A SIRENE: há seis anos narrando histórias das pessoas atingidas

Em primeiro plano, mãos dadas. Ao fundo, roda de pessoas de mãos dadas.

Em fevereiro de 2016, três meses após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, nascia a primeira edição do Jornal  A SIRENE, veículo de comunicação que luta pelo direito de voz e escuta das pessoas atingidas. Neste mês, chegamos ao sexto ano de existência e resistência do jornal, conhecido como um instrumento que retrata a realidade das comunidades atingidas pelos rejeitos da mineração.

Ao longo desse período, entramos na casa das pessoas para ouvir suas histórias, registrar denúncias e dar visibilidade para todos e todas que clamam por justiça e reparação digna. Conversamos com a população de diversas comunidades tradicionais ao longo da bacia do rio Doce: indígenas, quilombolas, pescadores(as), garimpeiros(as), entre outros sujeitos que tiveram seus rumos alterados pela lama. Dentre tantos assuntos abordados, narramos o descaso das empresas mineradoras, Samarco/Vale/BHP, com as famílias atingidas e as consequências do crime que segue se renovando a cada dia. Pautas latentes no dia a dia das comunidades foram trazidas a público e registradas nas páginas d’A SIRENE, como um documento histórico de memória. Os problemas de saúde física e mental desencadeados após o rompimento, o medo da contaminação da água, do solo e do ar dos territórios atingidos, o atraso na entrega dos reassentamentos, as violações de direitos e as etapas do processo de reparação são algumas delas. As lembranças e a saudade da vida em comunidade antes do rompimento e o sonho de voltar para suas casas são assuntos que encontram espaço no jornal.

Nesse percurso, outras comunidades também foram visitadas. É o caso de Brumadinho, outra consequência do modelo de mineração que levou ao crime de Mariana, e de outras cidades que vivem com o terror psicológico do risco iminente de um novo rompimento. Assim, chegamos ao total de 70 edições publicadas em seis anos de atuação. Edições que, como guardiãs, registram os afetos, as memórias e os testemunhos das pessoas que presenciaram o maior crime socioambiental do país.

No entanto, chegar até aqui não foi tarefa simples. O jornal é constantemente atravessado por dificuldades, sobretudo devido à falta de recursos. Tivemos de nos adaptar às novas possibilidades para seguir atuando e, após as restrições impostas pela pandemia de COVID-19, infelizmente, paralisamos a distribuição dos jornais impressos, o que impacta diretamente no acesso das pessoas atingidas que recebiam mensalmente o conteúdo em suas casas. Contudo, o jornal segue com o propósito de caminhar ao lado das pessoas atingidas, resistindo junto delas aos desafios diários destes seis anos de luta. 

Por Andréia Mendes Anunciação, Expedito Lucas da Silva (Caé), Luzia Queiroz, Marino D’Angelo, Marli Maria Gomes Silva e Mirella Lino

Com o apoio de Joice Valverde, Karine Oliveira e Simone Silva 

O Jornal A SIRENE é, para nós, atingidos, um instrumento muito importante para divulgação de informações confiáveis sobre o processo, porque não é todo mundo que consegue participar com frequência das audiências, das discussões com o promotor, em todos os espaços que envolvem a discussão desse processo. Ele também é composto por atingidos, é feito de atingidos para atingidos, com o apoio de jornalistas que trabalham no jornal. É um instrumento muito importante para fazer a veiculação dessas informações para o pessoal e também para contar um pouco do lado imaterial, do lado mais sensível dessa questão que, na maioria das vezes, é invisibilizado pelas grandes mídias. Sempre que vem chegando o “aniversário” do crime, o dia 5 de novembro, as grandes mídias vêm procurar a gente pra saber como que tá, mas muito focadas na questão da resolução no sentido de números – “o que foi feito, pra quantas pessoas foi feito, como é que vocês estão?” – e depois eles somem. A gente fica aqui o resto do ano no território, lutando contra as empresas, e essa face mais sensível, ela se perde, a gente não consegue mostrar. O Jornal A SIRENE abre muito espaço pra isso. 

Mirella Lino, moradora de Ponte do Gama

A importância do Jornal A SIRENE para nós, atingidos, é de ser o instrumento que a gente tem para denunciar o descaso das empresas e dos órgãos públicos, a injustiça e o abandono em que a gente se encontra dentro desses seis anos. E poder informar, para a sociedade, a realidade verdadeira do que a gente tem vivido.

Marino D’Angelo, morador de Paracatu de Cima

O jornal relata, em tempo real, as questões polêmicas do momento, desperta nos leitores a importância de ficarem atentos a tudo para não ter complicações no processo e ver como é a atuação das empresas em todos os casos de rompimentos de barragem.

