Mariana: uma história com a mineração

(Foto: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)

Por Francielle de Souza*

O relógio já sinaliza quatro da tarde quando a praça Gomes Freire é atravessada por passos apressados dos primeiros marianenses que deixam seus postos de trabalho, provavelmente já imaginando um banho quente e um merecido descanso no findar do dia. No número 59 da rua Barão de Camargos ainda resta uma hora de expediente. A biblioteca Benjamin Lemos só fecha às 17 horas.

Antes de adentrar o casarão, uma parada para apreciar a vista: a igreja de São Pedro continua imponente no alto do morro. É ali, naquela rua de pedras irregulares, que se tem uma das vistas mais bonitas da cidade. Do lado de dentro, a simpática senhora que recebe os leitores parece conhecer cada canto da biblioteca. Caminha sem titubear para uma prateleira de livros enfileirados de modo desgovernado. Tortos, até. São eles que nos contam o início desta história.

O ano era 1696. O mês, julho. No décimo sexto dia, os bandeirantes paulistas comandados por Salvador Fernandes encontraram ouro no curso d’água e se estabeleceram nas margens do Ribeirão do Carmo. Assim nasceu Mariana. Ainda sem esse nome, que lhe foi dado depois como homenagem à rainha Maria Ana D’Áustria. Nas páginas amareladas dos livros que narram as aventuras dos bandeirantes, fica claro que a história de Mariana é também uma história de busca por ouro e de exploração dos recursos naturais. A Mariana que conhecemos hoje não nasce sem a mineração.

Em meados dos anos 1970, essa exploração ganhou novos ares: se tornou mais moderna. Agora, com o minério de ferro. É nessa época que as mineradoras chegaram por aqui e, como conta o historiador Paulo Gracino Junior, trouxeram uma sensação de progresso para os moradores. A cidade cresceu, graças à população que veio em busca dos empregos oferecidos pelas empresas. Mariana se viu aprendendo a dividir o espaço e a lidar com o outro, com o estrangeiro.  

A primeira década dos anos 2000 foi marcada por cifras altas. O minério estava mais valorizado no mundo, o que fez as mineradoras aumentarem a produção. Em 2013, o Brasil foi responsável por quase 15% da exportação mundial de minério. Dois anos depois, vinte pessoas desapareceram na cor amarronzada que tomou conta do que costumava ser Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo. A história do distrito de Camargos e dos subdistritos Ponte do Gama, Paracatu de Cima, Pedras, Borba e Campinas também ficaram manchadas de marrom.  

O ano, agora, é 2017. Além de enfrentar as consequências do rompimento da barragem de Fundão, Mariana se depara com uma crise da sua própria história. Se é pela exploração dos seus minerais que a cidade nasce e cresce, é também por ela que Mariana agora sofre. Já não é mais a mineração levando só o minério de ferro. É a mineração levando gente em um mar de lama. Gente de carne, osso, lutas e sonhos. Levando casas, álbuns de retrato, histórias. É a mineração nos levando e não se sabe até quando.

*Francielle é estudante de jornalismo na Universidade Federal de Ouro Preto

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