Viver inseguro

Por José de Félix, Maria D’Angelo, Margareth Carneiro e Rosana Aparecida

Com o apoio de Madalena Santos e Miriã Bonifácio

Foto: Madalena Santos

Medo, angústia, insegurança, falta de confiança, desassossego. Esses são sentimentos constantes para os atingidos pela Barragem de Fundão que ainda vivem no rastro do rejeito de minério da Samarco. Mais do que estarem em situação de risco, eles encontram-se atordoados pela noção de morar embaixo de barragens. Divididos entre razões afetivas e a possibilidade de uma nova história em paz, atingidos de Mariana e de Barra Longa lutam pela garantia do direito à novas terras, também como reparação do crime que lhes atingiu.

A Fundação Renova/Samarco admitiu, em reunião realizada no dia 20 de dezembro,  com os representantes das comunidades atingidas de Mariana, que a compra assistida de novas terras para os moradores da Zona Rural é um direito e está dentro do Plano de Reparação. Entretanto, não há ainda um compromisso judicial que garanta o cumprimento dessa obrigação por parte da fundação/empresa.

Viver aqui na comunidade de Ponte do Gama, pra mim, já não é mais tão bom. Eu não tenho mais confiança de sair passeando na vargem por onde a lama passou. Não temos mais o campo de futebol, que era uma área que, toda a vida, nós gostamos demais. Não temos mais as festas da comunidade, a arena, a cavalgada. Perdemos a segurança com os roubos que estão acontecendo na região. E também o psicológico da gente ficou muito afetado, a gente ficou traumatizado. Qualquer barulho que ouve já acha que é a barragem que vem de novo. Ainda, o pessoal da Samarco deixa a gente mais inseguro, porque eles fazem simulação, trazendo, pra gente, a desconfiança, a insegurança. Isso prejudica ainda mais a memória da gente, o emocional. Quando tá chovendo, a gente tem medo. Quando tá de sol, a poeira nos agride. Temos o pior na saúde da gente. Morar aqui agora é um caso mais complicado. Com relação a eles me avisarem que a área tá sossegada, eu não tenho muito sossego não. Eu só quero que eles nos dêem assistência e reparem o desgaste que a gente teve com o desastre. Aqui, mesmo em área de risco, enquanto eu tiver oportunidade de continuar morando, eu vou. Eles têm que me dar possibilidades, mas eu gosto do meu lugar.

Zé de Félix – morador de Ponte do Gama

Eu sinto pavor de morar aqui. Fico acordada a qualquer hora da madrugada e dormir passou a ser uma batalha. Quando chove, dá vontade de sair andando, mas eu penso no meu filho, no meu marido, e aí fico quietinha, sempre tomando conta da casa e da minha família. Quando consigo dormir um pouco, acordo assustada com medo da casa cair. Essa tem sido minha rotina de vida: viver com medo, viver no perigo.

Rosana Aparecida – moradora de Barra Longa

Eu converso com as pessoas, elas falam desse risco, mas, para ser sincera, nada de concreto chega até a gente. Nenhum estudo, nada. Nos primeiros dias depois do que aconteceu, a Defesa Civil veio e tirou a gente. Fomos para uma casa alugada em Águas Claras, mas, em pouco tempo, voltamos. A gente ia para lá só para dormir, então não fazia sentido. Porque é assim, aqui a gente tem criação, tem o sítio para cuidar, como que abandona isso? Então eu fico nessa dúvida, nessa angústia de sempre, porque eu quero os meus direitos de ir pra um lugar onde eu vou ter mais segurança no dia de amanhã, porém, se tiver que sair, tem que ir todo mundo para um lugar que tenha terra de qualidade pra gente plantar e levar essa vida que a gente leva. Vivo nesse lugar há 39 anos. A minha casa foi a única que ficou de pé aqui por perto, as dos meus vizinhos foram todas destruídas pela lama. Estou vendo eles reconstruindo no mesmo lugar das que foram derrubadas. A gente pergunta, pergunta, mas ninguém nos dá uma resposta.

Margareth Carneiro – moradora de Paracatu de Cima

Eu vejo falarem sobre a saúde dos atingidos em relação à situação de risco, mas nós, das comunidades rurais, estamos vendo a Fundação Renova reconstruir as casas atingidas nos mesmos lugares em que elas foram alagadas. E as empresas Samarco, Vale e BHP não fazem nada. Tem seis meses que a casa dos meus pais está sendo construída no meio da lama. Então, eu quero que as empresas virem para nós e falem que nós temos o direito à novas terras. Nós não vivíamos em área de risco, tínhamos a nossa vida tranquila. A opção de viver na roça era por uma vida saudável. A minha opção por ser lavradora é pela garantia de colocar na mesa, para os meus filhos, aquilo que eu confio, que eu produzo. Essa confusão de empresa destruiu a minha família inteira. Agora, a gente fica tendo que ir em reunião, ir viajar para poder garantir o que já era nosso. Nós estamos embaixo de barragens e continuam construindo casas no rejeito. O pior de tudo é que nem sabemos ao certo o que tem nessa lama.

Maria D’Angelo – moradora de Paracatu de Cima

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