Comunidades rurais isoladas pela falta de ônibus

Mesmo que o transporte público seja uma garantia prevista na Constituição, empresas privadas de transporte, que têm, como critério, o lucro, possuem o poder de delimitar como a população pode exercer esse direito. Sendo assim, não é de hoje que as comunidades rurais vivem a constante ameaça de terem também esse direito negado. Após o rompimento da barragem de Fundão retirar os moradores de Paracatu de Cima, a rota de ônibus da região passou a atender apenas as comunidades de Campinas, Pedras e Borba. A redução no número de passageiros é, agora, uma justificativa para a empresa de transporte tentar cortar toda a linha. O ônibus é, muitas vezes, a única alternativa viável de transporte dos moradores até o centro de Mariana.

Por Arlinda das Graças Batista Lourenço, Genilda Patrícia Procópio e Vanusa Aparecida Pereira Cerceau

Com o apoio de Joice Valverde e Wigde Arcangelo

Foto: Joice Valverde

Na época do acontecido com a barragem de Fundão, eu era diretora de uma escola em Campinas e também morava no Borba, que é uma vila pertencente a Santo Antônio das Pedras. O transporte sempre foi feito pela empresa Transcotta, de segunda a sábado. Depois do rompimento da barragem, por Paracatu ser um subdistrito com maior povoamento, eles começaram a dar uma parada com o transporte. Quando veio essa pandemia, eles cortaram, alegando ser devido à pandemia, mas eles já tinham cogitado a ideia de fechar, uma vez que não tinha mais Paracatu de Baixo. O que a Transcotta tem alegado é que não dá muito movimento. Mas aí vai isolar Borba, Pedras e Campinas, porque não tem mais ônibus para Paracatu de Baixo. Espera aí, né, gente?! Que coloque um micro-ônibus, mas coloca alguma coisa. Não achavam viável manter o transporte, então a população começou a pagar. Só que, em outros distritos, estava tendo ônibus e lá não. Deve ter uns 15 dias que voltou e o que aconteceu? Esse transporte ficou de passar somente na segunda e na sexta-feira. Gente, não tem como marcar um médico, né? Quem depende de SUS, como todos os moradores dessas regiões, não tem como marcar só pra segunda e sexta-feira. Pra eles, que têm renda baixa, é muito desgastante e é uma falta de respeito com as comunidades. Então, é tudo decorrente do crime da barragem, porque, uma vez que não tem Paracatu, não vai passar nas outras porque não dá mais movimento pra eles.

Vanusa Aparecida Pereira Cerceau, moradora de Borba

Aqui sempre teve muita má vontade sobre a questão de ônibus. Eles já tentaram várias vezes tirar a linha daqui, mas a comunidade fez abaixo-assinado e conseguiu resolver. Agora, assim que passou a eleição, se eu não me engano na semana seguinte, já cortaram o ônibus. Eles sempre alegam que há poucos passageiros, porque agora não tem Paracatu de Cima. E que também, como passava muito caminhão da Renova, a estrada ficava muito ruim. E sempre foi assim. Infelizmente, agora que, às vezes, a gente tem que ir em Mariana, o valor de um carro aqui tá saindo o valor de 170 a 200 reais, aí fica difícil. Às vezes, você tem uma consulta e tem que ir duas ou três vezes em Mariana, aí como é que você consegue pagar esse valor? Agora vai começar a época de chuva, aí como é que fica pagando carro?

Genilda Patrícia Procópio, moradora de Campinas

Se eu tiver que sair da minha comunidade e ir para Mariana, preciso ter 150 reais para pagar a corrida de carro, pois não tem transporte.Já tem cinco meses que eu não vou à Mariana por falta de condução. Então, pra você imaginar o que já aconteceu e o que tá acontecendo, só a gente que vive aqui pra saber. Quando eles queriam tirar o ônibus daqui, eu fui na Transcotta pedir socorro para que não tirassem. Eu não tenho carro, dependo de ônibus. E fui humilhada igual a um cachorro. Então, ainda dói, porque o ônibus agora voltou a passar só dois dias da semana, segunda e sexta, e nem fui nele ainda para Mariana, mas continua doendo muito, é muita coisa. 

Arlinda das Graças Batista Lourenço, moradora de Pedras