Em Gesteira, Igreja Batista Pentecostal comemora três anos de atividade

Comunidade de Gesteira celebra em quadra na comunidade

As memórias vinculadas a cultos em sede própria ou na casa de familiares habitam a mente dos moradores e das moradoras, pois a presença da igreja evangélica em Gesteira é antiga. Ao longo de mais de 40 anos, a comunidade conviveu com altos e baixos relacionados à manutenção dos templos religiosos na localidade. Afinal, além de lidar com o êxodo rural, que acarretava a perda de fiéis, por mais de uma vez, a mineração interrompeu as atividades das denominações no distrito de Barra Longa. A última foi culpa do crime de Samarco, Vale e BHP. 

Ao comemorar três anos da iniciativa de firmar no território um espaço destinado à manifestação da fé na Igreja Batista Pentecostal, moradores e moradoras também relembram suas histórias, suas origens e reafirmam seu pertencimento como comunidade. A festa contou com a participação de membros das sedes e de distritos de Barra Longa e Mariana. Além do culto, houve apresentações de dança e teatro. 

Por Calebe Soares, pastor Daniel Vitalino, Monica Campos, missionária Rejane Cassiano e Simone Silva
Com o apoio de Crislen Machado 

Foto: André Carvalho

“Gesteira era considerada um celeiro de missionários e daqui saíram muitas igrejas para Barra Longa. Depois que o pessoal foi saindo da cidade, diminuiu muito. Hoje temos só três igrejas, que são muito pequenas, mas estamos trabalhando para restabelecer o panorama original. A chegada da igreja trouxe até um refrigério psicológico na comunidade, pois muita gente perdeu a fé depois de tantas promessas de melhorias de vida que não se cumpriram nesses quase sete anos desde o rompimento. 

O pessoal foi perdendo a fé de retornar às suas casas e parece que, quando a pessoa não tem seu ambiente, o lugar que sente que é dela, perde a crença quase que em tudo. Ficaram aqui pessoas que perderam pai, mãe, avó, familiares que tinham essa raiz evangélica, mas hoje, apesar de tudo, são lembradas pela família não só com o sentimento de perda, mas de esperança.”

Calebe Soares, morador de Barra Longa 

“Minha família está na igreja evangélica há 41 anos, 41 anos de história aqui no Gesteira. A igreja estava lá do outro lado, era próxima à católica. Quando eles passaram o mineroduto, expulsaram a gente de lá e aí passamos a fazer os cultos nas casas. Não é a primeira vez que a igreja é atingida, a igreja já foi atingida antes do rompimento. Nos últimos anos, o culto era realizado na casa da minha avó, mas, depois do rompimento, ela foi embora para Barra Longa. Minha avó perdeu tudo e acabou falecendo. Meu tio também faleceu e eles eram bases da igreja aqui em Gesteira.

Para a gente, hoje, aqui foi um marco, um marco histórico mesmo. Quantas vezes eu já estive aqui nesse mesmo espaço, numa luta, resistindo, lutando pelo reassentamento e tantas outras pautas. Hoje, estar aqui fazendo a obra me faz sentir em êxtase. Estar aqui também é um ato de resistência. Para muita gente é a igreja que fortaleceu, porque, quando acontece essas coisas, a gente busca força em Deus.”

Simone Silva, moradora de Gesteira

Foto: André Carvalho

“Não só na questão religiosa, mas em questão humanitária, é tudo muito injusto, porque todos foram atingidos direta ou indiretamente. Nós fomos atingidos diretamente, nós fomos atingidos quando tivemos de fechar, quando veio a lama e não tivemos condição de abrir porque as ruas ficaram sem acesso. Eu acho que tudo que afeta uma pessoa na área física ou na área espiritual tem que ser reparado.”

Rejane Cassiano, missionária da Igreja Batista Pentecostal em Gesteira

“A sede da igreja, em Barra Longa, ficou fechada por sete meses após o rompimento da barragem, devido ao bloqueio das ruas pela lama e pelo fluxo intenso de maquinários e trabalhadores atuando no processo de retirada do rejeito. Nesse período, tivemos um déficit financeiro, pois os fiéis perderam renda e não puderam mais contribuir com a manutenção da instituição. Por outro lado, não perdemos nossos fiéis. Há sete anos começamos nossa caminhada e agora contamos com mais de 100 membros.”

Pastor Daniel Vitalino, morador de Barra Longa

“Estou na igreja há três anos, desde que abriu aqui. Antes disso, eu frequentava a Assembleia de Deus, mas, depois que veio a lama, todos os membros foram embora e ficou só eu aqui. Durante a pandemia, as igrejas foram proibidas de abrir, mas a Batista foi chegando devagarzinho, todo mundo de máscara, e eu, pra não ficar sem igreja, comecei a ir na Batista e estou até hoje. Como membro da comunidade, vejo a igreja como um lugar de conforto, onde muitas pessoas encontraram forças para continuar.”

Monica Campos, moradora de Gesteira