Eu não gosto do Papai Noel

Por Sério Papagaio

Na escola onde estudei, a professora estava ensinando os meninos e as meninas a escreverem bilhete pro Papai Noel. Eu não sabia escrever e nem tão pouco ler, fui correndo pra ela me ensinar a escrever. Ela disse, “menino abobado não pode ser letrado, e não me ensinou a escrever”. Pedi minha mãezinha, coitadinha, que me desse uma ajudinha, ela então me falou, “entre no quarto e peça com fé, que mesmo de longe Deus ou papai Noé vai podê te atender”. Botei meus joelhos no chão, naquele quarto de terra batida, e pedi pro papai Deus que me ensinasse a escrever. Para que assim, no ano que vem, igual a toda meninada que já sabia ler, eu possa meu próprio bilhete escrever. No ano seguinte entra na sala de aula o meu presente de Deus, aquela professorinha que se chama Lurdinha, veio com a luz no coração pra minha cabeça acender. Então naquele primeiro natal, depois de aprender a ler, eu fui lembrado por manhinha, pro meu bondoso Deus agradecer. Fiz uma reza espertinha e com menos de um minuto agradeci a Deus e a dona Lurdinha. Corri para o quarto de meu pai, onde lá no cantinho tinha uma velha mesinha, com o lápis na mão direita e um pedaço de cartolina, escrevi minha primeira cartinha. Lembro de cada rabisco que fiz com muito orgulho, sempre agradecido da minha professorinha, escrevi assim: querido papai Noel, nesta data que se véspera, peço que não se esqueça dessa humilde cartinha e traga pro meu natal, uma bicicletinha. Deitei bem cedo e antes que o sol saísse eu já havia acordado. Em cada canto da casa, por mais de uma vez, eu passava um atento reparo. Mas era cedo demais e eu voltei para a cama, certo de que ele traria mais de manhãzinha a minha bicicletinha, e o que ele me trouxe, foi uma pequena bolinha, fiquei com raiva de Deus e da minha professorinha e num canto da casa chorando eu disse, “nem Deus nem dona Lurdinha, souberam me ensinar a escrever a cartinha”. No ano que se seguiu eu mais letrado estava e com a raiva trocada por aquela vontade danada que a data almejada chegasse bem depressinha, pra eu mais uma vez poder escrever a minha cartinha. Então, pra não dizer que errei a cartinha do meu coleguinha eu copiei, pois ele sabia escrever, talvez até mais que dona Lurdinha, pois todo natal o papai Noel lhe trazia uma nova bicicletinha. Naquele natal não foi diferente, deitei antes da lua, e levantei depois do sol raiá, pois ele podia se atrasar, e quando eu levantei, certo de que naquela manhã eu receberia, a minha bicicletinha e outra vez o que tinha era aquela feia bolinha, eu não brinquei com ela, só fiquei da janela olhando o meu coleguinha ganhar mais uma vez, uma bicicletinha. Então tive a certeza, aquele velho malvado só gosta de menino rico, a culpa de eu não ganhar a minha bicicletinha não era de Deus nem de dona Lurdinha, subi  no morro lá perto do céu e gritei bem alto, eu não gosto de você Papai Noel. Hoje tenho certeza, aquele velho danado gosta mesmo é de dinheiro, nunca se preocupou em ser nobre e trazer presente bom, para menino pobre.      

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