Benzedeiras da alma, do corpo, do coração

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Dona Lourdes (Foto: Wandeir Campos/Jornal A Sirene)

Por Diomar Melo (Dona Doca), Maria do Carmo e Lourdemira Ferreira (Dona Lourdes)

Com o apoio de Amanda Gonçalves e Daniela Felix

Fotos: Daniela Felix e Wandeir Campos

Nas comunidades atingidas, a benzedura era uma prática comum exercida, em sua maioria, pelas mulheres. Através da fé e da conexão com a natureza, elas, que nasceram com o dom da cura, eram procuradas frequentemente por amigos, familiares e até por quem vinha de “fora”. Após o rompimento de Fundão, as benzedeiras atingidas encontram dificuldades para manterem vivo esse costume.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column css=”.vc_custom_1520538256207{margin-top: 24px !important;}”][thb_border][vc_column_text]“É reportagem? Cadê o papel pra vocês escreverem? Tem que ter muita fé, viu? Tanto quem benze, quanto quem recebe a oração. Já curei espinhela caída e ventre virado, já cosi joelho.Tem gente até de São Paulo me procurando. Minhas filhas e as amigas delas me ligam de lá, e eu ensino a fazer alguns chás, intercedo por elas.”

Dona Lourdes, moradora de Barra Longa

[/vc_column_text][/thb_border][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text css=”.vc_custom_1520543428318{margin-top: 24px !important;}”]

Na cidade de Barra Longa, Dona Lourdes preserva uma tradição. Através de plantas medicinais e orações, ajuda a curar crianças, adultos e idosos que a procuram. Aprendeu os ofícios da benzedura aos 30 anos, com uma “dona lá de Sem Peixe”. Hoje, aos 87, ainda exerce a atividade que, segundo ela, é a mesma coisa que reza. A devoção de Dona Lourdes pode ser notada pela presença de imagens de santos em todos os cômodos da casa. Em seu quarto, há um altar com Nossa Senhora, São Judas Tadeu, Santa Terezinha e o Menino Jesus, além de um quadro do Divino Pai Eterno, a quem confiou o parto de seu 11º filho.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column css=”.vc_custom_1520538237340{margin-top: 24px !important;}”][thb_border][vc_column_text]“Tive o Milton sozinha, sem a ajuda de ninguém. Prometi pro Divino que, se o bebê viesse com saúde, costuraria uma roupa pra alguma família sem condições de comprar vestes pros filhos.”

Dona Lourdes, moradora de Barra Longa

[/vc_column_text][/thb_border][/vc_column][/vc_row][vc_row css=”.vc_custom_1520540285610{margin-top: 24px !important;}”][vc_column][vc_column_text]Ela se preocupa em passar seus conhecimentos adiante. Viu que a lama de rejeitos destruiu o centro de sua cidade e contaminou o rio. Assim, ensinou uma colega a benzer, porque “se os velhos morrem, as pessoas que ficam têm que saber como fazer pra ajudar”. Essa preocupação também é compartilhada por Dona Doca e por Maria do Carmo, moradoras de Bento Rodrigues e de Paracatu de Baixo, que, devido ao rompimento de Fundão, não benzem como antigamente.

Contra “mau olho”, “cobreiro”, “destroncado” e pra curar “sentimento”. Dona Doca, 89, relembra os tempos de benzeção com a ajuda de sua filha, Keila. Acredita em Deus e é devota de Nossa Senhora. Começou a benzer aos 23, após o falecimento do marido Joel, que também era benzedor. Em Bento, sua casa vivia “cheia dos povo e das crianças”. Usava brasa, talo de mamona, crucifixo e água para curar pessoas da comunidade e de outros lugares.

