Além do rejeito: preconceito e racismo

Nunca foi fácil ser negro no Brasil, mas, antes do crime da Vale, Samarco e BhP Billiton, eu não precisava me preocupar com o racismo. Eu não sentia essas coisas na pele, porque eu vivia no meu mundo, quietinha no meu cantinho, lá no meu alto de morro. Após o crime, eu precisei ocupar espaços que, até então, não eram meus. Desde então, eu tenho sentido, na pele, no corpo e na alma, a chicotada da elite. A cada passo que eu dou, eu vejo o preconceito e o racismo. A Fundação Renova nos persegue por sermos negros(as), sermos do alto do morro e militantes. Isso não tem sido fácil.

Por Adriano Felipe da Silva, Aline Monteiro Fraga Mol, Carmem Lúcia Cardoso da Silva, Eder Felipe da Silva, Gilda Maria Cardoso, Mirella Lino, Wagner Eduardo da Silva (Marreta), Verônica Viana e Vera Lúcia Aleixo Silva

Com o apoio de Joice Valverde, Júlia Militão, Juliana Carvalho, Simone Silva e Wigde Arcangelo

Meu objetivo, aqui, é saudar a organização popular que, hoje, faz esse movimento histórico aqui na cidade de Barra Longa, que é a gente colocar e trazer, de forma clara, com a voz e os sentimentos dos atingidos, um processo histórico de racismo e violação, perpetuado pela mineração e que, hoje, é reforçado pelo processo de reparação na figura da Fundação Renova.

Verônica Viana, advogada da AEDAS

A gente é analfabeto, mas a gente enxerga. A gente é pobre, mas tem a mesma dignidade que o rico. E quanto a pôr um contra o outro, lá no Gesteira, o que tá acontecendo é isso aí. A Renova tá colocando os vizinhos uns contra os outros. As pessoas que são militantes, eles deixam de lado. Porque, quem não frequenta essas reuniões, é porque não está entendendo o processo. 

Vera Lúcia Aleixo Silva, moradora de Gesteira

 

Há algumas semanas, a Fundação foi à minha casa pra fazer um atendimento sobre moradia provisória, com um questionário de coisas tipo: “está bem? Está atendendo? Tem que reformar alguma coisa?”. E, lá no finalzinho, quando a gente já estava cansada, tinha a seguinte pergunta: “você é de algum partido político?” O que tem a ver, pra Fundação Renova, que é algo que teria que ter interesse em reparar um crime horrendo que aconteceu, saber se um atingido é ou não filiado a algum partido político? Então é fato que há, sim, uma perseguição a militantes, uma perseguição a negros e uma perseguição à luta. Mas, como ficou bem claro aqui, nós não estamos dispostos a desistir.

Mirella Lino, moradora de Ponte do Gama

 

Estou aqui representando o São Gonçalo, onde eu e minha família moramos. Eu não sou negra, mas senti um pouco de discriminação, porque lá tem deficientes, crianças, idosos que já caíram. Não recebemos nada, apenas umas quatro famílias receberam. As outras não tiveram direito a nada, nem respostas. Eu cansei de ultrapassar essa lama para buscar remédio nesses quatro anos. Cadê nosso respeito? Nós não estamos tendo, é isso que pedimos: respeito e dignidade.

Aline Monteiro Fraga Mol, moradora de São Gonçalo

O que eu tenho para dizer, infelizmente, todo mundo já sabe: o racismo, aqui em Barra Longa, é pesado. Vou começar pela rua Primeiro de Janeiro, que é uma rua escondida. O que pega em Barra Longa é que a Samarco, infelizmente, é cruel com todos. Entre nós, barralonguenses mesmo, pecamos por discriminar o próprio colega. Isso não é coisa que se faça, não, gente. Quando nós ficamos 11 dias na BR, no sol quente, tomando água quente, tendo comida com doações nossas mesmo, um sofrimento, e o povo de Barra Longa nos criticava, dizendo que nós éramos vagabundos. Nós não estávamos procurando só por nós, se hoje tem médico ali na UPA, agradeçam a nós, porque lutamos por isso. 

Adriano Felipe da Silva, morador de Barra Longa

A Renova, na hora de mandar a lama, mandou, na hora de acabar com o serviço da gente, que é preto e pobre, o engenho lá onde a gente trabalhava, ela cortou os nossos cartões. Agora, a gente que mora no alto do morro, a Renova não teve a dignidade de vir aqui explicar porque estava cortando o cartão. Ligaram ou mandaram uma carta, mas não tiveram a dignidade de vir aqui dar uma explicação, porque, se ela visse a situação de como a gente vive, todo o serviço de roça que a gente tinha, veio a lama e acabou com tudo. Os ricos, fazendeiros, estão lucrando, porque a turma vem e traz os trabalhadores de fora para o serviço de roça. Nós somos pretos, cabelo ruim, é por causa disso? Vocês não dão serviço para nós, mas trazem gente de fora. Os pais de família daqui vão fazer o quê?

Gilda Maria Cardoso, moradora de  Barra Longa

Outra coisa que Renova mais gosta de fazer é criar briga entre vizinhos, porque, quando eu falo em discriminação, eu falo por parte de pele e também a maneira de se tratar o atingido. O fazendeiro tem um direito X: “ah, não, aquele ali é pobre, o direito dele vai ser outro e vai ser pago mais para frente”. É isso o que eu escuto. Inclusive, vou deixar bem claro que aconteceu comigo também, eu sou militante, toda a manifestação que faz, eu tô dentro. Me falaram: “você quer ter os direitos reconhecidos? Sai fora da BR, sai fora dessa luta”. Eu falei que não, no dia em que vocês pagarem todo mundo, vocês me param. Eu jamais vou permitir que um irmão meu fique sem nada, não vou ser egoísta a esse ponto. 

Wagner Eduardo da Silva (Marreta), morador de Barra Longa

Eu acho muito errado o jeito deles falarem, né, eu só quero saber se nós temos direito ao cartão, porque, desempregada, como eu vou ficar? E as pessoas que vão lá são maltratadas. Eu vou lá, sempre que vou lá, tratam a gente com ignorância, com grosseria, com falta de educação. Desse jeito, como vamos viver sem trabalhar, sem o cartão, parado, todo mundo desempregado? 

Carmem Lúcia Cardoso da Silva, moradora de Barra Longa

Outra coisa, gente, foi acordado um documento desse no CIF, falando que todos os atingidos que foram deslocados de suas casas tinham direito a 20 mil reais de deslocamento, aí eles fizeram uma reunião com a gente e falaram: “Fulano, Fulano e Cicrano têm direito”, que era os quatro pretos que estavam na sala, pra não falar que eram preconceituosos. Mas os quatro pretos, até hoje, nunca receberam um real desse dinheiro, e eu cansei de perguntar. Vocês não respeitam documento? Isso é um direito do atingido, mas eles passam em cima de tudo. Então, gente, se isso não for preconceito, se isso não for perseguição, eu não sei o que nós estamos fazendo aqui nessa terra contaminada que, até hoje, eles continuam falando que a nossa terra não tá contaminada. É muito triste falar isso, porque hoje, no mundo em que nós estamos vivendo, o preconceito é a coisa que mais mata o cidadão, porque dói no fundo da alma, dói lá dentro, porque você jamais pode ser julgado pela cor da sua pele. Pelos seus atos sim, mas pela cor da pele não.

Eder Felipe da Silva, morador de Barra Longa

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