Ecos da mineração

No Boletim do Setor Mineral 2020, Alexandre Vidigal de Oliveira, Secretário Nacional de Geologia, Mineração e Transformação Mineral, coloca o setor como um dos principais propulsores da retomada da economia brasileira após as transformações econômicas causadas pela pandemia de Covid-19. A mineração exerce uma grande influência financeira no Brasil, isso se revela não apenas na economia, mas também nas barragens espalhadas pelo país. Em outubro de 2020, 858 barragens nos Brasil estavam cadastradas no Sistema Integrado de Gestão de Barragens de Mineração (SIGBM). Minas Gerais é o estado com a maior concentração destas barragens, são 365.  

É preciso olhar para a mineração para além dos montantes de dinheiro que ela proporciona. É necessário perceber como essas 858 barragens interferem na vida das pessoas e do meio ambiente. A barragem de Fundão não foi a primeira a se romper. Mas o tamanho do rastro de destruição causado pelo crime fez com que percebêssemos com mais nitidez o poder destrutivo desse setor. O que não foi o suficiente para que evitasse outras violações de direitos, terror psicológico e mortes. Ainda se convive com o crime da mineração em Minas Gerais.  

O terror psicológico se repete

A comunidade de Antônio Pereira, distrito de Ouro Preto, vive o terror de não conseguir informações claras da mineradora Vale e conhecer as histórias dos rompimentos da barragem de Fundão e da barragem da Mina Córrego do Feijão. Esse cenário faz com que os(as) moradores(as) vivam com altos níveis de estresse. A comunidade se organiza para ter seus direitos garantidos. Entre as pautas, eles(as) exigem conhecer o barulho da sirene que afetaria a população no caso do rompimento da barragem do Doutor. 

Por Cida Rosa, Ana Carla de Carvalho Costa

Com apoio de Joice Valverde, Júlia Militão, Juliana Carvalho e Wigde Arcangelo

Foto: Lui Pereira / Agência Primaz

A nossa história começou há pouco mais de dois anos, quando a Vale veio no nosso território e falou que se a barragem estourasse ela iria até a escadaria da igreja. A partir ano de 2019, começou o terrorismo. Agora no início de 2020, começou a retirar as famílias, tiraram as das primeiras ruas, agora nos tirou.Não temos um documento que fala se a nossa saída é definitiva ou provisória. Estamos numa casa alugada pela Vale, no meu caso é uma casa muito boa, mas não é minha. O que que vai ser da gente? Eu vou ser indenizada, daqui a quanto tempo? Ou eu vou voltar pra minha casa? Ou eu vou ter direito de comprar uma outra casa onde eu quero? É bem complicado. Abrimos protocolo na Vale e não é atendido. As pessoas da Vale nos olham e reagem como se fossemos nada, é uma situação muito constrangedora. É humilhante, você se sente um zero. Eu gostaria muito que fosse diferente porque nós chegamos lá primeiro, a barragem veio depois. E eu tenho certeza que não é só barragem, eu tenho certeza que ali também existe o fato da mineração. Eu tenho impressão que não é só a barragem, a Vale quer minerar o nosso território. 

E ela não nos dá um documento falando que a saída é definitiva, só fala. Eu já fiz vários protocolos, já mandei email, já fiz tudo que você pode imaginar. Por último agora na minha saída, essa documentação eu não assinei. Então assim, ficamos indignados porque a Vale só tem CNPJ, não tem coração. O sofrimento é muito grande, o meu corpo tá reagindo de uma forma gritante. Eu desenvolvi uma doença que chama capsulite aguda adesiva, que é, traduzindo, ombro congelado. O meu braço não levanta, ele fica parado, devido a tensão nervosa. Tudo isso por causa dessa situação que a gente está vivendo. Eu não durmo, a impressão é de que eu estou lá ainda. A sensação é de impotência e as pessoas nos tratam muito mal, como se a gente devesse favor a eles. A gente não deve favor pra eles, a casa era nossa, quer dizer, a casa é minha! Eu ainda não vendi pra Vale, eu não doei pra Valer, ou emprestei. A casa é minha. É bem constrangedor. Eu tenho fotos com o corpo roxo. Até o rosto, abaixo dos meus olhos, ficaram roxo. Choradeira, choro o tempo todo, até os carros na BR a gente assustava achando que poderia ser algum tipo de sirene. É horrível, é só vivendo lá pra saber. Contar o que a gente passou, não é brincadeira. A situação é gritante, as pessoas estão vivendo dias ali de terrorismo, é uma lama invisível.

