Até os(as) santos(as) foram atingidos(as)

As imagens sacras das igrejas atingidas pelo rejeito da barragem da Samarco também foram atingidas e tiveram que sair de suas casas, como aconteceu com a imagem de Nossa Senhora da Conceição, em Gesteira, Barra Longa. As moradoras da comunidade contam como resgataram a santa após o crime de 2015 e lembram de suas memórias com a imagem. Atualmente, a pedido dos fiéis, a imagem de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do Gesteira, está em Mariana passando por um processo de restauração.

Por Cleusa da Silva Gomes, Maria das Graças Costa e Maria das Graças Lima
Com o apoio de Sérgio Papagaio 

 

O meu marido, Pedro Macuco, e Paulo Olino trouxeram a santa pra minha casa toda suja de lama da Samarco e nós a lavamos. Ela ficou na minha casa guardada até que o padre Wellerson veio com uns policiais e a levou. Ela ficou mais ou menos um ano em Barra Longa e, depois que nós pedimos, eles levaram ela pra Mariana, para restaurar. Nós pedimos pra eles trazerem ela para a festa dela, em dezembro, mas eles disseram que não podiam trazer, porque era muito perigoso, ela podia ser roubada. Levaram também as imagens São Sebastião, São Luiz e São José, que estavam na mesma igreja. Estamos há mais de três anos sem nossa padroeira.

Cleusa da Silva Gomes, moradora de Gesteira

Foto Sérgio Papagaio

Quando a lama passou, Pedro Macuco, Paulo Olino e Vicente, esposo de Cleusa, acharam a Nossa Senhora da Conceição atrás da porta da igreja. Olha como Deus é bom: ela não saiu da igreja! Então, trouxeram ela pro mutirão, no novo Gesteira. As mulheres lavaram a santa e puseram pra secar na varanda da casa de Cleusa. Com medo dela ser roubada, Cleusa guardou a santa em sua casa. Padre Wellerson Magno Avelino [pároco de Barra Longa na ocasião] veio em Gesteira com dois policiais e levou ela para Barra Longa. Fizemos um abaixo assinado para que eles restaurassem a santa. Assim como nós, que tínhamos casa ou terra de cultivo no Gesteira velho, a santa foi obrigada a sair de sua casa e, até hoje, não voltou, nem para a festa da padroeira, que é ela mesma. Fomos visitá-la em Mariana e vimos que ela estava passando por um tratamento.

Eu era criança e os mais velhos contam: a Nossa Senhora da Conceição ficava na fazenda [que fica no caminho para Gesteira], que tinha o mesmo nome dela. Tinha uma capela na fazenda, mas o fazendeiro não acreditava em nada. Ele não queria nem a santa nem as pessoas mais humildes lá, que iam na fazenda para rezar. Então, ele mandou construir uma igreja em Gesteira para colocar a santa. Os capangas trouxeram a santa para a igreja do Gesteira, mas, no dia seguinte, a santa estava lá na capela da fazenda de novo. Então, ele disse aos capangas: “Foram vocês que voltaram com ela! Leva ela de novo para Gesteira!”, mas a santa tornou voltar para a fazenda. Então, ele acompanhou os capangas, fechou a igreja e ficou com a chave. No outro dia, ela estava lá na fazenda de novo. Dizem que eles viram até os rastros dela pela estrada. O fazendeiro mandou destruir a capela da fazenda e levou ela para Gesteira, onde ela ficou até que a lama tomou a casa dela.

Eu alcancei um milagre, pois minha filha Beatriz, com 11 anos na época, havia contraído uma forte pneumonia. Ela chegou a ser desenganada pelos médicos, mas eu fiz uma promessa pra Nossa Senhora da Conceição. Se minha filha escapasse dessa, eu ia trabalhar 15 dias e ia colocar o dinheiro no pé da santa. Quando vi minha filha curada, fui pagar a promessa. Chegando lá, dei o dinheiro para Beatriz pôr no pé da santa, quando olhei tinha uma folha de rosa na palma de minha mão.

Maria das Graças Costa (Gracinha), moradora de Gesteira

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