Dois anos de lama, dois anos de luta

Moradores atingidos pela lama da Samarco protestam com bandeiras do MAB em Governador Valadares.

Atingidos organizados pela MAB se movimentam em Governador Valadares. (Foto: Nilmar Lage/Divulgação)

Por Movimento dos Atingidos por Barragens

O maior crime ambiental da história do Brasil e um dos maiores da mineração global deixou uma ferida aberta na sociedade brasileira. Ferida que começa em cada uma das mais de 350 famílias que perderam suas casas nas comunidades de Bento Rodrigues, Paracatu, Ponte do Gama, Pedras, Borba, Campinas, Barretos e Gesteira, e que não sabem sequer o dia em que as obras de reconstrução vão começar.

Continua nos proprietários de terra que tiveram perda de renda e destruição de bens no pedaço de chão em que viviam. Cresce em cada morador de Barra Longa que viu casas, quintais, praças, igrejas destruídas pela avalanche de lama, além de terem que conviver cotidianamente com a desesperança, a injustiça e as doenças que se multiplicaram como resultado desse crime.

Essa ferida sangra quando a Samarco nega os direitos de garimpeiros e pescadores artesanais em Rio Doce e em Santa Cruz do Escalvado, ao oferecer 1.900 reais para um grupo e 450 reais para o outro, e promover, de forma criminosa, a divisão comunitária e a destruição do processo coletivo.

Nas grandes e pequenas cidades, nos lugarejos e distritos, nas vilas e aldeias, esse crime promoveu crise aguda de abastecimento de água, seguida de permanente desconfiança com a água suja pela lama da Samarco – seja para uso comercial, uso familiar ou na produção agropecuária, seja na pesca artesanal ou profissional. São mais de 13 mil pessoas que perderam essa importante fonte de trabalho nas águas doce e salgada.

Neste contexto de injustiça, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) amplia sua presença e esforço de levar informação para as comunidades, construir os argumentos com a participação dos atingidos, transformar informação em poder popular com organização de base e luta social pelos direitos, ao fazer amplo diálogo com a sociedade e buscar alianças para fortalecer a luta em longo prazo.

Não podemos perder a energia diante da tentativa das empresas de “empurrar com a barriga” o processo de reparação, além de combater a autonomia das comunidades por meio da farsa do “Diálogo Social” e da Fundação Renova – instrumento nascido de um ato autoritário e que não deve ser reconhecido pelos atingidos.

Após a “Marcha de Regência a Mariana” e o “Encontro de 1 ano do Crime”, realizados entre 31 de outubro e 5 de novembro de 2016, com pessoas de todo o Brasil, neste último ano, o MAB realizou inúmeras atividades nas comunidades atingidas. O movimento está organizado em cinco polos de atuação: Mariana, Barra Longa, Ipatinga, Governador Valadares e Colatina, com extensão para Vitória.

Nesse período, realizou atos de denúncia contra a inoperância do Poder Judiciário, que atua favorecendo as empresas; protestou diante das sedes das mineradoras (Vale, no Rio de Janeiro); esteve na Assembleia dos Acionistas da BHP Billiton, em Londres; fechou estradas e ferrovias das mineradoras etc.

Conquistas

A partir da coragem dos atingidos, conquistas importantes foram alcançadas, como o reconhecimento de comunidades atingidas na Foz Norte e Sul do Rio Doce; a obrigação das empresas de pagar adiantamento de indenização e cartão subsistência, com a mudança de moradias e reforma de casas dos moradores do Parque de Exposições em Barra Longa, além da conquista da Assessoria Técnica independente na mesma cidade, após meses de luta e pressão e enfrentando permanente boicote das empresas.

Mesmo com conquistas, muitos desafios se anunciam diariamente para os atingidos da bacia. É preciso crescer em organização e unidade, utilizar, de forma cada vez mais inteligente e unificada, os instrumentos de pressão, com a preciosa contribuição de parceiros das igrejas, universidades, Ministério Público Federal e Estadual, entre outros.

Igualmente, é necessário vencer o bloqueio midiático que só se interessa pelos atingidos em tempos de aniversário da tragédia e que não acompanha os processos; elaborar uma pauta clara de reivindicações por cidade ou região, mas que deve ser instrumento de luta de todos os atingidos e, sobretudo, vencer qualquer tentação de desânimo.

Não podemos perder a energia diante da tentativa das empresas de “empurrar com a barriga” o processo de reparação, além de combater a autonomia das comunidades por meio da farsa do “Diálogo Social” e da Fundação Renova – instrumento nascido de um ato autoritário e que não deve ser reconhecido pelos atingidos.

O MAB não é um conjunto de representações em nome do povo, tampouco um discurso que se ouve em reuniões. É o próprio povo construindo, no campo e na cidade, um instrumento coletivo e popular de luta, de organização e de esperança, reconhecido internacionalmente após mais de 26 anos atuando em 19 Estados do país.

Ele tem sua legitimidade reafirmada em cada pequeno lugar onde homens, mulheres, jovens e crianças acreditam e se tornam sujeitos da própria história – incluindo os atingidos e atingidas por este crime que irão ver gerações se sucederem sem terem cicatrizadas as feridas abertas pelo mar de lama.