comunidades rurais e urbanas de Barra Longa, destinadas à empresa Samarco/Vale e BHP Billiton, à Fundação Renova, ao Poder Público e ao Ministério Público:

  • Realização e divulgação de estudos sistemáticos e de monitoramento a curto, médio e longo prazo sobre as consequências da exposição diária ao rejeito no município de Barra Longa.
  • Estudos confiáveis, autônomos e independentes sobre os alimentos que são produzidos e consumidos na região atingida.
  • Realização, por parte da Renova/Samarco, junto com atingidos e atingidas, de estudos sobre a melhor forma de diminuir a poeira no município de Barra Longa e apresentação para a comunidade.
  • Fortalecimento do Conselho Municipal de Saúde e criação de Conselhos Locais de Saúde (em comunidades do município) para a participação popular no planejamento da saúde, com a elaboração democrática das ações, dos serviços, projetos e programas, e no processo de contratação de profissionais.
  • Reconhecimento da importância das manifestações populares em saúde, através de projetos locais de medicina não convencional, baseados na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares do Ministério da Saúde, como exemplo, suporte financeiro para iniciativas populares de centros de terapias naturais.

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