Marcas invisíveis da lama: os danos à saúde mental de crianças e adolescentes

Por Gabriela Câmara, Ana Maria Walter e Ellen Barros

Ainda é possível ver as marcas da lama nas paredes que suportaram o mar de rejeitos despejados pela barragem de Fundão. No entanto, há marcas desse crime que os olhos não podem ver. São danos imateriais, que se caracterizam por violar direitos fundamentais, afetar a saúde mental das pessoas e, no caso de crianças e adolescentes, o impacto pode ser ainda mais avassalador. Dentre as 922 declarações referentes a danos imateriais sofridos por crianças e adolescentes, levantadas até o momento pelo processo de cadastramento conduzido pela Cáritas, 59,3% remetem aos danos à integridade psíquica, ou seja, prejuízos ou lesões emocionais ocasionados pelo evento traumático; 66,8% são danos às relações de amizade e vizinhança; e 77% referem-se às perdas e aos danos aos modos de vida locais.

Apesar dos números expressivos, tais violações são ainda subnotificadas, posto que reviver os sentimentos decorrentes do rompimento e seus desdobramentos é um grande sofrimento para essas crianças, adolescentes e seus representantes. O tema é tão complexo que alguns familiares só tomaram conhecimento de algumas situações a partir da Tomada de Termo, quarta etapa do processo de cadastramento, como afirma Luzia Queiroz, de Paracatu de Baixo:

“Várias pessoas, na Tomada de Termo – a Cáritas mesmo sabe disso -, é que as mães descobriram que os filhos estavam sofrendo demais da conta, muitos estavam sofrendo bullying na escola, chamavam eles de “atingido”, chamavam eles de “folgado”, ou então falava que o povo era “vagabundo e não tinha serviço para fazer”, que era culpa dos atingidos que a barragem estourou”. *

Esse tipo de relato evidencia não apenas a dificuldade de mensurar a extensão do dano causado à saúde mental de crianças e adolescentes, como também comprova a importância de uma metodologia ampla e sensível à coleta dos danos sofridos, uma vez que essas crianças e esses adolescentes tiveram suas vidas modificadas por completo.

O deslocamento forçado de famílias da zona rural para a urbana, por exemplo, acarretou uma mudança radical nos modos de vida. O espaço ao ar livre foi substituído, em muitos casos, pelo quarto das casas alugadas na cidade, o que causou o distanciamento das redes de suporte afetivo com amigos e familiares. Crianças e adolescentes vivenciam ainda, junto de suas famílias, a espera angustiante pela retomada de suas comunidades nos reassentamentos. Contudo, costumes se perderam, o contato com a natureza, agora, é algo distante e menos atrativo, assim como as festas tradicionais que, para muitos, não têm mais o mesmo valor. A escola, instituição relevante no processo de socialização das crianças e adolescentes, foi, para muitos, o espaço da violência emocional gerada pelo preconceito, como relata Mauro Marcos da Silva, de Bento Rodrigues:

“Então, não só ele [filho de Mauro], como as outras crianças de Bento, também vieram sofrendo preconceito ao longo do tempo, e parte desse preconceito é por culpa da Renova. Porque, ao colocar alunos de um outro local em uma nova escola e apartar esses alunos – porque, na escola em que os alunos do Bento foram estudar, era uma ala para os alunos de Bento e a outra ala pros da cidade – não tinha uma confraternização, não tinham uma troca de experiências”. *

As escolas construídas em Mariana eram o principal espaço de socialização antes da pandemia. No entanto, crianças e adolescentes relatam que não têm o mesmo sentimento de pertencimento, além do estigma de ser atingido que permeia as interações, o que, por vezes, dificulta a experimentação de novas relações sociais.

São diversos os fatores psicossociais que agravam a saúde mental de todos os atingidos. O relatório sobre saúde mental, contratado pela Cáritas e realizado pela UFMG em 2017, demonstra que há um alto índice de atingidos, entre jovens e adultos, com depressão em Mariana. Após essa pesquisa, foi criado, no município, o serviço de atenção psicossocial e saúde mental Conviver, que desenvolve ações junto aos atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão. O serviço conta com  uma equipe multiprofissional formada por psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, arteterapeuta e psiquiatra, e atua também com crianças e adolescentes. O Conviver funciona de segunda a sexta, das 8h às 17h, na rua Genoveva Leão Lemos, 25A. Contato: 35574222.

* Trechos de entrevistas concedidas à Cáritas em novembro de 2020 e disponíveis no site mg.caritas.org.br

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