Cida Rosa, moradora de Antônio Pereira

Foto: Lui Pereira / Agência Primaz

Algumas famílias resistiram e não saíram das suas casas, desde o primeiro estudo das ZAS (Zonas de Autossalvamento), que pegou a rua Água Marinha. Então hoje existem seis famílias que são remanescentes. Essas famílias elas foram abandonadas pela Vale, há meses a Vale não dialoga com esses remanescentes. Essas pessoas viram seus vizinhos serem arrancados de suas casas, em plena pandemia. A Vale retira as famílias igual se toca gado, de uma forma desumana e perversa. E hoje, eu que também sou moradora remanescente, nós sofremos retaliações da Vale. Ela tem invertido as funções. Porque dentro do nosso entendimento, o que a Vale impôs para a remoção foram muitos acordos de boca, nada de  segurança, não tem um papel que informa pra gente se a nossa saída é definitiva ou não. A questão do aluguel temporário, a gente não sabe quanto tempo vai ser. Tem aí evidências de Bento e de Paracatu, que as famílias já vão fazer aí cinco anos e não foram realocadas e não foram indenizadas. Então, nós dissemos não, os remanescentes, nós queremos lutar por aquilo que nós entendemos ser de direito. A gente quer sair com mais garantias.

O tempo inteiro a Vale fala nos seus processos que tem procurado diálogo com a comunidade, inclusive com nós remanescentes. Ela diz que nós somos resistentes. E na verdade, ninguém é resistente, todo mundo sabe que vai ter que sair dali. Nós não estamos falando que não queremos sair das nossas casas, é que a gente quer sim, mas com os nossos direitos garantidos. Nessa última ZAS, ela enviou inclusive um mapa que excluiu os remanescentes, ela simplesmente fez como se a gente se apagasse. A vale simplesmente nos ignora, finge que não existimos.

Há tempos nós estamos lutando por aquilo que é de direito, pra gente romper com esse ciclo que a Vale faz em todos os territórios, de fazer as remoções negando os direitos e violando as famílias. 

Estamos cansados de pedir o simulado, já enviamos ofícios cobrando. Nós não sabemos o som da sirene, as rotas de fuga não foram readequadas e elas não são adequadas. As pessoas não sabem se houver um rompimento, o som da sirene, em Fundão não tinha sirene. Em Brumadinho a sirene não tocou. em Antônio Pereira, nós não temos simulado e nós não sabemos o som da sirene. Nós não estamos preparados para correr da lama e ainda existem pessoas mesmo com as obras, morando na zona de auto salvamento e isso é muito sério, porque a gente sabe que Fundão rompeu devido as obras que estavam acontecendo, ou seja, a Vale iniciou as obras na barragem do doutor sem retirar todas as famílias das ZAS. 

Eu sou moradora da ZAS e possuo casa alugada na ZAS. E um outro caso que nós estamos pedindo inclusive uma reunião com a juíza para tratar disso, é o caso dos proprietários que tinham seus inquilinos. A única coisa que foi conseguida numa decisão foi um salário para o proprietário, ou seja, se eu sou proprietária, e o meu marido, por exemplo, não está no documento como proprietário e a minha família são quatro pessoas, só eu recebo um salário. Então, é uma situação que os proprietários estão vivendo que nós tínhamos casas próprias alugadas e usávamos esse dinheiro para subsistência. Hoje o que tá acontecendo é que os nossos inquilinos ganharam a alimentação, ganharam um salário para todas as suas famílias, as crianças metade, os adolescentes um terço, todos receberam tudo e o proprietário ficou as mínguas. Nós, proprietários, não podemos voltar mais pra residir nas nossas casas próprias. Isso é um absurdo. E tem uma outra coisa, por exemplo, algumas famílias que tinham quitinetes, mas que viviam dessa renda, a Vale alega que só paga por CPF, então se ele tinha três quitinetes alugados, a Vale só vai pagar o valor de um salário por uma quitinete. O dinheiro do aluguel, muitas vezes, é o que paga o aluguel de alguns proprietários em outro local. Por isso, nós requisitamos o auxílio emergencial igual dos inquilinos. Assim, é um grito mesmo que os proprietários precisam ser reconhecidos e ter os seus direitos amplamente nas decisões da ação civil pública do Ministério Público. A Vale não cumpre as decisões judiciais, é fato, tanto é que nós estamos ainda morando nas ZAS e ela se justifica dizendo que somos resistentes e na verdade ela não busca o diálogo com a gente.

