Se a vale pode minerar, por que os garimpeiros não podem garimpar?

Por Clodomiro de Castro, Gilson Felipe de Resende, Hermínio Amaro do Nascimento e Sérgio Papagaio

Foto: Sérgio Papagaio

No ano de 1696, nasce a vila de Mariana, embrião do Estado das Minas Gerais, alimentado pelo ouro encontrado em suas terras. Anos depois, a então vila é elevada à cidade e, posteriormente, à primeira capital do Estado. Tudo isso se deve à abundância do ouro em terras de seu domínio. A extração desse valioso metal contou com a mão de obra de povos escravizados oriundos da África.

Pensarmos, hoje, que a escravidão acabou é utopia. E muitos garimpeiros descendentes desses povos escravizados ainda se mantêm na prática extrativista mantendo seus modos de vida em uma liberdade que os prende ao garimpo até os dias atuais. Muitos usam, para assinar seu nome, unicamente o polegar direito e ainda vivem às margens dos rios Carmo e Gualaxo do Norte, exatamente onde viviam seus ancestrais. Com modos de vida inalterados, praticam agricultura familiar no período das cheias dos rios, a pesca e garimpam quando os rios assim lhes permite. 

Mas o rompimento da barragem de Fundão, de propriedade da Samarco Mineração, e de suas controladoras, Vale e BHP Billiton do Brasil, impossibilitou quaisquer prática extrativista e de cultivo agrário em suas margens e/ou em seus leitos, seja pelo acúmulo de rejeito depositado em toda extensão dos dois rios, no leito e nas margens; ou pela quantidade de enormes pedras colocadas pelas reparadoras do crime em suas margens, prática denominada de enroscamento; ou pela contaminação de suas águas e suas várzeas, melhores áreas de cultivo. Para entendermos melhor este triste capítulo da história do garimpo é que conversamos com alguns garimpeiros:  

Foto: Sérgio Papagaio

Gilson Felipe de Resende (Gilsinho), garimpeiro tradicional, morador da cidade de Barra Longa, entrevistado por A SIRENE em março de 2019, relatou: “estou arriscando a vida no rio Gualaxo, pois não tem emprego em Barra Longa, a única forma de afastar a fome é trabalhar no rio. O que fazer?”. Hoje, voltei a conversar com Gilsinho e ele me disse: 

– Continuo trabalhando no rio, é o que eu sei fazer e é o que eu gosto de fazer.

Então lhe perguntei: 

– Gilsinho, você não pensou em trabalhar em uma das contratadas da Renova?

– No garimpo, eu sou mestre; nas contratadas, serei ajudante, e eu não me ajeito com o chefe e nem com o regime das empresas. Sou bicho solto, nasci e cresci no garimpo. Sou igual passarinho arisco, não consigo viver em uma gaiola. Prefiro morrer de contaminação do que trabalhar num lugar e me sentir na prisão. 

Hermínio Amaro do Nascimento, garimpeiro tradicional, morador da cidade de Acaiaca, entrevistado pelo jornal A SIRENE em março de 2019, nos relatou o seguinte: “eu trabalhava na roça, era muito pobre. A gente plantava só pra comer, o garimpo trouxe esperança de uma vida melhor”.

Hoje, questionado sobre como está sua vida, Herminio nos faz um relato emocionante:

– Tenho filhos pra criar, depois do rompimento da barragem, a vida foi ficando difícil e eu senti medo não de passar, mas de ver meus filhos passarem fome. Eu aprendi com meu pai que um homem, quando põe filho no mundo, tem obrigação de tratar deles. Eu só sei plantar roça e garimpar. Plantar roça eu não quero, pois a experiência não foi boa; só me restou enfrentar a contaminação dos rios e caçar algum ourinho pra tratar dos meus filhos.

– Você não tem medo de se contaminar nos rios por metal pesado? 

– Eu tenho medo é de ver meus filhos passando fome.

Clodomiro de Castro, nascido em Barra Longa, reside atualmente em Acaiaca. Questionado sobre sua situação como garimpeiro tradicional após o rompimento da barragem de Fundão, diz:

– Eu nasci na roça, em Barra Longa, onde eu aprendi a trabalhar, mas eu vim conhecer dinheiro foi no garimpo. Eu fiz minha casa foi com dinheiro de ouro, e passei, eu e minha família, a ter uma vida boa foi com dinheiro de ouro.

– Muitos garimpeiros me disseram que passaram a ter medo de não ter o que comer ou de não conseguir sustentar sua família. Você passou a ter medo da fome após o rompimento da barragem?  

– Da fome de comida não, pois eu tenho saúde, posso trabalhar em qualquer lugar, mas eu não tenho outra profissão sem ser o garimpo, então eu ia ganhar só pra comer, mas eu e minha família não temos fome só de comida, eu quero ver minha filha formada, tenho fé em Deus.

Foto: Sérgio Papagaio
Foto: Sérgio Papagaio

Minas e a mineração

Por Sérgio Papagaio

A fundação da cidade de Mariana se deu com a descoberta de ouro em suas terras, no ano de 1696. Primeira vila do Estado e berço da fundação das Minas Gerais, podemos afirmar que as minas de ouro da então vila de Mariana foram a madrinha de batismo do nosso Estado. 

Minas Gerais, com a região que compreende, hoje, os Estados de Goiás e de Mato Grosso, protagonizaram, nos primeiros 60 anos do século XVIII, o ciclo do ouro, mas Minas se destacou na produção minerária, a ponto de seu povo carregar o gentílico relativo ao ofício que foi o leite do Estado, mas também seu algoz. Pensar que todo o ouro do Estado, neste período, foi extraído sob as chibatas nos faz entender que a escravidão perdeu força para as leis de consumo britânicas, mas, até hoje, vivemos sob o domínio dos senhores do maior garimpo do mundo, Vale e BHP Billiton, que nos açoitam com o chicote de ferro em seu sistema ditatorial de extrativismo minerário e sua política de necro-engenharia, com seus rompimentos de barragens, destacando o rompimento da barragem de  Fundão, que, no dia 5 de novembro de 2020, completa cinco anos de dor e desrespeito à vida não só no Estado, mas em todo planeta. Dizer que a escravidão foi abolida é o mesmo que acreditar que vivemos em democracia num país que não nos prende nas gaiolas, mas corta nossas asas. E, para não nos esquecermos, rompeu também a barragem de Brumadinho, por isso, a sirene toca às 10 horas, em todo dia 10 de cada mês, nos fazendo lembrar que estamos vivendo sob o domínio da morte, funcionária da Vale e da BHP Billiton do Brasil.