O show midiático da tragédia

Câmera no terreno de Lavoura, onde será reassentada a comunidade de Bento Rodrigues. (Foto: Lucas De Godoy/Jornal A Sirene)

Por Gustavo Nolasco*

Há alguns meses, o presidente da fundação ilegítima, escolhido pelas empresas de onde surgiram os assassinatos da Barragem de Fundão, usando a benevolência dos veículos de comunicação – estes ceivados com recursos desviados da reparação socioambiental para ações de comunicação/publicidade/evento/jurídico dela própria -, ao responder questionamentos sobre o reassentamento da comunidade de Bento Rodrigues, que a Samarco/Vale/BHP destruiu, usou a velha tática de transformar as vítimas em réus. Acusou instituições que apoiam os(as) atingidos(as) de serem as culpadas por atrasos e desacordos em negociações.

O ato passou despercebido, inclusive do Ministério Público, da Justiça e da dita “mídia independente”. Assim como o caminhar do terceiro ano (que se RENOVA de tempos em tempos) sem que ninguém tenha sido julgado ou condenado pelos assassinatos que ocorreram com o rompimento da Barragem de Fundão, pertencente às empresas que sustentam a fundação ilegítima.

Os “poucos” anos de experiência em comunicação que carrego no lombo me fazem também RENOVAR a lembrança de outro episódio, no mínimo, medonho. Meses antes de tal declaração, o mesmo presidente, durante o Fórum das Águas, em Brasília, certamente orientado por funcionários do seu staff de estratégia de comunicação, com salários acima do mercado (pagos com recursos que deveriam ir para a reparação socioambiental) e que engordam a milionária folha de pagamento da fundação ilegítima, protagonizou um espetáculo dantesco ao “chorar” após uma atingida (levada por eles à Brasília) falar ao público. E, em seguida, se colocou no “direito” de NÃO proferir sua apresentação e explicações sobre o trabalho, as quais centenas de técnicos, cidadãos, ambientalistas, pesquisadores, mídia e até mesmo vítimas esperavam. Não o fez. Era sabido que, se o fizesse, certamente haveriam questionamentos e contrapontos à sua fala (o único repórter que conseguiu fazer uma pergunta pertinente e questionadora foi alvo de chacotas veladas e orquestradas no evento).

Mas, como a perfeição da arte do teatro não é um dom de estrategista de comunicação e sim de atores que dedicam sua vida a essa profissão, a verdade logo veio. Essa mesma atingida, fora do palco do Fórum das Águas e do microfone, questionada na saída do evento por alguns ambientalistas presentes, afirmou que “não era só aquilo” que ela disse lá no palco, “ainda tem muitos problemas”.

Em conversa com esses ambientalistas, eles me RENOVARAM uma nova lembrança. A mesma atingida levada à Brasília pela fundação ilegítima, dias antes, havia protagonizado uma reportagem num grande canal de TV denunciando atrasos e não-cumprimentos da fundação ilegítima e de suas mecenas. Pelo que pareceu, os estrategistas da comunicação deixaram escapar esse detalhe no casting de elenco.

Dias depois, me veio o desprazer de ler uma “reportagem” (obviamente assinada “da redação” – quem é do meio sabe o que isso significa) num jornal falido de Belo Horizonte que falava sobre a “doação do terreno para a construção do reassentamento”, com uma foto de maquete de uma vila, aparentemente canadense, europeia, nórdica, mas que a “reportagem” (escrita por quem?) afirmava que terá “características do Bento mantidas”. Coincidentemente, hoje, é no desespero dos(as) atingidos(as) por receberem logo de volta suas casas a qualquer modo que a “comunicação de chantagem” da REPARA (RENOVA?) se ancora.

Ainda tentei encontrar a opinião da Comissão dos Atingidos, de algum morador do Bento ou de alguma universidade ou centro de pesquisa nas linhas do release, ops, da “reportagem”, mas, obviamente, não continha.

Quando acabei de ler, fiquei pensando numa pergunta que sempre RENOVA minha lembrança:

Quanto se gasta com comunicação/publicidade/evento/jurídico numa fundação ilegítima sem a escolha/opinião/definição por parte dos(as) atingidos(as) a quem de direito se deve atender com a REPARAÇÃO DO CRIME?

