“Não me sinto seguro”

(Foto: Silmara Filgueiras)

Por Luzia Queiroz, Livaldo Marcelino, Mônica Santos, Milton Sena, Tereza Josafá (Dona Terezinha) e Valdir Pollack

Com o apoio e foto de Silmara Filgueiras

Que lugar é este em que as pessoas simplesmente estacionam o carro em frente à porteira, sem cadeados, saem e largam tudo aberto? Tocar campainha? O que é campainha na roça? Resposta: “Opa, tô chegando!”, “Vamo entrar, você sumiu!”, disse Dona Terezinha. Eu, desconhecida, fui intimada a entrar na casa de sapê. Sem cerimônia, fui sendo convidada para tomar um café, comer um pedaço de bolo, de queijo e prosear. Enquanto isso, ela conversava com o senhor Milton: “Como vai Fulano?” Fulano, irmão de Sicrano, que é parente de uma corrente que eu já perdi o raciocínio, mas eles sabem quem é. “Minha filha, você quer água?” Dona Terezinha ainda preocupada com a desconhecida.

Na roça, as pessoas são acostumadas a viverem livres, de maneira simples. As portas e as janelas costumam ficar abertas o tempo inteiro. Contudo, desde o rompimento da Barragem de Fundão, a segurança das comunidades atingidas foi colocada à prova e, nas últimas semanas, um recorrente número de roubos e saques vem acontecendo. A exposição dos bens, o aumento da circulação de pessoas em alguns locais, o aspecto de abandono que a lama deixou em outros, reforçam a necessidade de um sistema de proteção maior para esses lugares. O que os atingidos querem, depois de tudo, é poderem continuar vivendo com a confiança de antes.

Vítimas uma, duas, três, quatro, cinco… vezes

Daqui [fazenda], levaram 11 porcos e uma vaca. Me roubaram só isso, mas agora que os porquinhos estão nascendo, eu já não sei. Os roubos começaram a acontecer no final do ano passado. Em setembro e outubro.

Livaldo Marcelino, morador de Paracatu de Baixo

Moro aqui [Paracatu] desde 1987 e nunca coloquei nenhum cadeado, nenhuma chave na porteira até o final de 2017, quando me roubaram pela primeira vez. Foram três roçadeiras, balança, furadeira e ferramentas pequenas. Dois meses depois, em setembro, tinha comprado tudo de novo. No dia 24 de novembro levaram tudo novamente. Entraram na horta e jogaram tudo no chão. Dessa vez, perdi também 30 galinhas. Arrombaram minha casa também e levaram tudo de valor, até uma coleção de dinheiro antigo.

Valdir Pollack, morador de Paracatu de Baixo

A gente fica triste com tudo que está acontecendo. Ver as coisas acabando assim. Tudo começou no final do ano passado. Do Centro Comunitário levaram 12 cadeiras, dois fogões, duas botijas de gás, duas torneiras, vasilhames, uma geladeira, ferramentas e uma *âmbula da capela.

Dona Terezinha, moradora de Ponte do Gama

Além do Centro Comunitário, a Capela de Ponte do Gama e mais quatro casas foram alvos de furtos, com pertences roubados. Os bancos que restaram foram distribuídos entre alguns moradores para manter o material a salvo, até que o problema seja resolvido.

Milton Sena, morador de Ponte do Gama

Propriedade fechada, não abandonada

Nas comunidades, a força vem da roça. Gostava de chegar lá, admirar a natureza e ouvir o canto dos pássaros. Depois, fazia o ritual de ir na nossa moradia e me alegrar com a planta que resistiu, a “Lágrima de Cristo”. Ganhei ela de presente logo depois que nos mudamos para a casa, significava nossa batalha. Ela provou que é mais forte que a maldade e a ganância. Pois bem, olha o que eu vi: arrancaram o pé inteiro! Saibam que “arrancaram um coração”. Pra quê tanta maldade, se a propriedade está fechada, mas ainda tem vestígios de que o morador não a abandonou?

Luzia Queiroz, atingida de Paracatu de Baixo

Os roubos na casa que ficamos lá em Bento começaram em setembro de 2017. Chegamos no dia 9 e a janela de um dos quartos estava quebrada e a do outro arrombada. Chamamos os policiais e registramos um Boletim de Ocorrência. Em novembro, após sermos avisados de que a porta da cozinha estava aberta, percebemos que estava faltando dois colchões infláveis de solteiro e também dois de casal, a torneira da caixa d’água, nossa churrasqueira grande, uma lanterna e um galão de água. Registrei novamente e, acompanhada dos policiais, fui lá na porta da Samarco pedir as imagens das câmeras, mas não liberaram, claro. Fomos até o Ministério Público levar o caso.

Mônica Santos, atingida de Bento Rodrigues

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