Ana Carla de Carvalho Costa, moradora de Antônio Pereira

Assim como o crime, suas consequências também se repetem

Um ano e nove meses se passaram desde que o crime se repetiu, com o rompimento da barragem B1 da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho. Perto de completar mais um ano, os(as) atingidos(as) estão com medo de que mais uma barragem se rompa. As barragens B1 (a mesma que rompeu no dia 25 de janeiro de 2019) e B6 apresentam trincas e risco de romper. Enquanto isso, a Vale segue negando os direitos dos(as) atingidos(as), seja em trazer respostas sobre os 11 corpos que ainda se encontram soterrados na lama tóxica de rejeitos ou pela tentativa de interromper o pagamento do auxílio emergencial. A Vale insiste em não reconhecer uma grande parcela da população de Brumadinho como atingida, enquanto caminha com carretas de minério pelas ruas da cidade, espalhando a contaminação e ignorando as consequências dos crimes que comete contra a vida de milhares de pessoas.

Por Maria Moura, Rose Fontes e Rosilene Aparecida

Com o apoio de Joice Valverde, Júlia Militão, Juliana Carvalho e Wigde Arcangelo

Foto: Larissa Pinto

Passados os dias, os meses e as horas do fatídico dia 25 de janeiro de 2019, a cidade de Brumadinho se tornou um caos. A cidade era pacata, tinha sua rotina certa, o trem passando no horário, os caminhões descendo para subir a serra, os ônibus das empresas e seus funcionários uniformizados; o sorriso e o “bom dia” dado com atenção e carinho entre os moradores, mesmo sem sequer saber seus nomes, mas se conheciam de vista. Isso tudo a lama levou e, com ela, levou muitas coisas, além das nossas joias*. Levou sonhos, levou o sossego e trouxe a violência… Veio gente de todo lado atrás de emprego, vieram os assaltos, as perseguições policiais, os enfrentamentos com tiros, os homicídios à luz do dia. E, como não bastasse tamanho sofrimento, 2020 começa com um vírus que assola o mundo e desola a cada dia mais. Um vírus que, enquanto era número, muita gente não se importava, mas, agora, ele passou a ser nomes. Em Brumadinho, com tanta gente de fora, em terceirizadas contratadas pela tal empresa da lama, isso só nos trouxe o vírus com mais força. Nossas famílias estão reclusas, nossos idosos são os mais vulneráveis, mesmo com todo aparato que o Executivo está fazendo, estamos com medo do amanhã. Nosso psicológico já não é mais o mesmo, eu mesma tive que sair para procurar emprego em outras cidades para ajudar a manter o ganha pão da minha família. Mesmo assim, estou desempregada, pois, na cidade, infelizmente, quem tem vez são pessoas de fora. Sendo assim, Brumadinho que, antes, era refúgio, hoje, não é mais. A sombra da lama paira no ar, a cidade entristeceu de tal maneira que não se vê vida por lá. Com o passar do tempo, será uma cidade fantasma marcada por uma tragédia anunciada.

