Editorial (Maio/2020)

Temos vivido tempos difíceis. Ainda assim, há quem diga que algo de bom poderá vir após esse período de autoisolamento social, mas isso não é uma garantia. Muitas pessoas estão em suas casas, seguindo as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), como é o caso do senhor Geraldo e dona Eny, que estampam a capa desta edição. Mas, afinal, o que é estar em casa? Para alguns, casa pode ser sinônimo de lar, de bem-estar, de aconchego. Para outros, pode ser o contrário, a depender de condições socioeconômicas, por exemplo. “Fica em casa!” Mas e quando a sua casa não é bem a SUA casa? 

Os(As) atingidos(as) podem até estar em casa, como manda o protocolo, mas qual o peso dessa quarentena quando algo primordial ainda está faltando? O crime de 5 de novembro de 2015 varreu do mapa centenas de casas, de lares e de histórias. Isso significa que, há mais de quatro anos, atingidos(as) estão sem um lar para chamar de seu. Continuam vivendo de forma provisória, aguardando as intermináveis obras de reassentamento que, agora, diante do novo coronavírus, tendem a atrasar mais ainda.

Além disso, é fundamental ressaltar que, mesmo responsável pela onda de rejeitos que solapou as casas de pessoas que deram a vida para construí-las, mantê-las e modificá-las de acordo com seus gostos pessoais e suas necessidades, a mineradora Vale recebeu um prêmio no valor de 19 milhões de reais pelo seu alto desempenho em 2019. O mesmo ano em que a empresa despejou mais de 12 milhões de metros cúbicos de rejeito tóxico em Brumadinho, tirando a vida de 272 pessoas. O prêmio parece celebrar a morte como lucro.

Diante disso, de tantos anos de injustiça e de atrasos na reparação dos danos que o crime do rompimento da barragem de Fundão trouxe, fica ainda mais difícil para os(as) atingidos(as) passarem por essa situação na qual uma pandemia vira o mundo inteiro de cabeça para baixo. Ainda assim, mesmo dentro de casas que não são as suas, as populações atingidas não desistirão de ter o que é delas por direito. A luta continua, seja de onde for.

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