Pelo que me lembro, a obrigação de ter os(as) atingidos(as) definindo as ações de comunicação foi uma determinação inúmeras vezes dita pelo Ministério Público Federal. Essa determinação, porém, nunca foi cumprida e os recursos, pessoal, empresas contratadas e planos de mídia são utilizados de forma unilateral.

A quem interessa a divulgação disso com peças publicitárias e em redes sociais patrocinadas para todo o país, Estados ou em seminários, fóruns e reuniões no exterior?

Dando sequência e RENOVANDO o escárnio, veio a reportagem do ÚNICO (mil vezes ÚNICO) veículo de comunicação que não tem interesses econômicos ou partidários por detrás do crime de Mariana, o Jornal A SIRENE, que denunciou, na edição número 27, o “turismo da tragédia” por parte da fundação ilegítima.

Dias depois, como havia sido ventilado, aconteceu o novo “acordo” da Justiça com a fundação ilegítima e suas mecenas. Novamente, RENOVOU-SE o enredo sem nenhuma participação dos(as) atingidos(as). E o que mais dói: embasado em trabalhos de pesquisadores, instituições, diagnósticos acadêmicos pagos com recurso de REPARAÇÃO que nunca chegam ou chegaram aos próprios moradores na linguagem deles.

Por fim, fica mais uma vez uma súplica ao MINISTÉRIO PÚBLICO e à JUSTIÇA para  questionarem, investigarem e, se acharem por bem, punirem o uso do recurso da reparação socioambiental do maior crime da história do Brasil em ações de comunicação/publicidade/produção de conteúdo pago para mídias sociais/pagamento de empresas e profissionais que desempenham papéis que não o do fim da reparação/produção de eventos para meras entregas obrigatórias/defesa jurídica própria da fundação ilegítima.

Nos próximos dias iniciará a reconstrução da comunidade de Bento Rodrigues. Podemos esperar, com a mesma certeza de que depois da noite vem o dia, que um espetáculo de mídia, gravações, peças publicitárias, fotografias, documentários, visitações para órgãos de imprensa e relatórios para acionistas no exterior começará (pagos com recursos de REPARAÇÃO?) em silêncio e na surdina.

Certamente, com um olhar atento, ao primeiro remexer de terra na Lavoura, será possível encontrar câmeras, flashes e equipamentos de comunicação no canteiro de obras. Por entre as máquinas e o desespero das vítimas do crime para resolverem logo o sofrimento da falta de território, acontecerá, debaixo dos nossos narizes, um show midiático vergonhoso e milionário (estrategicamente pensado para que nenhum segundo seja perdido e dar vida ao enredo preparado para um filme em que réus se travestem de santos bondosos).

Com isso, deixo ainda algumas perguntas para pensarmos:

Quando um jornalista terá espaço ou vontade de perguntar numa coletiva (anote aí staff, para já preparar o treinamento da resposta) ao senhor presidente da fundação ilegítima: se lhe tirassem sua casa e seu emprego, você aceitaria uma indenização de R$ 12.000,00?

Qual o salário/remuneração pago às empresas de estratégia de comunicação, publicidade, eventos e jurídico da fundação ilegítima? Por que não abrem esses gastos em suas prestações de conta?

Quanto a fundação ilegítima e seus provedores (empresas mantenedoras) irão gastar com comunicação/publicidade/evento no reassentamento de Bento Rodrigues? A quem interessa a divulgação disso com peças publicitárias e em redes sociais patrocinadas para todo o país, Estados ou em seminários, fóruns e reuniões no exterior?

Qual o real motivo para que a fundação ilegítima sistematicamente convide e arque com custos de jornalistas e especialistas para visitas às obras de reparação?

Quanto já foi gasto com “diagnósticos” tanto pela fundação ilegítima quanto por outras (mesmo apoiadoras dos atingidos)? Eles foram apresentados aos(às) atingidos(as) em linguagem popular?

Sempre me RENOVA o pensamento sobre como alguns estrategistas e atores conseguem carregar tamanha frieza em seus atos.

Parabéns, Jornal A SIRENE! Parabéns aos NÃO-covardes!

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*Gustavo Nolasco é jornalista nascido em Mariana e um dos fundadores do Jornal A Sirene.

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