Queremos construir juntos

(Foto: Câmara Técnica de Saúde/Arquivo)

Por Gracinha Lima Bento e Sérgio Papagaio

Com o apoio de Aline Pacheco e Silmara Filgueiras

Em junho, a Comissão dos(as) Atingidos(as) de Barra Longa e o Coletivo de Saúde, organizados pela Assessoria Técnica da AEDAS, enviaram um ofício para a Secretaria de Estado de Saúde – órgão que preside a Câmara Técnica temática – para solicitar a participação dos(as) atingidos(as) na reunião que aconteceu no dia 13. O questionamento levado para o Comitê Interfederativo (CIF) foi o da não representação dos(as) atingidos(as) neste espaço, uma vez que se faz necessária a participação deles(as) na orientação e validação das ações de recuperação e reparação ao longo da Bacia do Rio Doce. Sem o protagonismo dos(as) atingidos(as), não se pode falar em reparação integral.

“Reivindicamos a participação dos(as) atingidos(as) depois de saber que uma das pautas da reunião seria a apresentação e aprovação de um Plano Municipal de Planejamento e Gerenciamento de Ações de Recuperação em Saúde, em Barra Longa. Entendemos que não poderia ser aprovado um Plano que não foi discutido e construído com os moradores. Os(As) próprios(as) atingidos(as) queriam ocupar o lugar e falar sobre a situação da saúde na cidade, pois são eles que vivem os problemas causados pelo rejeito e pela má formulação e aplicação dos programas previstos no TTAC relacionados à saúde. Quem sabe do sofrimento são as vítimas e devem existir formas de elas se expressarem. Os processos estão acontecendo anulando a participação dos(as) atingidos(as) e os(as) colocando como grupos incapazes de propor soluções para o problema criado pelas empresas com o rompimento da barragem. Entendemos que os acordos não podem ser realizados sem o envolvimento público e uma supervisão participativa. Além disso, como podem todos os responsáveis pelo desastre/crime decidirem de que forma a reparação deve ocorrer sem considerarem a participação e representação das vítimas?”

Aline Pacheco

“Estávamos tratando da saúde lá na reunião em Belo Horizonte e o que eu disse para eles é a situação que nós temos vivido aqui em Gesteira. Participo de várias reuniões com os atingidos e as reclamações são as mesmas. As pessoas estão chateadas porque perderam as coisas e o lazer que tinham. Além disso, eles(as) contam que deitam na cama e não conseguem dormir, sofrem com problemas na pele e respiração e outros problemas de saúde. Tudo isso se agravou depois da lama. Como nós convivemos com eles e participamos das reuniões para ajudar na luta, sabemos, de verdade, o que está acontecendo.”

Gracinha Lima

Carta escrita e lida pelo morador de Barra Longa, Sérgio Papagaio, durante a reunião da Câmara Técnica em Belo Horizonte:

Pois bem, estamos aqui para falar de saúde, e falar de saúde dos atingidos sem ir a campo é como consultar o paciente por telefone, ou por relatos de terceiros. E isso é, no mínimo, antiético. Então, eu posso dizer que Barra Longa, assim como toda a bacia, está fazendo consulta à distância e comprando remédio sem prescrição médica.

Para resolver os problemas de saúde de uma cidade é preciso que vocês ouçam as queixas de seus moradores, que examinem suas feridas abertas, que tratem seus traumas. E para que isso aconteça na íntegra é preciso conhecer os doentes e entender seus males. Apesar de eu não ser médico, acredito que o rompimento da Barragem de Fundão vem escrevendo um novo capítulo na literatura médica. Portanto, precisamos ser responsáveis com a vida que se precipita sobre a morte, dentro de um cenário hostil, açoitado pela invisibilidade, em que o atingido é figurante em sua própria história e o assassino é o protagonista.

É preciso dar voz ao atingido, pois quem sabe melhor sobre suas dores se não o próprio paciente? Quem sabe o mal que lhe assola não é o paciente?

Tratar da saúde de Barra Longa, assim como de toda a bacia, sem examinar é construir um processo excludente, em que o atingido recebe sobre suas cabeças 365 rompimentos de barragens por ano. É trazer, todos os dias, a morte para viver entre nós, e a pior de todas as mortes, pois é aquela que carregamos dentro do peito, enquanto vivemos.”

Sérgio Papagaio

Morador de Barra Longa Sérgio Papagaio durante leitura da carta. (Foto: Câmara Técnica de Saúde/Arquivo)

O que é o CIF?

O CIF foi criado após o “Acordão” e conta com representantes da União, dos governos de Minas Gerais e Espírito Santo, dos municípios atingidos e do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce. Segundo seus membros, ele deveria orientar e validar as ações da Fundação Renova na recuperação dos danos causados pelo rompimento da Barragem da Samarco. Para seu funcionamento e embasamento técnico das decisões, foram formadas Câmaras Técnicas temáticas, sendo uma delas a Câmara Técnica de Saúde. Porém, até então, no CIF, os(as) atingidos(as) não tem lugar para participação e representação deles mesmos nas decisões.

COMENTE

Ainda não há comentários

Os comentários estão fechados

CADASTRE-SE NA NEWSLETTER

Send this to a friend