Ombudsman: As sirenes nunca tocam; A Sirene ainda ecoa

Karina Gomes Barbosa*

Havia um texto pronto para este espaço. E então houve 25 de janeiro de 2019. Tal qual em 5 de novembro de 2015, a tragédia nos desnorteia, demonstra como são profundas as veias corporativas, negligentes, corruptas, criminosas que regem o Brasil. No noticiário, enquanto o jornalismo tenta, cambaleante, dar conta do rompimento da barragem do Feijão, da Vale, em Brumadinho, dois tempos se articulam: os fragmentos noticiosos de lama, rios marrons, pessoas resgatadas, isolamento, causas, de um presente ainda não explicado e compreendido; e aquele acontecimento consolidado, relembrado, dissecado, de um passado que, visto de fora, parece ser apenas pretérito.

A história se repete como crime nas minas cada vez mais instáveis das Geraes e, atônita diante das imagens, me pergunto: o que pode o jornalismo? Por que, com nossas vozes, penas (teclados), gravadores, estilos, técnicas, câmeras, correspondentes, manchetes e redes sociais, somos incapazes de mudar o mundo? Onde ecoam nossas denúncias? Como esses crimes socioambientais se repetem em tão pouco tempo, diante de nossos olhos? Quem nos escuta? Quem quer nos escutar? A lama de Brumadinho carrega, além de destruição, a impotência de um jornalismo que parece gritar as mazelas do país a ninguém – ou não as grita alto o suficiente. Três anos depois, por que as sirenes, de novo, não soaram?

É uma coincidência das mais tristes que o jornal A Sirene complete agora três anos. Foi criado para bradar o som que faltou a Bento Rodrigues quando a lama da Samarco destruiu a comunidade – e faltou, também, a Brumadinho. Frente a minha desesperança sobre a potência do suposto quarto poder do jornalismo, A Sirene talvez ofereça alguma resposta.

Nesse déjà vu, o crime da Samarco, Vale e BHP Billiton é evocado pela mídia, e parece retomar importância digna de nota. Essa visão de notícia casa com uma cena em que um pesquisador justificou para mim o sumiço do rompimento da barragem do Fundão do noticiário nacional: “Não aconteceu mais nada por agora”. Olhei-o perplexa. A cada dia, minuto, segundo, desde 5 de novembro de 2015, pequenas e grandes tragédias, dramas familiares, derrotas, conquistas, revezes, aconteceram e continuam acontecendo às pessoas atingidas ao longo da bacia do Rio Doce.

Se essas dores não saem no jornal – no deles -, têm saído no nosso jornal – digo nosso pois de alguma maneira pertenço ao jornal e ele me pertence, como moradora de Mariana. Desde fevereiro de 2016, a cada dia 5, as páginas d’A Sirene ecoam, como jornalismo, a urgência que nunca tocou quando a lama chegou. Esse jornal vem buscando redefinir noções de acontecimento jornalístico, obrigando agentes públicos, corporações, sistema judiciário e, eventualmente, a chamada grande mídia, a readequar suas lentes, a repensar os critérios para escolher o que é ou não notícia – o que “aconteceu” ou não. Aconteceu, e acontece todo dia, para os atingidos e as atingidas. Quando um rompimento acaba?

O mais singular na história do jornal é que, ao longo desse tempo, esses acontecimentos invisíveis para muita gente, mas de importância capital para essas comunidades, têm sido contados por elas mesmas. Ao proporcionar o controle parcial desses sujeitos sobre a narração de suas histórias de vida, A Sirene prova que a educação midiática é uma ferramenta de empoderamento contemporâneo primordial, ainda mais em catástrofes que geram traumas coletivos e demandas comunitárias. Falar o que o jornalismo comercial inúmeras vezes não quer ouvir é necessário e pode ser libertador. A metodologia de produção conjunta entre atingidos/as e jornalistas não está isenta de tensões e, ao longo desse tempo, eventualmente houve desequilíbrios. Algumas vezes era difícil perceber a voz da comunidade nos textos; em outros momentos essa mediação fundamental faltou.

A tensão entre demandas sociais e fundamentos jornalísticos também se expressa nos processos produtivos: o que entra na edição, como entra. Quem fala, quem silencia. Quem são os e as atingidas que ocupam A Sirene e quem representam. Essas questões não precisam ser resolvidas – não deve haver solução. Precisam ser administradas e lembradas a todo tempo.

O trabalho imagético do jornal reforça a capacidade da linguagem visual de traduzir o trauma; aqui, há uma presença mais incisiva dos e das jornalistas, que impacta pela qualidade e pela força informativa. Em um cenário de incertezas, A Sirene representa a resistência das comunidades em não se deixarem ser esquecidas; em não permitir o esquecimento do rompimento da barragem de Fundão. Faz isso com uma interpenetração primorosa entre jornalismo, universidade e comunidade.

Talvez pareça, em momentos de desesperança, que o jornalismo pode pouco. Vai ver não podemos, mesmo, mudar o mundo. Mas, creio, podemos mover as pessoas. Ao dar a atingidos e atingidas controle sobre o que querem dizer e como será dito, A Sirene nos força a repensar noções de jornalismo e a posição de jornalista quando somos mais necessários quanto deslegitimados. A repetição da tragédia é mais uma prova da urgência dessa voz que teima em circular em nossas comunidades.

*Professora de Jornalismo da Ufop, coordenadora do projeto de extensão Sujeitos de suas histórias.

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