Estudo revela contaminação no ecossistema atingido pela Barragem de Fundão

Por Gladston Figueiredo, Crislen Machado, Jéssica Augusta e Ellen Barros

Com informações de Dulce Maria Pereira e Mirella Lino

Uma pesquisa realizada pelo Laboratório de Educação Ambiental, Arquitetura, Urbanismo, Engenharias e Pesquisa para Sustentabilidade (LEA-AUEPAS), da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), constatou a presença de contaminantes no solo, na água, no ar e nos alimentos das localidades atingidas pelo rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana e em Barra Longa. Após quatro anos do crime das empresas Samarco, Vale  e BHP Billiton, em Mariana, ainda não haviam estudos aprofundados sobre os riscos diante da exposição aos rejeitos de minério. A pesquisa, encomendada pelas assessorias técnicas dos (as) atingidos (as) de Mariana, por meio da Cáritas Minas Gerais, e de Barra Longa, executada pela Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social (AEDAS), contraria o que foi extensivamente divulgado pela Fundação Renova a respeito dos resíduos depositados nas localidades como um material inofensivo. Destaca-se também que os resultados corroboram estudos similares realizados por outras instituições independentes.

 

“Essa lama, depois de algum tempo, libera poeira, vai pro ar e as pessoas respiram ela. As pessoas estão em contato com a água do rio, por onde  a lama passou, elas estão comendo o peixe do rio e estão em contato com aquilo que a Renova diz que não faz mal algum, o tempo todo.”

Mirella Lino, atingida de Ponte do Gama e membro da Comissão de Atingidos pela Barragem de Fundão, em Mariana (CABF) 

 

Em Mariana, a análise do solo destaca a presença de elementos como arsênio, cromo e mercúrio em índices maiores do que é permitido por lei. Na água, foram detectados arsênio, chumbo, ferro, manganês, mercúrio e níquel, todos em concentração superior à permitida pela legislação. A pesquisa pode complementar dados apresentados por representantes do Ministério da Saúde às comunidades atingidas, que revelou “perigo urgente para a Saúde Pública” em diversos pontos no caminho dos rejeitos. A contaminação pode acontecer por meio da ingestão, inalação ou absorção pela pele das partículas de solo e da poeira domiciliar que contenham esses elementos tóxicos.

 

Em dezembro, moradores das comunidades atingidas de Mariana e de Barra Longa convocaram uma coletiva de imprensa para denunciar a contaminação. A coletiva aconteceu em Belo Horizonte, no dia 6, mesmo dia em que o relator especial sobre substâncias e resíduos perigosos (tóxicos) do Conselho de Direitos Humanos da ONU, Baskut Tuncak, esteve na capital mineira. Ele participou de uma reunião com as organizações da sociedade civil sobre a contaminação das áreas atingidas pelo crimes das empresas Samarco, Vale e BHP Billiton, em Mariana, e da Vale, em Brumadinho.  

 

Durante a coletiva, Mirella Lino expôs sua indignação sobre a forma como as empresas têm agido diante da contaminação. “O que as empresas fizeram foi maquiar aquela  lama com algumas espécies de plantas exóticas” e completa, “o fator causador de todos os males ainda está no território, maquiado, mas está. O que as empresas estão fazendo agora é reestruturar a comunidade em cima da lama”.

 

De acordo com a pesquisadora que coordenou o estudo desenvolvido pela UFOP, Dulce Maria Pereira, os danos provocados pelos elementos tóxicos identificados na pesquisa são severos e podem causar desde conjuntivite até infertilidade. No entanto, a pesquisadora destaca que há precedentes na forma de lidar com realidades similares em outros países e que o Brasil pode aprender com a experiências internacionais no trato com a mineração.

 

Com a constatação da contaminação no ecossistema atingido, cabe aos responsáveis pelo crime e aos poderes públicos agirem de modo a reduzir os danos à saúde das pessoas e ao meio ambiente como um todo. Para tanto, é fundamental a escuta atenta e a participação efetiva da população atingida para que a gestão do risco aconteça sem que acarrete novas violações de direitos. 

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