Maria Moura, moradora de Brumadinho

Vivemos na iminência de termos o auxílio emergencial da Vale findo, depois de deixar um rastro de destruição e morte mergulhando a cidade em caos e tristeza profundos, vivendo um trauma generalizado. Fomos invadidos em nosso sossego e privacidade, acabando com uma pacata cidade que era Brumadinho. Agora, com a pandemia, mais um impacto para Brumadinho e mais um agravo: empresas terceirizadas chegaram aqui com funcionários contaminados pela Covid-19, aumentando os casos que não eram nem relatados, ou seja, expondo ainda mais o povo sofrido da cidade, ainda no auge do crime. Assim, seguem os desmandos da criminosa Vale na cidade onde nada foi reparado ainda, deixando a cidade duplamente impactada… Brumadinho, hoje, é uma cidade cara pra viver, devido aos altos aluguéis, com mão de obra de todo sentido caríssima, alimentação, saúde e duplamente impactadas pelo crime da barragem e pela pandemia. Muitos não estão conseguindo viver mais aqui, porque Brumadinho não é mais uma cidade pacata e calma, se tornou violenta, cheia de gente estranha no nosso convívio, perdemos nossa privacidade… Como não imputar mais esse evento à Vale S.A.? 2019 e 2020 são anos muito difíceis para todos os brumadinhenses…  Agora, para piorar a situação, apareceram novas trincas na barragem que estourou e ainda estamos sob o risco de mais uma tragédia… Ainda temos a barragem B1, que estourou e ainda pode dar mais problemas se romper novamente, e a B6, de rejeito líquido. Como não culpar a Vale S.A. por tudo o que estamos passando e ainda não tivemos reparação? Meu município ainda sofre com a falta de reconhecimento por parte das autoridades sobre os impactos causados.

Rose Fontes, moradora de Brumadinho

O sofrimento de Brumadinho tem sido, a cada dia, pior. As pessoas estão adoecendo demais, muitas pessoas tendo depressão profunda… E tem essa questão da Vale nos negar tudo, né? Negar as indenizações, negar os pagamentos do emergencial, acabar com o emergencial das pessoas sendo que eles nem iniciaram a limpeza dos rios. Então tem muita coisa ainda a fazer e eles já estão querendo dar como pago. Está sendo muito complicado para os moradores em Brumadinho, porque, por todo lado que você anda, a Vale está mexendo na cidade. Eles alegam que, aqui em Brumadinho, nem todos os bairros foram atingidos, querem deixar como se fossem três bairros e o restante não. E eles estão querendo tirar o emergencial do pessoal de Brumadinho, uns estão recebendo só meio salário e ainda pretendem diminuir esse valor. Tá ficando muito difícil de mexer com a Vale, porque ela não é uma empresa pequena, ela é uma empresa milionária, é grande demais… Se formos analisar, todos os bairros são atingidos e eles não concordam, e olha que, aqui dentro, os bairros são próximos; no centro de Brumadinho, passa carreta toda hora, caminhão cheio de minério, e eles não querem arcar com isso. Então da mesma forma que ela fez em Mariana, ela faz até pior aqui e está querendo deixar por isso mesmo, entendeu? Como se nada tivesse acontecido. Eu fico muito triste de saber que até a juíza aqui de Brumadinho está em defesa da Vale, então fica complicado. Tantas mortes, tantos amigos que foram embora, e a empresa simplesmente não faz nada. 

Nós, de Brumadinho, estamos pedindo socorro, porque está pra romper outra barragem, do lado da outra que rompeu, porque está trincada, e a Vale não está nem aí. Eles até pararam a busca dos corpos que não foram encontrados, 11 corpos que ainda não foram encontrados. E essa empresa ainda quer parar com emergencial? Ela é safada, essa Vale! Nós temos que lutar mesmo. 

Eu acho que nós estamos perdendo as forças também, o nível de depressão aqui em Brumadinho está muito alto, as pessoas estão muito doentes, se deixando levar, porque não conseguem lutar. Ninguém está tendo forças, sabe? Foram muitas pessoas que morreram, e isso é o que a gente sabe. É triste saber que perdemos muitos amigos e tudo fica por isso mesmo. A Vale sabe que é culpada, mas não está nem aí. Estão pagando milhões e milhões para o Governo, enquanto os atingidos aqui de Brumadinho estão sem um salário mínimo e o nosso emergencial só foi prorrogado até o mês que vem. É um absurdo! Eles querem brincar demais com a vida do ser humano aqui de Brumadinho.

Rosilene Aparecida, moradora de Brumadinho

* As joias representam as 272 vidas levadas pela lama de rejeitos do rompimento da barragem do Córrego do Feijão.

Foto: Joice Valverde
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