Uma visita à Barra Longa

Após a reforma feita pela fundação/empresa, a estrutura começa a apresentar alguns problemas. (Foto: Tainara Torres/Jornal A Sirene)

Por Mariá Barbara, Maria de Lurdes Valentim, Simaria Quintão, Sergio Papagaio, Simone Silva

Com o apoio de Silmara Filgueiras

Fotos: Tainara Torres

Durante seminário do projeto A Sirene, realizado no último 3 de março, em Barra Longa, a atingida Simária Quintão, de Bento Rodrigues, questionou as condições futuras para o seu reassentamento, a partir do que viu na cidade. Uma vez que, enquanto os(as) atingidos(as) de Mariana discutem os caminhos para as novas comunidades, os moradores de Barra Longa já convivem com a má qualidade das reformas e das reconstruções feitas pela fundação/empresas.

O nosso hoje

Minha casa era uma casa simples na volta da capela. Era o meu canto. Depois que a lama veio, ela ficou suja mais de dois meses até eles retirarem o rejeito. Então, eu acho que isso fez com que as paredes ficassem umidificadas. Depois que ela foi reformada, foram surgindo alguns problemas. Abriram trincas nas paredes e elas começaram a mofar. Eu já tinha problemas respiratórios e, agora, agravou por causa da umidade que deu na casa.

Além disso, quando chove, o telhado começa a vazar, em praticamente todos os cômodos e, na parte de fora, a água da rua vai toda pra dentro de casa, porque parece que a canaleta que foi feita ficou rasa. Quando ia fazer um ano que a casa tinha sido entregue, tive que sair de lá e voltar para a casa alugada. Em julho, faz um ano que estou fora de casa de novo, aguardando eles mexerem, porque eles ainda não mexeram.”

Mariá Bárbara Dantas de Almeida, moradora de Barra Longa

Tinha acabado de reformar minha casa quando a lama chegou. Estava tudo bonitinho e novinho. O primeiro andar a lama invadiu, sujou tudo, estragou o piso. A fundação/empresas limparam a lama dentro de casa, mas o quintal ainda está sujo. O piso não foi refeito, só refizeram o banheiro e a varanda, porque quem passa do lado de fora vê que está tudo bonitinho, mas não está não.

A casa era toda cercada por uma tela, eles só refizeram as laterais, à beira rio ainda continua aberto. A capivara vai na porta da cozinha, pois não cercaram direito. Para agravar a situação, eles entraram no meu quintal, sem minha autorização, e desviaram o esgoto para o vizinho, sendo que sempre foi na minha casa.

Já tem quase dois anos que estou atrás da fundação/empresas para deixar a casa do jeito que estava, fiz várias reclamações, mas eles não fazem nada. No segundo andar, as paredes ficaram com rachaduras por causa dos carros pesados que passam. Lá, eu mesma tive que arrumar, pois eles não estão nem aí e eu uso a casa pra alugar, não poderia ficar sem minha fonte de renda.

Maria de Lurdes Valentim, Barra Longa

A fiação exposta põe em risco a vida das crianças. (Foto: Tainara Torres/Jornal A Sirene)

Podemos temer o futuro?

Olha para essa fiação exposta desse jeito ali. Assim, um menino pode puxar e arrancar aquilo, se machucar e ainda machucar alguém. Fiquei sabendo que, nesta escola, já houve um princípio de incêndio. Você vai na praça de Barra Longa, que foi toda atingida, agora reformada, e vê que eles não tiveram nem o cuidado de plantar uma planta colorida para a gente olhar e se encantar com o jardim.

Acho que essa experiência só concretizou o pensamento que nós tínhamos. Ir em Barra Longa e ver é uma coisa diferente, por isso, acho que deveriam vir mais pessoas, esses que têm uma visão da Renova/Samarco que a gente não tem, pra ver a realidade do nosso futuro. Ver se vão gostar. Saio de Barra Longa triste e com a impressão de que, se uma reforma pode ser assim, a construção da minha casa, no reassentamento, pode ser um pouco pior.

Simaria Quintão, atingida de Bento Rodrigues

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