Luzia Queiroz, moradora de Paracatu de Baixo

O jornal representa um instrumento de comunicação de confiança, que traz denúncias, história, realidade e fala na nossa linguagem. Então, o jeito de fazer as entrevistas é um jeito diferente, um jeito sensível com os atingidos, e narra aquilo que a gente quer. Então ele representa, para mim, tudo isso. O principal: um instrumento de comunicação de confiança que não se desvia do que a gente quer falar.

Expedito Lucas da Silva (Caé), morador de Bento Rodrigues 

O jornal deve continuar existindo porque ele é a única forma de informação que o atingido tem hoje. O Jornal A SIRENE nos ajudou, muitas vezes, a fazer denúncias do que estava acontecendo no território, como na questão da saúde. A SIRENE representa os nossos olhos, porque ela vê coisas que a gente não vê, notícias que, às vezes, a gente não vê. A pessoa que tá longe tem a notícia do que tá acontecendo nos territórios, por isso, ele representa o olhar do atingido.

Andréia Mendes Anunciação, moradora de Barra Longa

Eu acho muito importante A SIRENE continuar, sim. Tem dois anos que a gente não vê o jornal impresso mais e eu sinto muito. Mas, enquanto tinha, antes da pandemia, cada história que vinha era uma história diferente, uma história marcante na nossa vida. Cada dia que chegava uma história diferente, o coração da gente pulava de alegria, de tristeza e de emoção ao mesmo tempo.

Marli Maria Gomes Silva, moradora de Gesteira

É impossível responder qual foi a matéria mais marcante para mim, tem muitas matérias marcantes, então não tem como. Dentro dos seis anos, tantas matérias, tantas denúncias e também histórias alegres e tristes das pessoas que contam.

Expedito Lucas da Silva (Caé), morador de Bento Rodrigues 

Eu já cheguei a participar das reuniões de pauta, bem no início. Quando eu cheguei aqui em Mariana, eu ainda não tava entendendo muito do processo, eu era bem nova, mas, na primeira reunião de pauta que fui do jornal, eu sugeri que tivesse uma matéria sobre o “acórdão” que tinha sido celebrado entre as empresas e os governadores, e os atingidos mesmo não participaram. Se teve participação, foi muito pouca, a gente não se sentiu representados e também a gente não tava entendendo ainda como é que isso ia funcionar, o que tava acontecendo. Então nós vimos, no Jornal A SIRENE, um espaço bacana de abertura para poder explicar mais detalhadamente sobre essa questão do “acórdão”. Depois, conforme eu fui me enfiando mais nos processos, não consegui mais acompanhar as reuniões de pauta do jornal, mas esse momento me marcou bastante, foi a primeira experiência que tive como atingida e colaboradora do jornal. 

Mirella Lino, moradora de Ponte do Gama 

Foto: Júlia Militão

A matéria do Jornal A SIRENE que mais me marcou é a que retrata o descaso da Fundação Renova com relação aos animais. É um crime que destruiu a vida das pessoas que vivem da terra. A Fundação Renova, sem critério e sem acordo, cortou a alimentação, causando a morte de muitos animais. Um transtorno muito grande na economia local, que já estava praticamente morta. No meu caso, perdi mais de 20 cavalos nessa “brincadeira”. Procurei os direitos dos animais, procurei ONGs, deputados, a Justiça e, até hoje, nada. Fica, a cada dia que passa, mais claro que quem governa e dita as regras deste crime são os criminosos.

Marino D’Angelo, morador de Paracatu de Cima

Foto: Sérgio Papagaio

A matéria mais marcante foi quando meu pai, de 70 anos, deu na veneta de sair com o tio dele e um companheiro para ver se encontrava a nossa padroeira Nossa Senhora da Conceição, de madeira, que atravessou o rio com lama. Correndo o risco de pegar uma infecção na pele, atravessou com barro até no peito pra chegar na porta da igreja e tirar a santa. Ao chegar aqui, chamei minha prima, e eu, minha mãe e ela lavamos a santa na varanda da casa, felizes da vida que salvamos a nossa padroeira. Depois veio aquela história também, da dona Maria Geralda, aquela mulher guerreira. Quantas vezes ela passava por enchente, carregando seus trem pra cima, com seus filhos e netos. Todas as vezes, em época de chuva, ela fazia isso. Foi uma história muito emocionante. Os Papo de Cumadre também são muito bonitos. 

Marli Maria Gomes Silva, moradora de Gesteira

Foto: Larissa Pinto e Eduardo Moreira

A matéria que mais me marcou foi ver o “Céu de Paracatu”. Duvidavam do que eu falava e, quando vi a foto, parecia uma miragem, até o céu conspirou com tanta beleza. Tenho orgulho de mostrar o jornal e poder provar que o que falamos não é mentira e nem é editado para convencer quem lê com palavras técnicas. O jornal tem a nossa linguagem.

Luzia Queiroz, moradora de Paracatu de Baixo