O peso do minério em nosso sangue

“Minha menina tem um ano e dois meses. Está com alergia. Passa a mão nos bracinhos dela e parece uma lixa. Ela só fica coçando”, disse Simone Silva, na edição zero do Jornal A SIRENE, em fevereiro de 2016. Três meses após o crime do rompimento da barragem de Fundão pela Samarco, Vale e BHP Billiton, estampamos, em nossas páginas, a preocupação dos(as) atingidos(as) com relação à contaminação pela lama de rejeito. Com o passar do tempo, outras vozes se juntaram à de Simone na reivindicação de estudos que comprovassem essa suspeita. Algumas pesquisas e exames indicam que os(as) atingidos(as) não estavam errados em suas desconfianças. Essas pesquisas foram divulgadas mais de quatro anos depois do crime, o que só ocorreu mediante pressão midiática, após a Pública (Agência de Jornalismo Investigativo) vazar esses estudos e afirmar que a Renova/Samarco já tinha os resultados das pesquisas desde março, enquanto o Governo do Estado conhecia esses resultados desde maio. Ainda assim, a Renova/Samarco/Vale/BHP Billiton se recusou a participar da devolutiva dos estudos realizados pela Ambios Engenharia e Processos.

Por Anderson Tomás, Cleusa da Silva Gomes, Creuza da Silva, Dulce Maria Pereira, Eder Felipe da Silva, Eliane Balke, Fabrício Fiorot, Marino D’Angelo, Ramon Lourenço Ivo e Sandra Maria da Silva

Com o apoio de Francelino Neto, Joice Valverde, Júlia Militão, Juliana Carvalho, Sérgio Papagaio e Wigde Arcangelo

O estudo da Ambios – empresa contratada pela Fundação Renova/Samarco/Vale/BHP Billiton – comprovou que o ar e o solo dos territórios atingidos estão contaminados pelos metais cádmio, chumbo, cobre, zinco e níquel (este, apenas em Barra Longa). Tanto as comunidades atingidas de Mariana quanto de Barra Longa foram classificados como locais de perigo categoria A, ou seja, perigo urgente para a saúde pública. O estudo recomenda  ações ambientais e de saúde para lidar com a situação, mas os(as) atingidos(as) estão expostos à contaminação há quatro anos. Embora o estudo não indique contaminação nos alimentos e na água, no momento, ressalta que deve ser realizado um acompanhamento de ambos.

Meu menino, o Arthur, fez 15 anos, agora em outubro. Ele começa a tossir, os olhos ficam saindo água, o nariz fica todo irritado e ele começa a esfregar. Daqui a pouco, o rosto dele tá desse tamanho e a pele toda manchada. Eu já levei nos médicos, já olharam, já passaram vários remédios e continua a mesma coisa. Aquelas manchas horríveis, sabe? E ele já está ficando sem graça de ir para a escola. Eu já levei ele umas quatro vezes lá na UPA.

Sandra Maria da Silva, moradora de Barra Longa

 

A gente deixa uma água no copo, ou em alguma outra vasilha, de hoje pra amanhã. E, quando joga a água fora, aquela vasilha tá escorregando. A gente lava a vasilha e, se você não passar um Bombril com força e detergente, o copo não fica limpo. O copo fica amarelinho, amarelinho. Então a preocupação nossa é essa: porque se o copo fica daquele jeito, e o nosso organismo, como tá? A gente tem que falar, reclamar, porque a gente tá cansado. Quatro anos não são quatro dias. Eles fingem que não ouvem a gente. Tem criança e tem mais gente idosa acima de 50, 60 anos, igual eu. 

Cleusa da Silva Gomes, moradora de Gesteira 

Outras pesquisas ainda estão sendo desenvolvidas de forma independente, como é o caso do estudo comandado pela professora Dulce Maria Pereira, da Universidade Federal de Ouro Preto. A pesquisadora acompanha o caso desde 2015.

Se não há controle da contaminação, a gente não tem controle da dispersão da contaminação. São quatro, basicamente, os fatores que fazem com que a pessoa viva uma realidade de contaminação: a quantidade, a qualidade, a forma de contaminação e a exposição. Uma coisa é você estar exposto a uma quantidade limitada de elemento tóxico num determinado momento e depois passa. Às vezes, o elemento está abaixo do nível aceitável, mas você tem uma exposição constante e ele potencializa. Então, o problema é que um ambiente contaminado tem que ser controlado. E não controlar é crime. Por isso, é que nós vamos viver um embate, vão tentar desqualificar todos os nossos trabalhos.

Dulce Maria Pereira, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Ouro Preto

Sempre me senti incomodado com a questão da contaminação, porque a gente viu, em Barra Longa, pessoas contaminadas. E a gente viu amigos nossos morrendo. Pessoas muito próximas, vizinhos. Num lugar muito pequeno, nível de câncer altíssimo, quatro pessoas com câncer. Três já morreram. Pessoas novas, pessoas saudáveis, pessoas que estavam na luta junto com a gente, e a empresa sempre negando que tem contaminação.

