Fé e luta

O corpo e a mente se cansam das intermináveis reuniões, das desgastantes audiências, das imprecisões sobre a saúde da natureza atingida e das incertezas quanto ao retorno ao lar. São quatro anos de constante luta. Para quem perdeu tudo ou quase tudo, a fé é o fio que sustenta a esperança. No longo caminho de destruição causado pelo crime, a religiosidade é plural, mas é a fé que escora a força para lutar pelos direitos violados.

Por Cacique Toninho, Cláudia de Fátima Alves, Claudinei José Anacleto, José Leite Costa e Pai de santo Adão Bento.

Com apoio de Joice Valverde, Júlia Militão, Sérgio Papagaio e Wigde Arcangelo

A fé, depois de tudo o que a gente viveu nesses últimos quatro anos, é o que faz a gente permanecer de pé, lutando pelos nossos direitos e para tentar continuar vivendo da melhor maneira possível. É lógico que não vai ser igual a antes, daqui pra frente. Então esses momentos de festividades da comunidade são para reforçar mais a nossa fé, a nossa força e união para permanecer uma comunidade unida, para não perder as tradições que a gente tinha.

Cláudia de Fátima Alves, moradora de Bento Rodrigues

Se não fosse a fé, eu não estaria aí vivo, até hoje. O rompimento da barragem reforçou mais a fé na nossa comunidade quilombola. A gente se viu num transtorno na comunidade: sem serviço, o peixe que você pega não pode vender. Tem uma parte do rio onde o rejeito não chegou. A gente tem fé que a nossa saúde não seja atingida, mas várias lagoas na beira do mar foram atingidas, o mar nem se fala, as vegetações nativas das regiões morreram tudo. Tirou o nosso sustento e o nosso lazer.  

José Leite Costa, morador de Degredo

A fé é a melhor coisa que nós temos, ela remove montanhas. Quem não tem fé não adianta correr atrás. Se você tem fé, procura que alcançará. As empresas são grandes, elas têm dinheiro, advogado para se defender. Agora, nós que vivemos catando um ourinho do garimpo para poder sobreviver, vivemos na luta. Eu já fui tirado do rio quando a Barragem de Fundão estourou. A fé ajuda a resistir na injustiça, tem que ter fé. Alguns têm fé no dinheiro, mas se isso bastasse, não morria doutor. Costumo ficar meses sem encontrar ouro, mas, se peço a guia das águas, com pouco mais, já tenho um ourinho para ter alimentação.

Pai de santo Adão Bento, morador de Barroca

A gente se achega na mão de Deus e tenta caminhar, com a força que Ele vai dando. Mesmo que a gente tenha vontade de estar em casa novamente, ainda espera com calma e pede a Deus a força. A gente nem imagina como vai ser, mas tem que pegar com Deus primeiro e seguir. Não tem como querer que uma coisa seja rápida, tem que ter calma e fé em Deus. E, depois desse acontecimento, eu sou mais apegado a Deus, porque Deus tá dando força pra gente resistir, né? Essas festas… A gente vai recuperando, com a fé. Estar junto com a população, as pessoas que a gente vai revendo de novo, né?

Claudinei José Anacleto, morador de Paracatu de Baixo

Se o índio não tiver a fé no seu dia a dia, dependendo das consequências que causam os problemas dentro do seu território, dentro da sua comunidade, junto com o seu povo, ele não consegue avançar no seu objetivo, que é vencer a batalha que enfrenta. O rompimento da barragem é mais uma batalha que a população indígena vem encontrando, principalmente no território tupiniquim de Comboios, onde já existem vários outros problemas dentro do seu território, de impacto social, econômico e cultural. A fé do povo indígena não é só no deus, que é Tupã, mas sim de tudo que dá a garantia ao povo indígena: é a fé do rio, da mata, do mar, da terra, da natureza, dos pássaros. Se não fosse a fé de ter lutado tanto pela garantia da vida, nós não estaríamos aqui hoje. Há um século atrás, não existiríamos mais. Tudo que a gente tem vencido e vai vencer na batalha faz parte da fé. A fé faz parte do dia a dia, do corpo, da alma, do sangue, do espírito do povo indígena.

Cacique Toninho, morador da comunidade indígena tupiniquim de Comboios

Nossa Senhora Aparecida

Eu pensei em desistir, quando olhei pro lado ela estava ali.

Eu pensei em recuar quando olhei pra trás ela estava lá.

Eu pensei que tudo estava perdido, quando olhei para frente, um novo mundo ela havia construído.

Eu pensei não ter mais jeito, o meu mundo era só defeitos, pois acreditem, ela produziu um novo efeito.

Eu perdi a iluminação, tudo escureceu, ela uma luz na minha vida acendeu.

Eu pensei que no meio de tanto rejeito a vida perderia o pleito e a morte seria o desfecho, ela jogou seu manto e nos levou para um outro canto onde a vida prosseguia, tinha até alegria.

Eu senti o peso sobre meus ombros, não agüento mais, quando saquei do embornal a minha credencial de homem vivo e normal e entreguei a morte, que me dava todo o suporte, pra eu passar para outro lugar, houve uma grande explosão, era ela,  descendo no meio de um grande trovão e me estendeu as duas mãos mostrando -me que a vida não é só alegria, o sorriso nos faz feliz mas é a dor que nos dá suporte para enfrentarmos a má sorte,

só ai eu compreendi para melhorar as nossas vidas só o amor e a graça da santa aparecida. 

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