Protesto silenciado

A população de Antônio Pereira, distrito de Ouro Preto, vive apreensiva com a falta de transparência da mineradora Vale sobre as ações tomadas em relação ao risco que a barragem de Doutor expõe aos(às) moradores(as). Após relatório da auditoria independente, realizada pela SLR Consulting, mostrar que a área da mancha da barragem de Doutor é maior que a considerada pela Vale, a Justiça de Ouro Preto acatou o pedido do Ministério Público de Minas Gerais de que as medidas impostas à mineradora também abarcassem a nova delimitação da Zona de Autossalvamento (ZAS). A decisão aumenta o número de pessoas a serem removidas de suas casas, ação que a Vale vem realizando desde fevereiro. 

No dia 30 de julho, moradores(as) organizaram um protesto pacífico contra a Vale e, durante a madrugada, fecharam a MG-129. Apesar da Polícia Militar impedir o bloqueio da rodovia, os manifestantes continuaram o protesto à margem da estrada. A manifestação foi motivada após a mineradora adiar em uma semana a entrega de seus estudos sobre a mancha de inundação em caso de rompimento.

Por Ana Carla de Carvalho Cota e Patrícia Ferreira Ramos

Com o apoio de Wigde Arcangelo

Começamos uma manifestação pacífica, com faixas e o fechamento da MG-129,  o batalhão de choque impediu a manifestação, ameaçou soltar bombas se não desbloqueássemos a rodovia, disseram que usariam a força se a comunidade não recuasse e abrisse a estrada. A população do distrito de Antônio Pereira não aguenta mais o desrespeito da mineradora Vale, as violações e a falta de compromisso e de responsabilidade em assegurar a vida das famílias moradoras próximas da barragem de Doutor, com risco de rompimento em nível 2. A população sequer conhece o som das sirenes: já foi solicitado o simulado, a Vale não responde. Caso a barragem venha a romper, muitas vidas serão perdidas. A Vale diz, nas suas próprias regras de ouro, que a vida vem em primeiro lugar: mentira! A realidade é um descaso com as vidas dessas famílias, que não teriam condições de se salvar e não teriam tempo de correr da lama se a barragem romper, morrendo nas suas casas. O que vemos é que a regra número um da Vale, na verdade, é lucro em primeiro lugar. A comunidade pede socorro, muitas famílias adoecidas, sem dormir, com medo e a Vale não dá informações para a população.  A Vale impõe tudo para todos. A barragem do Doutor está em nível 2, com risco de rompimento e a Vale só adia, viola os direitos dos atingidos, se nega a tratativas em parceria com a comunidade, desrespeita os moradores e não dá efetiva atenção e urgência que o caso merece. Além de não preservar a vida dos moradores na Zona de Auto Salvamento (ZAS) que estão expostos ao risco de rompimento. Se romper hoje, muitas mortes ocorrerão. Ontem [30 de junho de 2020] era o prazo dela apresentar a nova mancha de inundação e começar as tratativas para retirar as famílias da nova mancha. Ontem, ela informa, para a Defesa Civil, que irá adiar a entrega do mapa por uma semana, sem dar justificativa. A comunidade quer ter voz! Quer que a Vale dê respostas e se posicione.

Ana Carla de Carvalho Cota, moradora da Vila Samarco

Protesto silencioso

Protestos sobre a situação de Antônio Pereira já aconteciam. Desde o dia 28 de junho, motoristas veem, além das usuais placas de sinalização, faixas de protestos contra a mineradora Vale, ao passarem pela rodovia MG-129. O intuito é mobilizar quem passa pelo local com a causa do distrito. Entre as reivindicações exigidas estão o reconhecimento de que os(as) moradores(as) da Vila Samarco e de Antônio Pereira são atingidos(as) pela barragem de Doutor; o cumprimento do Plano de Ação de Emergência para Barragens de Mineração (PAEBM), de acordo com a Associação Nacional de Mineração (ANM); que a mineradora Vale seja transparente nas informações; e que sejam colocados dois pontos de apoio, um em Antônio Pereira e um na Vila Samarco.

As faixas como denúncia surgiram de um movimento dos próprios moradores que se juntaram para fazer essa publicação desde Ouro Preto até o distrito, com várias faixas de denúncia, falando que a Vale não tem olhado para eles, não tem dado informação, que eles não querem morrer. É para tocar mesmo, em quem passa na rodovia. A ideia é que se continue com essas faixas, mantendo a denúncia até que eles se sintam, de fato, seguros, o que, agora, não é uma realidade.

A desinformação por parte da Vale continua. A Associação Nacional de Mineração (ANM) deu uma autorização para a Vale depositar rejeito úmido numa cava de Timbopeba. Então, isso garante uma retomada de operações na mina, mas também estamos sem muitas informações. Um dos receios é, inclusive, se isso não atingiria o lençol freático, mas não existe essa informação ainda. Outra questão é sobre umas obras de abertura de estrada que a Vale começou lá. A justificativa é que aumentaria o tráfego de carros ali naquela região por conta do descomissionamento, então essa abertura de uma nova estrada permitiria maior movimento que não atingisse o cotidiano do distrito, não ofereceria risco. A questão é que é um distrito que já convive com poeira, que, agora, aumentou muito mais.

Patrícia Ferreira Ramos, professora na Escola Estadual Daura de Carvalho Neto, em Antônio Pereira

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