Desde que teve que se mudar para Mariana, Dona Doca não benze. O antigo crucifixo do marido e o caderninho com os ensinamentos se perderam na lama. Por causa da distância, já não vê mais seus vizinhos e amigos com frequência. Repete, três ou quatro vezes, que a vida era outra, que, “agora, a gente fica diferente”. Às vezes, sente vontade de dormir para esquecer o que se passou, mas se conforta por, ao longo do tempo, ter ajudado tanta gente.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row css=”.vc_custom_1520543170830{margin-top: 24px !important;}”][vc_column width=”1/2″][thb_border][vc_column_text]“O que eu podia fazer pras minhas crianças e pro povo, eu fazia.”

Dona Doca, moradora de Bento Rodrigues

[/vc_column_text][/thb_border][/vc_column][vc_column width=”1/2″][vc_column_text]

Na imagem, a atingida Dona Doca

[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row css=”.vc_custom_1520542809573{margin-top: 24px !important;}”][vc_column width=”1/2″ css=”.vc_custom_1520542867459{margin-top: 24px !important;background-color: #e5e5e5 !important;}”][vc_column_text css=”.vc_custom_1520542829444{padding-top: 10px !important;padding-right: 10px !important;padding-bottom: 10px !important;padding-left: 10px !important;}”]

Dicas de Dona Lourdes

Arruda: para banhar olho inflamado

Hortelã: para diminuir a febre

Sálvia: para quando estiver agitado

Oração para ventre virado: “Padre sobe ao altar, veste e reveste. Vira o santíssimo pro povo. Como São Clemente não falha, nem mente, esse ventre virado não vai adiante.” (3x)

Dicas da Maria

Folha de Assa Peixe: para curar cobreiro

Oração para dor de dente: “São Pedro estava sentado, Jesus perguntou: – Que tem, Pedro? Dor de dente, senhor.

Se for inflamado sara, se nevralgia sara, se for dor, melhora?”. (3x)

Dica de Dona Doca

Pra curar de sentimento: mergulhar o crucifixo na água, antes do sol se pôr. (Banhar a pessoa três vezes.)[/vc_column_text][/vc_column][vc_column width=”1/2″][vc_column_text]Em Paracatu de Baixo, a benzedeira Maria do Carmo, 56, trabalhava na roça, cuidava da casa e das criações durante o dia. À noite, ia para Águas Claras, onde concluiu o 3o ano e obteve o certificado do Ensino Médio. Apesar de gostar de estudar, Maria não acredita que a ciência cura tudo. Ela conta que a benzedura é um dom, e que não existe uma única forma de benzer, pois cada benzedeira tem sua própria reza. As dela, aprendeu “de cabeça”, com o tio.

Apegada à Nossa Senhora de Fátima, Maria passa grande parte do tempo dentro da moradia provisória em Mariana. Acompanha a missa na TV Aparecida e cuida de suas plantinhas, amontoadas no chão e na sacada do apartamento – diferentemente de Paracatu, onde frequentava a Capela de Santo Antônio e tinha uma horta abundante.

Maria conta que, desde o rompimento de Fundão, nunca mais benzeu ninguém de Paracatu. Sem as folhas de assa-peixe no quintal, a brasa de fogão, a lenha e o caderno onde anotava as orações, ficou mais difícil. Mas ela não deixa que isso a impeça de ajudar os novos vizinhos em Mariana.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column css=”.vc_custom_1520542334653{margin-top: 24px !important;}”][thb_border][vc_column_text]“Se aparecer alguém procurando, dou um jeito. Ainda guardo tudo aqui na memória.”

Maria do Carmo, moradora de Paracatu

[/vc_column_text][/thb_border][vc_column_text css=”.vc_custom_1520538497980{margin-top: 24px !important;}”]Lourdes, Doca e Maria são símbolos de sabedoria e resistência da mulher. Carregam consigo saberes passados de geração a geração. Antes, ocupavam um lugar de referência em suas comunidades. Agora, refletem as particularidades dos territórios atingidos, e nos mostram como a tragédia-crime provocada pelas mineradoras Samarco, Vale e BHP Billiton segue implicando na mudança dos laços comunitários e no modo de vida dos atingidos e atingidas.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text][/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]