“Ninguém consegue recomeçar a vida sem saber de onde”

Por Caetano da Silva, Elisete Aparecida, Rosária Frade, Olívia Gonçalves, Tcharle do Carmo

Com o apoio de Assessoria Técnica – Cáritas Brasileira, Carlos Paranhos, Miriã Bonifácio e Wandeir Campos

Ilustração: Welidas Monteiro

Desde que foram tirados de seu lugar, os moradores da comunidade de Paracatu de Baixo enfrentam dificuldades para encontrarem um novo espaço no qual possam retomar parte da vida levada pela lama. São atingidos que, desterritorializados, buscam reviver a comunidade em espaços improvisados, marcados pelo desejo do reencontro com os dias que antecederam ao desastre.

Recentemente, as incertezas a respeito da qualidade e da quantidade de água nos terrenos para o reassentamento e a procura por um novo espaço para acomodar a escola do subdistrito reacenderam nos moradores a necessidade de engajamento na busca por condições de vida dignas no futuro. Isso, é claro, sem nunca esquecerem o lugar de onde vieram.

Assim como nas demais comunidades atingidas, a força dessa história, que vira até cinema, não está só na avalanche destruidora de lama, mas, principalmente, na luta de um povo para se manter forte e unido.

Ninguém consegue recomeçar a vida sem saber de onde. A questão do lugar é algo que [as empresas/fundação] não resolvem. Acham que vão solucionar o problema da água de qualquer jeito e deixar de qualquer jeito. Para eles, a melhor forma possível de resolver um problema é qualquer hipótese que atenda a empresa, e não aos moradores. Eles veem como uma facilidade a ideia do poço artesiano, mas eu não vejo assim, porque não tínhamos isso em Paracatu. Acho um descaso, na verdade. E ainda vão ver se existe a possibilidade de fazer esses poços no terreno, porque não tem nenhum estudo sobre isso até agora. Então, não vejo nada de concreto pra gente. É difícil, né? O pessoal do Meio Ambiente deu para eles um prazo de 30 dias para concluírem esses estudos. E a preocupação disso tudo foi nossa mesmo, partiu da gente, porque temos o entendimento de que o município não tem condições de arcar com altos custos para o fornecimento de água e tratamento de esgoto, e a tendência da empresa é querer deixar isso por conta da Prefeitura. Uma solução que eu vejo é pegar água do córrego de Lavras Velhas na ponte das Crioulas, porque lá a água atinge uma altura que pode chegar até o terreno por gravidade. O lugar para Paracatu foi escolhido e não vejo possibilidades de mudança. Agora, falta eles [Samarco] finalizarem a compra.

Rosária Frade, atingida de Paracatu de Baixo

Nunca faltava Água em Paracatu. A captação da água a se dava das nascentes, onde era canalizadas e enviada para as caixas d’água. O próprio povo da comunidade realizava a manutenção necessária. Se desse algum problema, como um cano que estourava ou a boca que ficava entupida por conta do barro, por exemplo, Leco ia lá arrumar. E mesmo assim, era muita abundante. Sempre usamos a água pura de Paracatu, nunca precisamos de produto ou tratamento. Já em Lucila não tem água para o povo. Na realidade, a empresa está jogando sujo com a gente, porque eles vão lá no terreno, esperam chover pra dizer que tem água, mas sabem que não tem, ficam nos enrolando. Nós conhecemos muito bem o terreno, não tem água nem para o núcleo urbano. Da onde vão tirar água? De poço artesiano? Nunca precisamos disso antes, então a empresa tem que se virar para arranjar água de qualidade, buscando no lugar que tiver.

Caetano da Silva, atingido de Paracatu de Baixo

Os atingidos correram atrás de averiguar a insuficiência de água no terreno de Lucila, através das próprias visitas aos terrenos. É importante destacar o protagonismo deles nesse processo de se preocuparem com o direito de uma condição de vida digna em longo prazo. E eles já faziam isso em Paracatu, pois cuidavam das nascentes do rio que abastecia abundantemente a comunidade. O maior receio, então, está na própria duração de um poço artesiano e também nos custos que sua manutenção gera. E nós sabemos que eles têm uma validade, que vai de 10 a 15 anos.

A Fundação Renova/Samarco alega que, nos primeiros relatórios, havia estudos que confirmavam o abastecimento de água para o reassentamento de Paracatu. Mas, na verdade, essa avaliação dizia respeito apenas ao terreno de Lucila e contemplava um número de moradores que não condizia com a realidade do local atingido – tanto que os sitiantes tiveram que ser incluídos e outros terrenos precisaram ser comprados para atender esse aumento de demanda. Também precisam levar em consideração que muitos atingidos são produtores rurais, criadores de gado, o que consome muitos litros de água. Por isso, é desejo da comunidade que o abastecimento seja feito como era antes, e as alternativas para que isso aconteça não estão em afluentes tão próximos, mas acreditamos serem possíveis. Inclusive, os moradores se organizaram em uma saída de campo onde mostraram para representantes da empresa alguns pontos de água que eles consideram bons.

