“Jogo do empurra” na construção das casas

Poucos meses antes dos quatro anos do rompimento da barragem, a Fundação Renova/Samarco, Vale e BHP Billiton comemorou a colocação do primeiro tijolo da primeira casa no reassentamento de  Bento Rodrigues, em Lavoura. Hoje, uma das questões que aflige os(as) atingidos(as) é a demissão dos arquitetos responsáveis pelos projetos das casas. A comunidade atingida afirma que, segundo a Fundação, os vínculos com a empresa contratada, J+T, não haviam sido desfeitos e ainda existia a possibilidade de renovação dos contratos. No entanto, a J+T ainda não recebeu retorno do projetos, que estão com a Renova, e novos arquitetos estão sendo apresentados às famílias atingidas.

Por Antônio Pereira Gonçalves (Dalua) e Rennê Tavares (assessor técnico da Cáritas)

Com o apoio de Júlia Militão

Os arquitetos da J+T começaram a se envolver muito com os atingidos por causa da proximidade. Eles estavam na casa dos atingidos uma ou duas vezes por mês. O atingido, para desenhar a casa, tinha que contar para o arquiteto como era a casa dele, como ele vivia, como as coisas se distribuíam dentro do lote, do terreno, como era o modo de vida dele. E, a partir daí, o arquiteto começou a tomar conhecimento dessa vida. Então, o desenvolvimento do projeto começou a ser feito a partir das diretrizes garantidas e homologadas na justiça e a partir de uma metodologia que garantia a participação e a deliberação dos atingidos. 

Rennê Tavares, assessor técnico da Cáritas

 

Eu entendo a demissão como uma perda, porque já tem dois anos que os arquitetos estão acompanhando as famílias, acompanhando o pessoal de Bento e o pessoal de Paracatu. Ali, se cria um vínculo com essas pessoas. É um arquiteto que trabalhou com minha mãe, agora tá comigo, foi pra minha irmã, ou trabalhou com meu amigo ou na casa de algum parente. Isso gera um impacto, porque ficamos preocupados das pessoas que vierem não terem o mesmo atendimento. Quando você se acostuma com aquela pessoa, você se sente à vontade e a gente fica meio ressabiado com as pessoas que chegam recentemente.

Antônio Pereira Gonçalves (Dalua), morador de Bento Rodrigues

 

A gente entende que os novos profissionais que vão chegar não vão continuar desenvolvendo esse papel de deixar os atingidos construírem junto com os arquitetos. A gente tem visto os profissionais da nova empresa chegarem com o projeto pronto, sem construir ou desenvolver o projeto com o atingido. O profissional senta no escritório e desenvolve um projeto na cabeça dele, que ele acha mais pertinente. Só que, para a vida dessas pessoas que não saíram das suas casas porque quiseram, isso não se aplica, porque elas precisam ter participação efetiva no desenvolvimento das suas casas. Esse tem sido o maior impacto da saída dos profissionais da J+T.

Rennê Tavares, assessor técnico da Cáritas

 

É muito importante manter os arquitetos do início ao fim, até pra você cobrar da empresa. Saber das pessoas que estão ali trabalhando. Seria melhor, porque você tem a responsabilidade da assinatura daquele que iniciou e terminou seu projeto. É mais fácil do que uma empresa que iniciou o projeto e você ter que cobrar da segunda empresa que vai terminar, porque vai ficar no “jogo do empurra”. É um meio de tirar a responsabilidade delas, nenhuma vai se responsabilizar. Começa a fazer a sua casa e o outro termina: vai encontrar coisa errada. Eu creio que não vai ter coisa errada, quero acreditar que não, pra gente não ter esse problema, mas, se houver, nós podemos nos preparar, porque vai ter essa situação de um empurrar pra outro. A responsabilidade é da Fundação Renova, mas ela vai falar: “não, mas é a empresa que tava aí no início que fez, como vai fazer com a nova?”.

Antônio Pereira Gonçalves (Dalua), morador de Bento Rodrigues

 

Já tem alguns novos arquitetos trabalhando, mas eu não conheço nenhum deles ainda, não foram apresentados pra gente. Segundo a comunidade de Bento, vários deles já procuraram as famílias falando que seriam os novos arquitetos. Já trocaram até mesmo sem avisar que tava trocando, o que é mais um erro. Tinha que fazer uma reunião e apresentar os novos arquitetos, a nova empresa. 

Antônio Pereira Gonçalves (Dalua), morador de Bento Rodrigues

 

Esse processo, que vai do pré-projeto até o detalhamento, é um processo que nunca deveria sair da empresa que desenvolveu o anteprojeto com a família atingida. E foi a primeira coisa que a Renova fez, tirou isso da empresa e transformou o projeto numa confusão, que o atingido, no final das contas, não teve poder de deliberar exatamente como ele queria. Se o processo fosse feito da maneira como foi desenvolvido e escrito pela assessoria, na metodologia que a gente construiu, com certeza, os projetos estariam muito mais bem encaminhados. Quando a Renova faz essas alterações e tira os profissionais que estão iniciando o processo, ela também está atrasando a obra, o desenvolvimento do projeto e a execução da obra.

Rennê Tavares, assessor técnico da Cáritas

Ainda não há comentários

Os comentários estão fechados

CADASTRE-SE NA NEWSLETTER

Send this to a friend