Casas em risco, nossas vidas também

Por Maria Lúcia da Conceição, Rosana Aparecida Pinto, Simone Silva, Tatielly Martins Cunha e Vera Martins Cunha

Com o apoio de Assessoria Técnica AEDAS e Wandeir Campos

Fotos: Wandeir Campos

Diante do surgimento de trincas e rachaduras nas moradias, há quase três anos, os(as) atingidos(as) de Barra Longa perderam a privacidade, a tranquilidade e a sensação de segurança. Recentemente, a Fundação Renova/Samarco entregou laudos em que avaliou problemas presentes em 98 casas do município. Porém, mais uma vez, a fundação/empresa entendeu que a culpa para os abalos nas estruturas é anterior ao rompimento da Barragem de Fundão. Na assembleia do dia 17 de julho, os(as) atingidos(as) e sua assessoria técnica apresentaram à Renova/Samarco uma lista com 203 casas que precisam de reforma, outras 59 que devem ser reconstruídas, e, ainda, 23 que estão em estado de risco de emergência e necessitam de uma solução urgente.

De acordo com os laudos técnicos da Fundação Renova/Samarco, realizados pela empresa Vaz de Mello Consultoria em Avaliações e Perícias, os problemas nas casas atingidas são por causa da falta de um(a) engenheiro(a) no período de construção das moradias, somados a um cuidado inadequado com as residências durante sua vida útil. Mas, será apenas uma coincidência que várias construções apresentem problemas ao mesmo tempo?

“Moro em Barra Longa desde que nasci. Tenho um vínculo muito grande com a cidade e com a minha rua, a 1º de Janeiro. Nela, o tráfego de caminhões, carros e máquinas pesadas é muito grande. Tenho 27 anos e posso dizer que, praticamente, nasci e cresci nessa casa. Nunca tinha visto rachaduras e nem os problemas que ela tem apresentado hoje.”

Tatielly Cunha, moradora de Barra Longa

As rachaduras no banheiro de Tatielly e Vera surgiram no início de 2017. O cômodo divide parede com a garagem. (Foto: Wandeir Campos/Jornal A Sirene)
Rosana tampa o buraco com sacolas por medo de escorpião e outros animais. (Foto: Wandeir Campos/Jornal A Sirene)

“Tem 18 anos que resido em Barra Longa e, desde 2010, que eu moro nessa casa, na rua 1º de Janeiro. Uma rua que, depois da lama da Samarco, ficou muito movimentada por caminhões pesados. Tinha vez que a gente esperava 20 minutos para sair de casa, porque dia e noite eram máquinas, caminhões e rolo compressor. Antes, tinha paz. Passava carro, mas não muito, como agora. Primeiro, começaram as trincas; semanas depois, vieram as rachaduras. Até hoje, eles não me procuraram para olhar a situação da minha casa. Acho isso um descaso comigo e com a minha família, porque não sou melhor nem pior do que ninguém. E a Renova diz que essas rachaduras não foram por causa do tráfego de caminhões pelas terceirizadas.”

Rosana Aparecida Pinto, moradora de Barra Longa

“Moro na rua Ezaú Homero há mais de 30 anos e sou atingida pelo crime da Samarco. Era babá de crianças em Barra Longa e cuidava de uma idosa. Como eu ia trabalhar de chinelos, depois que os caminhões da empresa passaram a subir o morro da minha rua, derramando rejeitos pela cidade, passei a ter contato direto com a lama. O chinelo escorregava, eu tirava  e voltava descalça para casa. Fui atingida quando vi os resultados dos exames dos meus netos, Davidy e Sofya, contaminados pelo rejeito. Fui atingida quando vi meus filhos, Juliano e Daniel, cortadores de cana, não tendo seus direitos reconhecidos pela empresa. Minha casa está com rachaduras, porque passa máquinas pesadas da Samarco toda hora aqui. De dentro dá para ver a rua pelas trincas. Hoje, minha casa se encontra em estado crítico e corro risco de morrer debaixo dos escombros de um desabamento. Quantas vezes mais precisarei ser atingida para ser reconhecida pelas empresas criminosas?”

Maria Lúcia da Consolação Marques, moradora de Barra Longa

Ameaça reconstruída

Em agosto de 2017, a garagem da casa de Vera Martins, mãe de Tatielly Martins, foi reconstruída por uma terceirizada da Renova/Samarco, e, já em julho deste ano, a reforma, que contou com dois engenheiros para inspecionar a obra, apresentou trincas e rachaduras. Mesmo assim, no laudo, ainda consta que “a nova garagem construída pela Samarco apresenta um padrão construtivo bem melhor em relação à antiga garagem”.

“É um laudo utópico e não condiz com a nossa realidade. Eles alegam que as rachaduras e as trincas são por conta da construção ser em um solo que não aguentaria, pois é um solo de aterro. Outros fatores que eles apontam é uma matéria-prima de segunda que nós teríamos utilizado para erguer nossas casas, mão de obra desqualificada e ausência de um engenheiro especializado para acompanhar a construção. Mas minha família teve um engenheiro daqui de Barra Longa que acompanhou. Antes de construir a casa foi feito um estudo do solo em Belo Horizonte. O laudo, então, alega que as rachaduras e trincas não são relacionadas ao rompimento da Barragem de Fundão e que seria de responsabilidade nossa consertar todos os ‘defeitos’ das nossas casas.”

Tatielly Cunha, moradora de Barra Longa

Um ano depois, a garagem reconstruída pela Renova/Samarco já apresenta trincas. (Foto: Wandeir Campos/Jornal A Sirene)

Na reunião do último dia 27, a Renova/Samarco apresentou uma resposta sobre os 23 casos de urgência indicados pelos(as) atingidos(as) e sua assessoria técnica, e afirmou que irá realizar a reparação das famílias por meio de um auxílio-moradia.

“A princípio, ficou acertado os 23 nomes, mas, depois da negociação, a Renova começou a perguntar sobre alguns desses nomes, ou seja, isso ainda está em processo. Até agora foi acertado que a fundação vai pagar um auxílio-moradia, que não é um aluguel. Mas ainda vai ter uma reunião, no dia 9 de agosto, para continuar discutindo o valor desse auxílio e outras questões que serão de responsabilidade dela.”

Alexandra Borba da Silva, assessora técnica da AEDAS

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