Saúde Contaminada

Andrea: “Minha casa não entrou lama, eu não perdi bens materiais, mas estou perdendo um bem mais precioso que é a minha saúde e a do meu filho” (Foto: Tainara Torres/Jornal A Sirene)

Por Andrea Domingos e Simone Silva

Com o apoio de Assessoria técnica AEDAS, Eduardo Moreira e Tainara Torres

Meu avô sempre dizia: lá em cima tem um monstro e, se esse monstro estourar, vai acabar com tudo e com todos nós aqui. O que ele não sabia é que, 13 anos após sua morte, a profecia se cumpriria. No dia 5 de novembro de 2015, fomos atingidos por esse monstro. Vi meu Gesteira, onde nasci e fui criada, sendo devastado pelo tsunami de lama da Samarco. E, a partir dessa data, tem sido só sofrimento. Nem nos meus piores pesadelos poderia sonhar que a sentença dos meus filhos seria também assinada naquela madrugada macabra.

Simone Silva, moradora de Barra Longa

Em fevereiro de 2018, 10 moradores receberam os resultados dos exames de “Quantificação de metais totais em sangue”. Em maio do mesmo ano, mais cinco pessoas tiveram os exames concluídos. Hoje, somam 15 o número de pacientes examinados e, desse total, todos tiveram os laudos positivos para contaminação por metais pesados, como, por exemplo, níquel e arsênio. A maior parte desses moradores (os 10 do início) passou pelo exame duas vezes, primeiro em março de 2017 e depois em março deste ano. No segundo resultado, em alguns casos, cresceu o nível de algumas substâncias.

Simone: “Gastam rios de dinheiro para maquiar a cidade, mas não reconhecem Sofya como atingida intoxicada por metais.” (Foto: Tainara Torres/Jornal A Sirene)

“Eu tinha muita diarreia, muita dor de cabeça, dor no estômago e eu ficava assim: ‘Meu Deus, o que está acontecendo?’ Eu não estava desse jeito. Cotovelo, pernas, todos começaram a coçar. Devido a esses assassinos da Samarco que vieram aí com essa lama do rejeito. Todos os médicos dizem pra gente sair da cidade, ir embora. Aqui, hoje, o ar é outro, totalmente diferente de antes da lama, está pesado.”

Andrea Domingo, moradora de Barra Longa

“Já em novembro de 2015, comecei a denunciar que Sofya estava doente por causa da lama, mas fui chamada de louca por funcionários da empresa. Chegaram a marcar psiquiatra para mim. Quando começaram a limpar a praça de Barra Longa, para mostrar para a mídia que estavam trabalhando, deram início a mais um crime, pois levaram a lama para os morros da cidade. E, como o atingido vale menos que uma pelota de minério para a Samarco/Renova/Vale/BHP, de nada adiantou eu pedir de joelhos, na Câmara Municipal da cidade, para que não usassem rejeitos no calçamento da minha rua, pois minha filha, na época com nove meses, já apresentava sintomas de alergias à lama tóxica. Em 2018, sou atingida mais uma vez, recebi o exame com resultado positivo para contaminação dos meus filhos, Sofya, hoje com três anos, e Davidy, de 14. Meu mundo desabou quando ouvi dos médicos que posso perder meus dois filhos contaminados por metais pesados da Samarco.”

Simone Silva, moradora de Barra Longa

“Esses 15 moradores são pessoas que moram em pontos diferentes da cidade e que têm uma diferença de estilo de vida. Por exemplo, os idosos ficam só dentro de casa e as crianças brincam na rua. Esses dois tipos de pessoas estão contaminadas. O que está acontecendo é uma evidência de risco de que a população como um todo esteja contaminada, já que ela está exposta. Porém, não podemos afirmar ainda porque a pesquisa tem uma amostra pequena. Nesse momento, é preciso fazer mais estudos com capacidade de comprovação de que a cidade está contaminada e quais são as fontes dessa contaminação. Com a comprovação, é possível já recomendar à Secretaria de Saúde da cidade que faça os exames toxicológicos e o acompanhamento.”

