Nossa saúde não pode esperar

Por Antônio Albergaria e Sérgio Papagaio
Com o apoio de Aline Pacheco, Francielle de Souza, Kleber Rangel Silva e Rafael Francisco
Fotos: Rafael Francisco

 

Anos após o rompimento da barragem, a Fundação Renova insiste em utilizar o nexo causal como critério para a conquista de assistência médica. Ou seja, para as empresas, os(as) atingidos(as), primeiro, devem provar que a doença tem relação com a lama para, só então, receberem o auxílio. A comunidade de Barra Longa, porém, percebe alterações na saúde da população, critica a postura das empresas em relação ao tema e pede atendimento médico imediato, além do fortalecimento do sistema de saúde local.

Há um projeto de saúde de trás pra frente. Vejam bem, minha gente: primeiro, tem que se provar o nexo causal e, se der tempo, curar o mal. É um projeto eloquente: desgraçando a vida, plantando morte no ambiente, fazendo ponte, matando gente. Há três anos de um mal gigante, nos defrontamos com um crescente: este mal que matou é o mesmo mal que ainda mata a gente. Pobres doentes, esperam um nexo causal. E se não der tempo de provar esse nexo? Se a morte chegar primeiro, ceifando vidas o tempo inteiro? O que fazer com os que ainda respiram esperança? Desde o velho à criança, será possível tanta demora? Pois eu aviso: a morte é louca e não tem hora. Tratar agora, minha senhora; provar, outrora. O que falar para a Fundação? Vamos partir da prevenção. Este é o princípio da salvação.

Não querem não, empurram a vida com duas mãos. E se a morte chegar de um jeito sorrateiro? Levando homens dos campos, mulheres das cidades e garimpeiros? Me dê uma luz, ó, meu Jesus. Como a Fundação poderá fazer reparação, se a morte antes, de nossas vidas, lançar as mãos? Será possível reconstruir os homens e as mulheres, tomando da morte seus esqueletos, pedindo licença ao Criador, apresentando sem o menor pudor um projeto superior, devolvendo vida a quem morreu, tirando da morte a autoridade, conforme fazem nestas cidades. Reconstruir o homem através de seu esqueleto: esse seria o único jeito.

Minha cara Fundação, de fazer a quem jaz reparação, com a licença do céu num projeto arrojado, tomando todo cuidado para que, desta vez, nada saia errado, apurando seu DNA pra nada sobrar nem nada faltar, limpando vícios e malquerenças, metais pesados e outras doenças, arrumando um jeito, com grande respeito, de dispensar ajuda de Quem fez mulheres e homens com tantos defeitos, reconstruindo, neste projeto perfeito, mulheres, homens e seus direitos, acabando com toda maldade, criando um mundo sem barragem, sem exploração. Por isso, não será preciso mineração. É o projeto da perfeição, deixando-nos livres da Fundação que representa, hoje, o mal e sua renovação.

Sérgio Papagaio, morador de Barra Longa

Neste momento, nós estamos trabalhando na revisão do Programa da Saúde que está descrito no TTAC, considerando que ele não atende às necessidades das populações que foram atingidas. Em relação ao nexo causal, que é objeto de tensionamento com a Fundação Renova, entendemos que, para as questões relacionadas ao tema da saúde, ele não se aplica, porque a gente trabalha com “risco adicional à saúde” advindo do rompimento da barragem de Fundão. Então, o nosso objetivo é construir um modelo de reorganização do sistema de saúde local que ofereça uma resposta às demandas da população e que tenha uma maior acolhida e respaldo em relação ao risco adicional de saúde.

Kleber Rangel Silva, secretário executivo da Câmara Técnica de Saúde

Eu plantava banana, milho, inhame, abóbora, quiabo. Plantava vários tipos de muda no meu quintal. E eu mesmo capinava. Quando a lama veio, eu tive problemas de saúde. Tive dengue. Tenho problema respiratório também. Depois que a lama passou, juntou uma coisa com a outra e ficou pior. Faz três anos que não vou mais no meu quintal e tenho que fazer inalação todo dia. Então, pra mim, a lama só piorou a minha saúde.

Antônio Albergaria, morador de Barra Longa

Nós temos dados do sistema do Ministério da Saúde, alimentado pela Secretaria Municipal de Barra Longa, que mostram o aumento de demandas por atendimentos médicos nos últimos anos. São dados alarmantes. Até 2015, tínhamos uma média de até 15 óbitos por ano. Em 2016 e 2017, houve um salto para 38. Desde o rompimento, muitas mudanças aconteceram na cidade e isso agrava a saúde, inclusive mental. Tendo ligação ou não com a lama, é preciso entender que as pessoas precisam ser cuidadas. Enquanto assessoria técnica, a gente entende que devemos usar o princípio da prevenção, trabalhar com um conceito ampliado de saúde e inverter o ônus da prova. Não são os atingidos que precisam provar que estão doentes por consequência do rompimento da barragem. É a Renova que tem o dever de fazer isso.

Aline Pacheco, psicóloga da AEDAS

Para viasualizar a tabela informativa sobre os agravos à saúde na cidade de Barra Longa, acesse a versão digital desta edição, na página 5.

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