As igrejas são o nosso ponto de apoio

As igrejas são parte importante das construções dos territórios atingidos que permaneceram de pé após o crime. A conservação e o cuidado desses espaços significa a manutenção da história, dos afetos e do cotidiano que eram partilhados. As igrejas estão envolvidas nas celebrações religiosas, nas festas, nos atendimentos às comunidades e nos velórios. Representam o lugar de encontro, de onde muitos atingidos(as) tiram forças para seguir na luta. Desde as primeiras edições do Jornal A SIRENE abordamos essa relação de proximidade das comunidades com as igrejas e as denúncias a respeito das dificuldades de acesso a elas. Na edição 9, por exemplo, trouxemos as queixas dos(as)atingidos(as) sobre as barreiras impostas à entrada nas igrejas e nos territórios, assim como a falta de cuidados das empresas responsáveis pelo crime em relação à manutenção desses locais. 

Por Luzia Queiroz, Maria Geralda, Mônica dos Santos e Pe. Rodrigo Marcos Ferreira

Com o apoio de Joice Valverde e Júlia Militão

Foto: Larissa Helena

A manutenção das igrejas é importante pra não acabar com o pouco que restou da nossa história, sendo que, antes do crime, éramos nós, moradores, que cuidávamos com muito zelo e carinho. Essa falta de cuidados tem nos causado um incômodo muito grande, pois é muito triste ver o pouco que nos sobrou se acabando, enquanto os culpados não fazem nada pra amenizar esse sofrimento e recuperar a destruição que nos causaram. 

Mônica dos Santos, moradora de Bento Rodrigues

Além de ser nossa igreja, a única que temos, a utilizamos em várias ocasiões, como velórios, festas, entre outras coisas. Para tudo o que acontece em nossa comunidade, a igreja serve como ponto de apoio. É o lugar que nós usamos para tudo. Todo esse zelo e cuidado é por amor ao nosso patrimônio.

Maria Geralda, moradora de Paracatu de Baixo

Este ainda é o espaço em que podemos rever os amigos, parentes e a vizinhança do território e fazer a última despedida de pessoas que não veremos no reassentamento, que, a cada dia, se torna mais distante. Isso tem deixado a “melhor idade” vulnerável e, com eles, a história de Paracatu de Baixo, que vem sofrendo e sendo destruída, pela segunda vez, com o descaso de não manterem em bom estado o Paracatu de origem.

Luzia Queiroz, moradora de Paracatu de Baixo

Foto: Larissa Helena

Há mais de cinco anos, as mesmas questões são trazidas pelas comunidades. A manutenção das igrejas é importante, além de tudo, para a realização dos velórios. A limpeza tem sido feita pelos(as) próprios(as) atingidos(as), às pressas, pois os pedidos enviados à Renova não são atendidos. Recentemente, os(as) moradores(as) de Paracatu de Baixo vivenciaram a triste despedida de mais uma pessoa da comunidade e denunciaram a falta de cuidados no local, a dificuldade de acesso e o descaso da empresa. Além de viver o luto, os(as) atingidos(as) precisam lidar com a grama alta, a falta de limpezas e, até mesmo, a falta de luz. 

Hoje, não liberam para a comunidade continuar cuidando de um território que é nosso e, sempre que precisamos do espaço, dependemos da logística da Renova, o que não é nada confortável. Com a pandemia, as coisas complicaram mais, não podemos fazer nada, até que chegou a este ponto lastimável de não ter lugar nem para fazer o velório, são inúmeros os relatos de violação dos direitos humanos que nos entristecem ainda mais.

Luzia Queiroz, moradora de Paracatu de Baixo

O descaso da Fundação Renova com nossa comunidade é impressionante. Acredito que todos da comunidade têm, de uma certa forma, um carinho pela nossa igreja, já que foi umas das poucas coisas que restaram. Ver nossa comunidade abandonada dói, é humilhante. Ter que limpar a igreja em uma manhã antes de um sepultamento é revoltante. Além da dor das pessoas de ter que se despedir de um ente querido, ter que preocupar onde levar, se pode levar… Recentemente tivemos um velório em nossa comunidade e, mais uma vez, tivemos que juntar uma turma lá antes do sepultamento e limpar a igreja, pois estava tomada de mato, sendo que a Fundação Renova já tinha sido avisada há semanas atrás que a igreja estava suja. Não foi a primeira vez que tivemos que limpar a igreja às pressas, já teve caso de ter que colocar luz na igreja, pois o corpo chegou e a igreja estava sem energia. 

Maria Geralda, moradora de Paracatu de Baixo

Esses locais, além de serem um lugar onde nos encontramos para realizar as nossas festas, são onde enterramos os nossos entes queridos. É muito revoltante, na hora de usar o cemitério, num momento que já é tão difícil, não ter uma estrutura digna como tínhamos antes do crime, sendo que a causadora de tudo é a responsável por manter o local de fácil acesso para o uso da comunidade. Eles não fazem nem o básico, que é uma simples capina constante do cemitério. Temos realizado nossos velórios à luz de bateria de carro, isso porque nos negam o direito de religar a energia da igreja. Alegam ser área de risco, mas como lá pode ser área de risco se a empresa assassina voltou às operações? 

Mônica dos Santos, moradora de Bento Rodrigues

Foto: Sérgio Papagaio

Não são só as igrejas que foram diretamente invadidas pela lama de rejeito que sofrem com as interferências da Renova. Mesmo que sua estrutura não tenha sido comprometida como nas demais, a Matriz de São José, em Barra Longa, um patrimônio histórico de mais de 300 anos de fundação, está, desde outubro de 2019, fechada para obras de restauração. Desde então, os fiéis se reúnem no Salão Paroquial, enquanto aguardam sua reabertura. A igreja representa um marco muito importante da história do povo barralonguense e, principalmente, um espaço íntimo de comunhão há gerações.   

A Matriz de São José não foi atingida diretamente pela avalanche de lama, mas, como toda a cidade e muitas residências próximas ao percurso, ela trouxe, após esse crime, marcas que resultaram em uma ofensa ao monumento mais precioso da história, da cultura e da fé do povo barralonguense. Tenho lutado muito, como responsável por esse monumento, para que as obras de reparo aos danos diretamente causados sejam mais rápidas e, assim, esse lugar santo seja entregue à população. Temos ciência de que era necessário o fechamento da Matriz para a realização das obras, visto que não são somente reparos, mas uma restauração de um patrimônio de mais de 300 anos.

A convivência da comunidade permanece. Nós não paramos de nos encontrar e celebrar. O Salão Paroquial, tornou-se a nossa “Matriz Provisória” e, nele, a gente se encontra como família de Deus para realizar nossas celebrações e momentos de intimidade com Deus. Mas não é a mesma coisa. Embora tenha ficado um espaço acolhedor, ele não é a Matriz de São José. Não é o lugar que marca sentimentos de gerações que passaram na história da Paróquia. Os irresponsáveis e incompetentes, causadores de um dano irreparável, têm que entender que nós precisamos da nossa Matriz reaberta. Nós não somos pacíficos diante dessa realidade e vamos lutar até as últimas consequências para que o descaso não supere a história de um povo que guarda, no coração da cidade, o seu bem mais precioso.

Pe. Rodrigo Marcos Ferreira, administrador paroquial da Matriz de São José em Barra Longa

Continue a leitura: cinco anos do Jornal A SIRENE IV – Pedras e a demora na reparação

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