Nathália Santos, médica da Assessoria Técnica da AEDAS

Existem duas formas de contato com o arsênio, um dos metais mais tóxicos: de maneira aguda, quando em um prazo curto, por exemplo, quando se ingere água contaminada por dois dias ou mais e em grandes quantidades, o que pode levar ao sangramento de órgãos, à parada cardíaca e/ou até causar a morte; e de modo crônico, que acontece quando se vive exposto a um ambiente contaminado durante muitos anos ou décadas. Ainda, o contato em pequenas quantidades pode causar náuseas, diarreia, problemas respiratórios e de pele, perda de sensibilidades das mãos, dos pés e dor de cabeça. Um grande problema é que esses sintomas são encontrados em várias outras doenças, o que dificulta um diagnóstico preciso.

“Os exames feitos com a urina dos pacientes conseguem afirmar sobre a presença de metais pesados no organismo de cada um. Para detectar a acumulação deles no corpo é necessário fazer um exame com fio do cabelo. Também é importante entender que a presença dos metais pesados no organismo caracteriza a contaminação; para confirmar uma intoxicação por metais é necessário a avaliação dos sintomas, coleta de exames e exclusão de outras doenças que podem provocar sintomas parecidos.”

Nathália Santos, médica da  Assessoria Técnica da AEDAS

“Saúde é algo que a Renova/Vale/Samarco/BHP não quer nem mexer. Não entra no cadastro, não entra na indenização, não entra em nada. Não existe, para a Renova, ser atingido por causa de problemas com saúde que começaram a aparecer ou se agravaram após o rompimento da barragem. Como que vai reassentar em um local que tem contaminação? Como pensar em indenização se a pessoa nem tem saúde pra gastar esse dinheiro? É preciso pensar a saúde como tema central de todas as outras questões. Isso tá sendo repassado em todas as reuniões com a população.”

Aline Pacheco, psicóloga na Assessoria Técnica da AEDAS

Resultados do exame mostram contaminação por metais pesados. (Foto: Tainara Torres/Jornal A Sirene)

“Tiro dinheiro da conta de luz pra pagar água mineral. Como precisei viajar pra fazer o tratamento, meu marido perdeu o emprego, porque precisou ficar com os filhos em casa. Já não posso trabalhar por conta da minha saúde, já tive um AVC. Preciso dos remédios e, quando pedi ao prefeito, ele bateu no meu ombro e me mandou ir atrás da Samarco. Tenho que cuidar de mim também pra conseguir cuidar do Nícolas, se eu não estiver bem, quem vai cuidar dele? O Nícolas é uma criança de três anos e nem saía, nem na lama foi. Moro na parte alta e eu e o menino estamos contaminados, e eles acham que quem mora no morro não foi atingido, eu acho que quem mora não morro foi atingido sim. A lama estava lá sim, e a poeira que nós recebemos?”

Andrea Domingos, moradora de Barra Longa

“Tenho a preocupação de saber de onde esse leite é? Da onde que essa verdura é? Você passa a ter toda essa preocupação que não tínhamos antes. Gera um estresse, um desgaste. Minha rua é calçada com lama e temos que molhar a porta todo dia por causa da poeira. Claro que não vai resolver, mas é o meu cuidado com meus filhos. Isso já é outro gasto. São vários banhos que você precisa tomar, os aparelhos que precisa ligar à noite para melhorar o ar. Eu que tô pagando a conta e isso não é justo. Antes da lama, minha água era 19 reais, agora é 250. Minha luz 90 reais e agora 490. A gente não ganha isso nem por mês. Agora, meu marido também está com sintomas e ficou desempregado, por conta das dores e feridas no corpo, ele não consegue mais trabalhar. Como que fica a situação em casa? Nós não éramos ricos, mas tínhamos condições de sobreviver.”

Simone Silva, moradora de Barra Longa

“Algumas pessoas acham que isso é bobeira, que não está acontecendo, que não existe e que só veio pra tirar dinheiro da Fundação Renova. Ninguém quer tirar dinheiro da Renova, só queremos o tratamento adequado, um direito que é nosso.”

Andrea Domingos, moradora de Barra Longa

(Foto: Tainara Torres/Jornal A Sirene)

A Comissão dos Atingidos e Atingidas de Barra Longa e o Coletivo de Saúde encaminharam ofícios para a Fundação Renova com pedido de quatro cartões emergenciais e água mineral para seis pessoas até que se tomem mais medidas. A solicitação, porém, mesmo que pequena, inicialmente, sequer foi respondida e, agora foi negada.

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