A sobrecarga de trabalho das mães atingidas

Acabaram os encontros, as reuniões presenciais, as festas de família, os churrascos de domingo. Desde que começamos a enfrentar a pandemia da Covid-19, os compromissos coletivos e o lazer comunitário foram substituídos por uma rotina cada vez mais doméstica. Essa mudança alterou profundamente a vida de todo mundo e, principalmente, das mulheres, que estão cada dia mais sobrecarregadas. Segundo a pesquisa “Sem parar: o trabalho e a vida das mulheres na pandemia”, realizada pelas organizações Gênero e Número e SOF Sempreviva Organização Feminista, 50% das mulheres no Brasil passaram a cuidar de alguém nesse período. A situação é ainda mais crítica para as mães: as que trabalham de forma remota se ocupam do emprego, dos filhos e das tarefas da casa ao mesmo tempo; e as que seguem em trabalhos presenciais perderam o apoio das creches e escolas, que estão fechadas. Muitas mães buscam o apoio de familiares, vizinhos e amigos, mas o que acontece com as mães atingidas? Afastadas do convívio da família, em casas alugadas e, algumas vezes, em cidades que não são as suas, essas mulheres precisam encontrar ainda mais forças para seguir em frente.

Por Beatriz Helena Bento, Fabrícia Maria Machado Tavares e Simone Silva

Com o apoio de Juliana Afonso e Juliana Carvalho

Em alguns momentos, diante da sobrecarga, a sensação é que não darei conta. Bate uma saudade e uma ansiedade por dias melhores. Após as adaptações, com o decorrer da pandemia, minha rotina vem sendo bastante desafiadora, girando em torno do trabalho e, ao mesmo tempo, do cuidado com meu filho, dos estudos, das tarefas domésticas… Me lembro que, no início da pandemia, ele não entendia que, apesar de eu estar em casa, precisava trabalhar e não estava disponível para ficar com ele, brincar com ele. Hoje ele compreende melhor que preciso trabalhar, porém, mesmo assim, ainda existem os desafios diários de conciliar a maternidade e o trabalho, as tarefas de casa, o distanciamento social. 

Sei que sou privilegiada de ainda ter minha casa e saber que meu filho tem espaço para brincar, enquanto muitos atingidos que perderam suas casas tiveram seus modos de vida totalmente alterados. Muitos vivem em um meio urbano, por vezes sem ter espaço suficiente para a criança brincar e, diante de todos os obstáculos e desafios impostos pela pandemia, imagino que seja mais difícil ainda para várias mães atingidas e seus filhos. 

Fabrícia Maria Machado Tavares, moradora de Paracatu de Cima

Como mãe, eu fico muito preocupada com a minha família e com os meus filhos. Queria que todo mundo estivesse junto, né, mas não pode. Como atingida, eu fico muito preocupada com tudo, porque, se a gente parar pra pensar e voltar lá atrás, a gente vê que mudou completamente a nossa vida, em todas as questões. Eu tive muita dificuldade pra construir a minha casa e agora eu tô dependendo de estar na casa dos outros, de estar longe da minha mãe, de estar longe de parentes e, até mesmo, da minha própria cidade, porque eu não estou morando na minha cidade, que é Barra Longa, eu moro em Acaiaca. Então, como atingida, eu acho que a dificuldade é em tudo. Enquanto eu não ver tudo normalizado, tudo no lugar, tudo ok, pra dizer “acabou a nossa dificuldade”, a gente vai ter dificuldade. Tem coisas que a gente não gosta nem de lembrar, né? Muita dificuldade mesmo.

Beatriz Helena Bento, moradora de Gesteira

Às vezes, as pessoas falam assim: “ah, mas trabalhar em casa é mais tranquilo”. Mentira pura. É o caos do caos, porque, quando você trabalha em home office, você não tem um horário fixo de serviço e acaba trabalhando muito mais, porque o trabalho vem pra dentro da sua casa.

A minha filha é do grupo de risco, tem inflamação no cérebro e no intestino devido à presença de metais tóxicos do crime da Vale, Samarco e BHP. Imagina se a minha filha pegar Covid? Então o meu cuidado, o meu trabalho, é bem maior.

Se não tivesse acontecido o rompimento da barragem, eu poderia estar lá na minha comunidade, em Gesteira, quietinha com a minha filha na casa da minha avó. Mas, infelizmente, não tem mais a minha comunidade, não tem mais o meu Gesteira e não tenho mais a minha avó, que foi assassinada pela reparação que nunca chega. Para melhorar minha rotina, seria uma roça, um lugar tranquilo, onde eu poderia ficar com minha filha, ela ter contato com a natureza, porque eu tô no aluguel e moro no segundo andar. Nem quintal aqui na minha casa tem. Então é bem tenso, bem difícil. A gente sabe que é um problema mundial, é um problema que não é só meu, mas, pelo fato de ser atingida, agrava muito mais a nossa situação durante a pandemia.

Simone Silva, moradora de Gesteira