Pautas de pescadores(as) e garimpeiros(as) tradicionais se agravam na pandemia

Pescadores(as) e garimpeiros(as) tradicionais da bacia do rio Doce enviaram à Câmara Técnica Indígena e Povos e Comunidades Tradicionais (CT-IPCT) um documento que reforça as pautas já levantadas ao longo do processo de reparação. As demandas partem da necessidade do reconhecimento das comunidades tradicionais como atingidas, uma vez que foram impedidas de exercer suas atividades e tiveram suas fontes de renda comprometidas pela contaminação do rio, após o rompimento da barragem. Mas, para além das dificuldades já enfrentadas, uma nova urgência é inserida às pautas: os(as) pescadores(as) e garimpeiros(as) tradicionais que se valiam de trabalhos informais não podem agora exercer também esses serviços, devido ao isolamento social imposto pela pandemia de Covid-19. Como alternativa, o documento prevê o pagamento de “auxílio pandemia” para o sustento das famílias dependentes da pesca e do garimpo tradicional.

Por Antônio Áureo do Carmo, Clodomiro de Castro, Helena da Silva Lopes, José Márcio Lazarini, Maria Caia Auxiliadora Corrêa da Silva, Noêmia Gonçalves Guicciardi

Com o apoio de Joice Valverde e Sérgio Papagaio

O Auxílio Financeiro Emergencial está previsto no Termo de Ajustamento de Conduta como benefício assistencial para famílias impactadas pelo rompimento da barragem de Fundão. Compreendo que merecem destaque os atingidos pertencentes aos coletivos garimpeiros/faiscadores e pescadores, os quais se encontram impossibilitados de exercer suas  atividades. Mesmo nesses tempos de pandemia por conta do coronavírus, a pesca, que é a minha atividade, certamente proporcionaria um alento através dos momentos de lazer, assim como a oportunidade de poder pescar e obter peixes para auxiliar um pouco na alimentação.

Helena da Silva Lopes, pescadora de Rio Doce

Após o rompimento da barragem, vivemos tempos de muitas dificuldades financeiras, doenças psicológicas e de pele. Sempre que apertava, sabia onde buscar recurso para sobreviver. O rio era ali bem pertinho. Nós todos o chamávamos de “nosso pai”, porque era ele que nos socorria nas horas de aperto. Era peixe, ouro, areia, cascalho, tudo era transformado em  dinheiro. E, agora, com essa pandemia, quando muitos estão perdendo o direito de trabalhar, se não fosse essa tragédia, era lá que íamos buscar nosso ganha-pão. Os atingidos, agora mais do que nunca, necessitam desse apoio, para que possam se fortalecer e passar pelas dificuldades que estão sofrendo desde o rompimento da barragem e agora muito mais, com essa pandemia.

Maria Caia Auxiliadora Corrêa da Silva, pescadora do Rio Doce

Eles tiraram o rio totalmente, não tem como trabalhar, então são eles que têm que dar recursos para os garimpeiros. Hoje, tá muito difícil, acho que mais difícil ainda do que no rompimento da barragem. De repente, sem saber de nada, veio a lama e tirou todo meu recurso e meu local de trabalho. Aí eu fiquei sem rumo. Com dificuldades, fui mexendo daqui e ali, mas a renda não voltou até hoje. Tem muitos garimpeiros que não tiveram nenhum real depois do rompimento da barragem. Nesse momento de pandemia, como está ruim pra mim, pra eles então está pior. A Renova não dá satisfação, não fala nada. 

Clodomiro de Castro, garimpeiro tradicional de Acaiaca

A pandemia parou o mundo e esse fato, hoje, é um problema global. Graças a Deus, nossa região registrou poucos casos da doença, pois as medidas de isolamento estão auxiliando muito, mas não sei como ficará a economia. Uma possível crise econômica devido à pandemia da Covid-19 agravará ainda mais a situação das famílias nos municípios atingidos. Aqueles que não podem mais pescar e nem garimpar devido ao rompimento da barragem de Fundão e que buscam novas opções de trabalho para o sustento de suas famílias, com uma crise econômica, terão maior dificuldade, pois a oferta de trabalho é reduzida.

José Márcio Lazarini, pescador de Rio Doce

Nós sempre usamos o rio, até quando pôde, como complementação de renda e, muitas vezes, como única fonte de renda. Hoje, além desse estresse que a gente tá vivendo por causa desse vírus que parou o mundo, a gente ainda tem que alimentar essa mancha que as empresas mineradoras, literalmente, deixaram na gente, de não ter como prover uma complementação de renda. Eu poderia estar agora indo pro rio, que é um lugar onde eu poderia trabalhar isoladamente, apesar do costume nosso de ir em pequenos grupos, reforçar minha renda com alguns décimos de ouro que tivesse lá. Mas como que eu vou fazer? 

Antônio Áureo do Carmo, garimpeiro tradicional de Rio Doce

Nós, que estamos esperando o reconhecimento da Renova, neste momento crucial, com o isolamento, ainda está pior. Me impede de trabalhar e de fazer as coisas para a minha família, pois eu trabalhava com garimpo e, agora, eu não posso mais. É nele que tirava nosso sustento para sobrevivermos melhor. Nós só queremos que o nosso direito seja reconhecido e ter o direito de cuidar da nossa família decentemente. Nesse momento, precisamos muito que a Fundação Renova nos dê uma posição, pois, assim, poderíamos passar por essa pandemia com um pouco mais de tranquilidade.

Noêmia Gonçalves Guicciardi, garimpeira tradicional de Felipe dos Santos

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