Marino D’Angelo, morador de Paracatu de Cima

As casas estão sendo reformadas em cima da lama de rejeito. A lama está na porta da cozinha do atingido e você acha que lavar roda de carro vai resolver? No meu ponto de vista, não. Se não tirar a lama de Barra Longa, não vai resolver trazer médico, que nós vamos continuar contaminado e a poeira vai continuar subindo. Temos que tirar a lama e a Renova da nossa cidade, pra nós começarmos a tratar da nossa saúde.

Eder Felipe da Silva, morador de Barra Longa

Nosso trabalho foi realizado pela demanda dos atingidos. Nós fizemos um estudo muito criterioso sobre as perdas ecossistêmicas no que diz respeito à água, ao ar, pela contaminação e por outros fenômenos. O estudo mostra que, onde há rejeito, há um aumento significativo da temperatura da superfície, inclusive no rio. Fizemos uma análise do próprio fenômeno da ruptura da barragem, que é um crime em si. Isso implica na perda de qualidade de vida das pessoas, implica em perdas econômicas muito significativas, como a possibilidade do plantio. Lembremos, é um estudo indicativo do que precisa ser estudado. Ele não é um estudo definitivo em si, embora sejam resultados que nos mostram o que acontece no território.

Dulce Maria Pereira, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Ouro Preto

De Minas ao Espírito Santo

A devolutiva dos estudos diz respeito apenas à Barra Longa e às comunidades atingidas de Mariana. Porém, atingidos(as) do Espírito Santo possuem laudos que comprovam estarem contaminados por metais pesados. O crime atingiu da cabeceira até à foz do rio Doce, e contaminou pessoas e o meio ambiente. A comunidade tradicional da pesca e mangue, em São Mateus, sofre com os impactos no modo de vida e sustento. Um pouco mais adiante, em Regência, ponto tradicional do surf, a prática do esporte está comprometida por conta da contaminação da água. 

 

Eu recebi a notícia de contaminação através de um grupo de estudo da USP [Universidade de São Paulo], que fez umas coletas de uns materiais pessoais meus e me deram esse resultado com esses aumentos de metais pesados no meu sangue. Pra mim, no início, foi um baque, mesmo mediante todo acontecimento, o fato de eu não ser reconhecido. Agora, tenho uma prova que me ajuda a correr atrás do meu direito.

Ramon Lourenço Ivo, morador de Regência, Espírito Santo

 

Eu sou pescadora e uma das atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão. Eles fizeram essa avaliação da exposição a metais pesados em moradores residentes na área atingida ao norte da foz do rio Doce, em São Mateus, Linhares, Conceição da Barra, atingidos pelo rompimento da barragem de rejeito de minério lá de Mariana. Devido à grande atividade econômica presente aqui no litoral, especialmente relacionada a atividades da mineradora Samarco, muitos componentes tóxicos podem estar depositados no sedimentos do rio Doce.

Eliane Balke, moradora de São Mateus, Espírito Santo

 

O laudo mudou toda a minha estrutura familiar, meu estilo de vida, meu contato com o rio e mar.

Fabrício Fiorot, morador de Regência, Espírito Santo

 

O laudo diz que nós estamos contaminados com arsênio muito alto. Isso afeta a todos, porque a gente não pode pescar, não pode consumir, não pode comercializar. A contaminação foi no rio, os peixes, mariscos, sururu, caranguejo. Não pode comercializar um pescado do mangue, porque tá tudo contaminado e, se pegar, não vende, porque tá velho e ninguém compra.

Anderson Tomás, morador de São Mateus, Espírito Santo 

 

Essa contaminação mudou a minha vida, minha identidade com a água, como pescadora. Além da minha saúde, os meus direitos de dignidade, que é o trabalho e a cultura, e o modo que eu tinha de vida coletiva. Ficou bem difícil, porque são famílias tradicionais da pesca, catadores de caranguejo e marisco. Agora, apoio relativo à saúde só o SUS mesmo, com a Fundação Renova nós não tivemos nenhum diálogo ainda. 

Eliane Balke, moradora de São Mateus, Espírito Santo

 

Eles precisam tomar as atitudes deles e reconhecer, porque o minério acabou até com a nossa humanidade por estamos contaminados com o arsênio e o chumbo. Tenho os exames. 

Creuza da Silva, Campo Grande, São Mateus, Espírito Santo

A contaminação afeta o surf de todas as formas, que tá concentrado na foz do rio Doce, um berço intocável de onda e de animais marinhos. Nós temos campeões de surf de várias datas e o surf é uma das coisas mais atingidas aqui. Como uma das classes mais atingidas do crime ambiental da Samarco, eu peço para quem causou isso que dê uma solução, porque a gente precisa de respostas.

Ramon Lourenço Ivo, morador de Regência, Espírito Santo

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