“Nós enverga, mas não quebra”

Homens carregam imagem de Santo Antônio em procissão

Não precisa ser católico para já ter ouvido falar de Santo Antônio, afinal, ele é o “santo casamenteiro”, responsável pela união daqueles que se amam. O dia de celebração do santo é 13 de junho e normalmente é por esses dias também que começam algumas das festividades mais tradicionais do Brasil: as festas juninas.

Em Paracatu de Baixo, a celebração de Santo Antônio festeja o padroeiro da comunidade e a festa junina. A comemoração foi no território de origem, nos dias 11 e 12 de junho, e teve a intenção de reunir a comunidade depois de tantos desafios, recordar e manter uma tradição. Paracatu de Baixo mostrou que enverga, mas não quebra, como lembrou o grito de guerra da quadrilha, dançada, com todos os elementos, por pares adultos e crianças.

As celebrações refizeram os passos de um dos líderes de referência da comunidade, Seu Zezinho. Ele deixou o legado para seus nove filhos, que moravam todos em torno da igreja até serem expulsos pela lama. A Efigenia, por exemplo, fez toda a comida da festa. A Maria Geralda organizou a missa. O Romeu, representante da Comissão de Atingidos de Paracatu de Baixo, conduziu Santo Antônio em carreata pelo território. O Elias já deixou avisado que a próxima celebração vai ser em setembro, na Festa do Menino Jesus, com muita fartura, como o pai fazia, continuando a tradição.

Por Angélica Peixoto, Efigenia Geralda Teotônio, Elias Oliveira, Maria Geralda Oliveira, Padre Harley Carvalho de Lima, Dona Maria Salete (Dinha) e Dona Rosária
Com o apoio de Maria Eduarda Alves Valgas e Tatiane Análio

Foto: Maria Eduarda Alves Valgas

“Essa festa é uma tradição, e é muito importante a gente manter a tradição dos nossos pais, dos nossos avós. Papai Zezinho que começou e agora, nós, irmãos, seguimos, não pode deixar morrer, não. A comida, eu fiz esse ano também: a canjica está boa? Toma do caldo também!”

Efigenia Geralda Teotônio, moradora de Paracatu de Baixo

Mulheres servem cachorro quente para crianças e jovens na festa junina de Paracatu de Baixo
Foto: Maria Eduarda Alves Valgas

“Setembro eu que vou fazer, vou pendurar um boi aqui, aí você vai ver o que é fartura, pode voltar aí, vocês vão ver a quantidade de comida. Pai fazia a festa sexta, sábado, domingo e segunda, sobrava um cado de comida, aí juntava a segunda.”

Elias Oliveira, moradora de Paracatu de Baixo

Moradores hasteiam estandarte de Santo Antônio durante festa do padroeiro em Paracatu de Baixo
Foto: André Carvalho

“Eu acho que é uma forma de resistência, porque já são sete anos, né?! Parou só nesse período de pandemia porque não tinha como fazer mesmo. Assim que a pandemia deu uma trégua, a gente está aí, resistindo bravamente, para não deixar as tradições da comunidade se acabarem. Antes era mais ou menos nesse estilo, com a missa mesmo, a quadrilha, as barraquinhas. O diferencial hoje é que antes tinha a novena, ela começava uma semana antes, então tinha toda uma preparação para isso, para culminar no domingo, com a missa. A organização sempre esteve por conta da comissão de festeiros, e a gente entrava participando com a organização da missa, a parte da liturgia, a parte da quadrilha, era assim que era feito. Eu acho que, depois da tragédia do rompimento da barragem, é que ficou mesmo a responsabilidade para a coordenadora da igreja, Maria Geralda Oliveira. Ela promove as festas contando com as pessoas que estão aí com ela para ajudar. E, assim, é insistência mesmo, isso aqui acontece por insistência.”

Angélica Peixoto, moradora de Paracatu de Baixo

Moradores de Paracatu de Baixo carregam imagem de Santo Antônio em procissão; à frente, estandarte do padroeiro
Foto: André Carvalho

“Mesmo com o reassentamento, aposto com você, todo ano vai ter festa aqui, aqui que é a Igreja de Santo Antônio, lá [no reassentamento] pode até batizar a igreja com outro santo. Antes você chegava aqui, era barraquinha para todo lado, barraquinha, quadrilha, aqui mesmo tinha a procissão, que era grande, dava a volta na escola, saía de um lado e voltava pelo outro, hoje tá bem curtinha. Juntava a comunidade toda, né, Rosária? Toda vida foram muito unidos. Dentro da escola tinha a festa deles separado, e a da comunidade era aqui na rua, eram duas festas de Santo Antônio, ô maravilha, gente.” 

Dona Maria Salete (Dinha) e Dona Rosária, moradoras de Paracatu de Baixo

Comunidade de Paracatu de Baixo dança quadrilha em frente à igreja do padroeiro Santo Antônio
Foto: André Carvalho

“Eu cheguei em 2020, as celebrações são um desafio. Aqui em Paracatu de Baixo é só em datas importantes para a comunidade, festa de Santo Antônio, festa do Menino Jesus, só essas festas, porque é difícil juntar o povo aqui para celebrar. Acho que dispersou muito, saiu muito daquilo que era o ideal da comunidade, os valores da comunidade. Sem contar os que morreram, né? Eram os que sustentavam a comunidade. Em Mariana, a celebração é sempre no primeiro domingo do mês, às 15 horas, mas com um número muito reduzido de participantes fiéis, por causa dessa questão da distância, cada um em um canto do bairro, distante do outro, se perdeu muito.”

Padre Harley Carvalho de Lima, celebrante das missas de Paracatu de Baixo

Carro conduz a procissão na estrada de Paracatu de Baixo. Atrás do carro, moradores carregam o estandarte e a imagem de Santo Antônio
Foto: André Carvalho

“Eu senti falta de comemorar a festa de Santo Antônio, e acredito que todo mundo sentiu. A procissão, a missa, a quermesse, a quadrilha, tudo isso é importante demais pra gente. Nosso santo merece ser celebrado, e celebrado com tudo que tem direito, por isso a procissão com velas e levantamento do mastro.”

Maria Geralda Oliveira, organizadora da missa