Pela saúde dos atingidos

Por Antonio Geraldo Santos

Com Apoio de Miriã Bonifácio

Fotos: Genival Pascoal

Caindo de paraquedas numa reunião da Fundação Renova/Samarco, denominada Proteção Social, fiquei preocupado e cheio de perguntas a respeito de como a saúde dos atingidos vem sendo tratada.

Nessa reunião, descobri que, para atender as demandas de saúde dos atingidos, assim como o impacto das transferências provisórias para a sede de Mariana, a empresa foi obrigada a arcar com custos relativos à contratação de reforço profissional, à compra de materiais de trabalho e ao transporte dos pacientes até os locais de atendimento.
Mais tarde, em conversa com a equipe da Saúde Mental – parte integrante da rede de atenção da Secretaria de Saúde de Mariana -, fui informado que a coordenação das ações é feita pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Trata-se de uma prerrogativa do próprio sistema, que entende que esse acompanhamento não poderia ser realizado diretamente pela empresa responsável por violar nossos direitos, mas sim pela autoridade sanitária do município.
Porém, isso me preocupou mais ainda, pois sei o quanto o SUS é um órgão público que não dá conta das demandas da população. Além disso, mesmo com o Código de Ética profissional e a idoneidade do agente de saúde, é difícil acreditar que a empresa não esteja controlando as ações a seu favor. Afinal, quem paga é quem manda.

Portanto, é importante que o poder público se posicione e assuma a responsabilidade com a saúde das pessoas, sem ficar no jogo do empurra-empurra quando o assunto é a ineficiência da assistência médica para os atingidos. Há pessoas acamadas desde o desastre criminoso, pacientes que já poderiam ter suas dores amenizadas e o tempo de recuperação diminuído se as ações destinadas a eles tivessem saído do comum.

Minha tia, por exemplo, estava com o fêmur quebrado e já caminhava para a fase final do tratamento. Entretanto, no dia do rompimento da barragem, com a pressa para salvá-la, o fêmur foi quebrado novamente, no mesmo parte do osso.

Até hoje, ela está de cama. Me pergunto se a empresa tivesse providenciado o tratamento em uma clínica especializada ela já não estaria recuperada. Também sei de outras pessoas que ficaram com sequelas psicológicas diante dessa falta de cuidado específico.

Deve haver um olhar diferente para nós!
Os atingidos precisam de um atendimento que leve em conta os traumas físicos e psicológicos sofridos e a inserção num lugar diferente do habitual. Tentar nos colocar nesse contexto provisório como se ele fosse permanente é equivocado, pois o sofrimento de quem está conformado é o mesmo de quem discorda e luta para reverter a situação. E, por mais que demonstrem tranquilidade e otimismo, é na solidão que enfrentamos essa realidade. E ela é cruel.

Nossos casos não se aplicam aos padrões convencionais de tratamento, pois não estamos falando apenas de conflitos familiares ou cotidianos.
Estamos lidando com a perda da identidade, com o medo do futuro e, ainda, com algo que é cultural em nosso país: as pessoas em situação de vulnerabilidade tendem a ficar cada vez mais desprotegidas.

Continuamos em constantes mudanças sentimentais e de pertencimento, por isso, também é necessário que haja um trabalho específico para que a difícil estadia na cidade não se choque com as questões do reassentamento e do que será construído.
A solução para isso deve passar pela compreensão de quais são as razões que causam nosso “adoecimento”. Talvez seja a falta de aceitação, talvez seja a recepção dos “anfitriões” que nos veem como culpados pelo cenário caótico que a cidade vive.
Fato é, o modelo de assistência em saúde precisa entender essas questões para aplicar tratamentos mais efetivos, que cuidem e evitem o aparecimento de novas doenças.

E o que o SUS não cobre?

Minha filha Sofya sofre de alergias, decorrentes do contato com a poeira e lama da barragem. Tem muito tempo que ela não vai ao médico. Gastei muito com sua saúde, pois a Samarco não me dá recursos e tenho que recorrer ao serviço particular, uma vez que o SUS não cobre a contratação de um alergista.

Essa realidade não é só minha, mas a de muitos atingidos do município de Barra Longa que convivem com o aparecimento ou agravamento de doenças após o rompimento. Não há uma assistência especializada para os doentes da lama.

Simone Silva (Atingida de Barra Longa)

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