“Nos adoeceram”

Por Espedito Lucas da Silva (Kaé) e Marino D’Angelo Júnior

Com o apoio de Equipe Conviver, Larissa Pinto e Miriã Bonifácio

A pesquisa sobre a saúde mental das famílias atingidas pelo rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana, realizada pela Prismma (Núcleo de Pesquisa e Vulnerabilidade em Saúde da Universidade Federal de Minas Gerais), em conjunto com a nossa Assessoria Técnica (Cáritas Regional Minas Gerais), revelou aquilo que já sabíamos e sentíamos desde que a lama mudou o rumo de nossas vidas: muitos de nós estão sofrendo.

O trabalho dos pesquisadores da UFMG, apresentado no dia 12 de abril, mostrou em números os efeitos dessa tragédia na nossa saúde. O objetivo deste estudo, além de identificar a atual situação da saúde mental dos(as) atingidos(as) e de denunciar o crime que nos adoece, foi o de sensibilizar e orientar as pessoas que estão se sentindo preocupadas, tristes, estressadas, angustiadas, sem vontade de se levantar, sem forças para nada, ou com qualquer outro sintoma em excesso e fora do seu “normal”, a procurarem ajuda.

Assim, a partir deste trabalho, temos a oportunidade de pensar mais em nossa saúde e sobre o que precisamos fazer para que os danos causados pelas empresas não continuem se espalhando dentro de nós. Porque todo mundo precisa de cuidado.

Como posso cuidar melhor de mim

O rompimento da barragem me fez perder coisas que o dinheiro não consegue trazer de volta. O vínculo com os amigos, a reunião familiar, meu “universo”, meus projetos, meu mundo, e isso me causou muita dor, a ponto que eu adoeci. Eu era uma pessoa que levantava de manhã já com meu dia traçado. Ia cedíssimo para o trabalho, sempre trabalhei, e comecei a perceber que eu não tinha mais disposição para trabalhar. Eu levantava cheio de pensamentos do que eu tinha que fazer e, na hora que eu assustava, tomava o café e estava deitado de novo. Aquilo não estava em mim. Eu não conseguia controlar, tinha uma fraqueza muscular e, sempre que eu ia falar sobre os assuntos, eu chorava. Comecei a perder a concentração e o raciocínio em algumas falas, e foi aonde que procurei um psicólogo e, de lá, um psiquiatra.

Não me falaram o que eu tenho, o diagnóstico, mas eu comecei a tomar um antidepressivo, passou para dois e, hoje, já são três. Essa ansiedade de querer resolver a vida e querer ajudar os outros também me fez alimentar descontroladamente, e eu acho que isso me ocasionou a diabetes. Hoje, sou diabético, fiquei hipertenso e tudo isso, tenho certeza, foi causado pelo rompimento da barragem.

Estou me cuidando e me tratando, vivendo a realidade que a gente tem em Mariana. Ao invés de se preocuparem com o que os outros vão dizer, as pessoas devem se preocupar com si mesmas. Buscar tratamento, o quanto antes melhor.

Hoje tenho consciência de que tenho essas doenças e estou me fortalecendo para continuar lutando. Isso é muito importante para mim e para todos. Vejo muitas pessoas com os mesmos sintomas que eu tinha e que precisam se cuidar. Assim, esse diagnóstico da universidade traz a mais pura verdade. O modo como a Renova conduz esse processo aumenta o índice de doença dos atingidos. O tempo e a expectativa vão nos adoecendo ainda mais. Porque o que a gente vê em Mariana é a violação dos direitos humanos a cada segundo, e ninguém pediu para viver isso, ninguém pediu para estar nisso, e a população ainda é preconceituosa. O melhor que temos é pensar que a gente não está sozinho e que, mesmo que os tratamentos não possam nos curar, eles podem diminuir a nossa dor.

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