Renova despreza desejos da comunidade sobre cemitério

Maquete do terreno do reassentamento de Bento Rodrigues

Desde o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, o reassentamento do subdistrito de Bento Rodrigues, devastado pelo rejeito da Samarco/Vale/BHP, caminha a passos lentos e já teve sua entrega atrasada diversas vezes. Como entidade supostamente responsável pela mobilização para a reparação dos danos causados pelo desastre, a Renova fez um projeto arquitetônico para o cemitério do distrito no reassentamento. Nos dias 13 e 20 de maio, a organização promoveu encontros com as pessoas atingidas para discutir a possível localização do cemitério que será construído. Pensado para ser implantado na entrada de Bento, o cemitério fica a apenas 13 metros de algumas casas, o que desagrada a comunidade. Além disso, a Renova apresentou apenas uma opção, sem oferecer alternativas às pessoas atingidas. 

Por Tatiane Análio

O projeto arquitetônico desenvolvido pela Fundação Renova envolve um cemitério parque que, depois de construído, será cuidado pela prefeitura. Não houve uma escuta prévia a respeito da opinião da comunidade sobre a melhor localização para a construção. A instituição alega que contatou todas as pessoas atingidas para essa discussão. No entanto, nos dois dias de audiência, um número reduzido de participantes compareceu ao Centro de Apoio às Famílias de Bento Rodrigues, local onde o projeto foi apresentado. Em dado momento, uma moradora sugeriu um Grupo de Trabalho no Centro de Convenções de Mariana para que mais pessoas pudessem acessar a planta.

Pela forma impositiva como a iniciativa foi apresentada, alguns tensionamentos surgiram. Muitos moradores e muitas moradoras tiveram a impressão que a proposta estava caminhando para algo concreto, ou seja, o cemitério seria implantado naquela área de qualquer maneira, à revelia do desejo da comunidade. A maioria das pessoas atingidas que estava presente não concorda com a construção do cemitério no local previsto. Por uma questão histórica, cultural e de pertencimento, uma obra desse tipo precisa ser pensada em conjunto, afinal, ela será um local importante no reassentamento, que pertence, por direito, às pessoas atingidas, e não à Renova ou às mineradoras. 

Após a primeira audiência, ficou claro que a comunidade rejeitou a proposta, mas a Renova manteve o segundo encontro. Uma ata foi formulada com sugestões dos moradores e das moradoras. Outros encontros para a discussão do tema foram propostos, ainda sem data marcada.