Nem mesmo as frutas podemos comer

Em Barra Longa, após a cidade ser invadida pelo rejeito tóxico da barragem de Fundão, as frutas e as verduras nunca mais cresceram como antes. A agricultura familiar garantia uma alimentação saudável e proveniente diretamente do quintal. Hoje, muitos(as) atingidos(as) convivem com doenças adquiridas depois do rompimento e, para o tratamento, não podem contar com os alimentos plantados, devido à má qualidade da colheita. Edson Antônio Gomes, conhecido como Dinho, é um desses moradores que, acostumado a consumir as frutas orgânicas colhidas do pé, hoje, é obrigado a comprá-las para o controle diário de sua saúde. Essa é uma realidade que segue contestada pela Fundação Renova. Vale lembrar que os estudos da Ambios Engenharia e Processos mostram que há contaminação por metais pesados no ar e no solo dos territórios atingidos e alerta que os alimentos e a água devem seguir em pesquisa, apesar de ainda não comprovar a mesma contaminação. Por sua vez, os estudos conduzidos pela professora e pesquisadora Dulce Maria Pereira, da Universidade Federal de Ouro Preto, já confirmam a presença dos metais pesados na água do rio Doce e dos alimentos expostos à contaminação.

Por Edson Antônio Gomes (Dinho)

Com o apoio de Joice Valverde

Após a lama de rejeito, as frutas são colhidas apodrecidas do pé. | Foto: arquivo pessoal de Edson Antônio Gomes

A minha doença está relacionada a um câncer que tive em 2010. Me curei e, já aposentado, comecei a trabalhar como representante de laboratório, viajando por algumas cidades vizinhas para complementar a renda familiar.  Quando veio a lama, fiquei com problemas pra sair de Barra Longa para trabalhar como vendedor, porque não tinha tranquilidade de sair de casa e deixar minha família, pois havia sempre rumores do risco de novos rompimentos, e a cidade estava um caos. Assim, eu viajava por poucos dias da semana e, na preocupação de voltar, diminui as vendas, a produtividade e fui demitido. Minha renda foi impactada, porque sou aposentado como funcionário  público, mas com um salário pequeno.

Foto: arquivo pessoal de Edson Antônio Gomes

Em 2017, tive uma recorrência do câncer, com metástase no peritônio [migrado para a membrana que reveste as paredes do abdômen e a superfície dos órgãos digestivos]. Passei a gastar mais com medicamentos, consultas e também com frutas e algumas hortaliças orgânicas que, antes, tinha da agricultura familiar. As frutas que plantava eram orgânicas. Não de tantas variedades, mas banana, laranja e mamão eram frutas que consumia sempre colhidas do quintal, além de algumas hortaliças, como couve, taioba, lobrobo e mostarda, e outros alimentos, como chuchu, mandioca etc. Depois que a lama atingiu a cidade e o nosso quintal, as frutas não têm mais a mesma qualidade e não dão mais para comer. Todas as manhãs tenho que fazer coquetel para receita médica. 

Até hoje, faço tratamento quimioterápico e gasto muito com isso, são muitos gastos com minha doença. Fui o único do prédio em que resido a ser excluído do cartão emergencial liberado pela empresa Samarco, mesmo que as outras duas famílias que moram no mesmo prédio que eu tenham conseguido receber.

Quanto à saúde da minha esposa, ela desenvolveu alergia na pele e no couro cabeludo. Antes, ela não tinha nada. Foi selecionada para ser acompanhada e fazer exames. Fizeram o cadastro dela, mas nunca a procuraram para realizar os exames. 

Edson Antônio Gomes (Dinho), morador de Barra Longa

Joana Darc Lemos Ferreira Gomes, esposa de Dinho, também enfrenta problemas de saúde e desenvolveu alergias na pele. | Foto: arquivo pessoal de Edson Antônio Gomes
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