O que a Renova/Samarco precisa fazer é o cálculo da demanda de água, considerando as áreas de APP (Área de Preservação Permanente) e os períodos de seca. Porém, a fala da fundação/empresa tem sido no sentido de que não seria uma obrigação dela entregar as formas de captação. O que nós acreditamos é que, se houver boa vontade, os problemas podem ser solucionados de acordo com a vontade da comunidade.

Assessoria Técnica Cáritas Brasileira (dos atingidos de Mariana)

As mães e os pais dos alunos estavam insatisfeitos há algum tempo, mas, até então, ninguém tinha procurado a gente. As reclamações deles apareciam, principalmente, por conta da distância da escola até o centro. Para alguns, é muito complicado levar os filhos. Nesse novembro, em um domingo, houve uma chuva muito forte, que danificou parte de uma parede da escola que era construída em PVC. Na segunda seguinte, estava tudo um caos, sem nenhuma possibilidade de ter aula. Foi então que nós, da escola, falamos: “Se todo mundo está insatisfeito, vamos mobilizar os outros pais pra gente pensar nisso juntos”. Chegamos no nosso limite! Sônia, a diretora da escola, marcou uma reunião com a Cáritas, Renova/Samarco, pais e representantes da Comissão dos Atingidos de Mariana para formar uma comissão que pensaria nesse novo lugar. Se a gente for sair de lá, temos que pensar em um lugar melhor. Não vamos mudar para algo inferior. Essa necessidade de sair partiu dos pais, então, nós estamos escutando. Eles têm o direito de escolher onde querem que os filhos estudem. A Renova/Samarco precisa arcar com essa casa. Não foi uma escolha nossa ir para lá. Eles falaram que ia ser provisório, mas esse provisório já tem dois anos.

Elisete Aparecida Tavares (atingida e professora de Paracatu de Baixo)

Eu sou mãe da Alícia. Minha filha estuda na escola de Paracatu. Estou contente com a mudança de escola, porque fomos nós, pais, que decidimos juntos. Onde estamos é bom? Sim. Porém o acesso é difícil, o lugar é fora de mão. Com muito empenho da equipe da comissão, achamos um lugar acessível, com espaço e jeitinho que lembra a escola de Paracatu. A casa precisa passar por reformas para se adaptar a uma escola, mas o local é ótimo. Os outros pais vão ver a casa para fecharmos o contrato. A Renova acompanhou essa comissão e estou confiante de que dará certo.

Olívia Gonçalves (atingida de Paracatu de Baixo)

Fui chamado para auxiliar na limpeza do terreno e, depois, na figuração do curta. Tinha que adaptar a área para mostrar melhor o dia da tragédia e eu fui ajudar. Só fomos entender quem era Walter Salles [diretor de cinema – “Central do Brasil (1998)”] bem depois. Pedimos a Fundação Renova/Samarco para não colocar máquinas, mas eles jogaram vários caminhões de pedras em Paracatu naquele dia. Senti que estavam com medo do que iria aparecer no filme. Com muito custo, chegamos ao final. O Walter, um cara muito simples, me chamou um dia e me perguntou qual tipo de música eu gostava. Falei que era sertanejo, Gusttavo Lima. Tem uma cena em que a moça fala “esse radinho era do Tcharle, o Romeu brigava muito com ele porque ele ouvia música alta…”, e tava tocando o som que eu escolhi. Só isso de terem falado meu nome já foi muito importante pra mim, porque trabalhamos vários dias, um trabalho muito duro, em que vivenciei muita coisa que a gente passou no dia do rompimento. Acho que, de tudo o que aconteceu nesses dois anos, isso foi uma coisa muito boa para nós. A comunidade se sentiu representada de alguma forma e a divulgação desse filme também é a divulgação do nosso lugar. Tivemos a oportunidade de ver como é feito um filme, uma novela. Se me chamassem de novo, para continuar trabalhando com cinema, eu iria. Exibimos o documentário produzido com o Lucas de Godoy, “Vozes de Paracatu e Bento”, na Igreja no último dia 5, que marcava os dois anos do rompimento de Fundão. Reabrimos a igreja  para celebrar a missa de Nossa Senhora, no dia 12 de outubro e voltamos lá nesse dia. Quando minha irmã entrou, chorou muito, porque foi ali que ela batizou, crismou e formou. Minha avó me disse: que horror! e eu entendi a reação dela. Entrar na nossa igreja sem ver nada dentro é chocante, vi várias pessoas se emocionando. Foi forte ver o documentário ali, com ela toda vedada para ficar escura. Ao mesmo tempo, foi muito importante porque as pessoas precisavam deste momento. Quando aparecia alguém que a gente conhecia, o pessoal ria, comentava. Eles também estavam se reconhecendo.

Tcharle do Carmo (atingido de Paracatu de Baixo)

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