Como estamos habitando a Terra

Por Alecsandra Santos da Cunha – Doutora em Geografia, é assessora Técnica das famílias atingidas pela barragem em Mariana-MG. Mestre em Geografia, especialista em Educação Ambiental, Agricultura Familiar Camponesa e Educação do Campo

Cientistas afirmam que estamos vivendo o Antropoceno, um momento no qual as ações humanas são a base das transformações no planeta. E o que isso tem a ver com a Covid-19 e as famílias atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão? A forma como o ser humano atua no mundo está diretamente ligada ao surgimento e à disseminação das pandemias. Convido vocês a algumas reflexões.

Nosso planeta tem cerca de 4,6 bilhões de anos. Os processos evolutivos se dão em centenas, milhares e bilhares de anos. Há cerca de 12 mil anos, o ser humano deixou de ser nômade para se tornar sedentário e domesticar animais e plantas.

Grupos humanos fixos em territórios, aglomerados e em contato com animais deram origem a diversas doenças. Os animais carregam fungos, protozoários, vírus, entre outros, que são transmitidos entre espécies. Os vírus, por exemplo, têm grande capacidade de mutação, acelerada pela destruição da natureza.

As pesquisas sobre a origem da Covid-19 ainda são recentes, mas se aponta para a transmissão do morcego para os pangolins e desses para os seres humanos, ou ainda para uma transmissão direta entre morcegos e humanos. Ao destruir os habitats dos animais, essas espécies buscam novas formas e espaços de sobrevivência. Quando a exploração dos recursos naturais avança sobre as florestas, morcegos, por exemplo, se adaptam e podem alcançar as zonas urbanas, transmitindo vírus aos humanos.

A mineração é uma das atividades com maior potencial de alteração do meio ambiente. Mineradoras operam mundo afora, retirando as riquezas minerais locais e deixando para trás um rastro de destruição. As comunidades que vivem nos entornos da exploração mineral precisam conviver diariamente com o avanço das minas sobre seus territórios, se apropriando de terras, água etc. Territórios que são a base dos seus modos de vida, da solidariedade, da coletividade, da pequena produção de alimentos para o sustento da família e dependentes dos recursos naturais locais.

Mesmo diante de um crime, como o rompimento da barragem de Fundão, a mineração segue sua exploração, enquanto as comunidades atingidas lutam para serem reparadas e voltarem a viver dignamente. Já vêm sofrendo a privação de seus direitos e, diante da pandemia instalada, mais uma vez, são abaladas profundamente. Com o afastamento social, precisam se reinventar na busca pela sobrevivência.

A mineração segue suas atividades normalmente, agravando a situação, fazendo com que o vírus circule ainda mais, visto os números relacionados à Covid-19 que o município de Mariana vem apresentando, pois mais da metade dos casos confirmados são de funcionários ligados às empresas mineradoras.

Empresas de capital transnacional, que lucram trilhões por ano por meio da exploração dos recursos naturais locais, têm a obrigação de prezar pela saúde e pela segurança de seus funcionários. Possuem recursos para manter seus trabalhadores em afastamento social, com salários em dia, garantindo a vida.

O capitalismo, com sua exploração da natureza para atender a cultura do consumo exagerado e acumulação de riquezas nas mãos de poucos, está saturando o planeta. Até quando o capital triunfará sobre a vida humana?

Entre a certeza que outras formas de viver e ser no/do mundo são possíveis e a esperança que a humanidade repense seus valores, deixo um fraterno abraço e #ficaemcasa, se puder. 

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